Parte do STF vê guinada extremista de Flávio sobre urna, já Kassio minimiza comparação com Bolsonaro

Kassio prepara novo modelo de registro de pesquisas, e especialistas apontam riscos de manipulação

Parte do STF vê guinada extremista de Flávio sobre urna, já Kassio minimiza comparação com Bolsonaro
Parte do STF vê guinada extremista de Flávio sobre urna, já Kassio minimiza comparação com Bolsonaro

Luísa Martins-brasília, Df (folhapress) - 22/07/2026 16:21:37 | Foto: Gustavo Moreno/STF

Pelo menos três ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) avaliam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), inspirado pelo governo americano, fez uma guinada extremista ao espalhar desinformação sobre as urnas eletrônicas.

Eles compartilham a percepção de políticos de que o pré-candidato abandonou o discurso de moderação na pré-campanha -o que foi tido como um erro estratégico pelo centrão.

Já o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, disse a interlocutores entender que as declarações do parlamentar a embaixadores estrangeiros nesta terça-feira (21) são menos graves do que as feitas pelo seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral de 2022.

Em uma palestra promovida pela consultoria Novo Selo Comunicação e pelo site The Brazilian Report, Flávio disse que os Estados Unidos denunciaram fraudes nas eleições da Venezuela e que as urnas utilizadas no país são da mesma empresa que fornece equipamentos ao Brasil, o que não é verdade.

Kassio, nomeado para o STF por Jair Bolsonaro, optou por não se posicionar publicamente sobre a afirmação falsa. O TSE apenas republicou um esclarecimento antigo na seção "Fato ou Boato" da corte.

Intitulada "Smartmatic, que forneceu urnas para a Venezuela, nunca vendeu aparelhos para o Brasil", a nota, publicada em 2020 e atualizada em 2022, diz que a empresa perdeu a licitação para a Positivo Tecnologia.

Para a ala do Supremo que é crítica à postura de Kassio, o falso paralelo entre as urnas venezuelanas e brasileiras não pode ser minimizado pelo TSE -especialmente porque, segundo esses magistrados, Flávio parece replicar um discurso do presidente americano Donald Trump, abrindo margem para interferências externas nas eleições.

Um ministro disse que as declarações são absurdas e que o TSE tem precedentes no sentido de que a disseminação de fake news sobre as urnas pode levar à inelegibilidade. Foi o que ocorreu com Bolsonaro, que, diante de uma plateia de embaixadores no Palácio da Alvorada, levantou suspeitas infundadas de fraude no sistema eletrônico de votação.

Kassio, entretanto, vê diferenças entre os dois casos, segundo relatou a um interlocutor. Para ele, enquanto Bolsonaro falou expressamente sobre suspeita de fraude, Flávio disse que não estava questionando o sistema, apenas pedindo aos embaixadores que seus países enviassem observadores para acompanhar o pleito brasileiro.

Outra diferença, segundo Kassio, seria que, na ocasião da reunião com embaixadores em julho de 2022, Bolsonaro era presidente da República e pré-candidato à reeleição, e se utilizou da máquina pública (dependências do Alvorada, transmissão pela TV Brasil) para espalhar mentiras sobre as urnas, o que não se aplicaria ao caso de Flávio.

Para outros dois ministros do TSE, a desinformação propagada por Flávio é grave e exige atenção, pois pode marcar o início de uma escalada golpista como a engendrada por Bolsonaro nas últimas eleições gerais. O ex-presidente cumpre pena de 27 anos e três meses de prisão por liderar essas articulações, que culminaram nos atos de 8 de janeiro.

Embora tenha escolhido não se manifestar institucionalmente sobre as declarações do senador, filho de quem o indicou para o Supremo, Kassio tem dito a auxiliares que a integridade do sistema eleitoral deve ser defendida e que o TSE tem uma série de campanhas em curso sobre esse tema.

Em discurso no mesmo evento de que Flávio participou, mas cinco dias antes, o ministro defendeu aos embaixadores e diplomatas a confiabilidade das urnas eletrônicas. "O Brasil desenvolveu uma das mais sofisticadas estruturas de integridade eleitoral existentes no mundo", afirmou.

Kassio prepara novo modelo de registro de pesquisas, e especialistas apontam riscos de manipulação

LUÍSA MARTINS E ANA POMPEU-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Kassio Nunes Marques, prepara um novo modelo de registro para pesquisas eleitorais, em que os institutos terão de preencher um formulário para detalhar, entre outras informações, o perfil dos eleitores que pretendem entrevistar.

Um dos itens em avaliação é a exigência de que as empresas informem previamente os bairros em que a pesquisa ocorrerá -uma iniciativa que, de acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, pode dar margem para interferências indevidas e manipulação de resultados.

A medida é mais um capítulo de uma investida de Kassio para determinar regras para pesquisas eleitorais, após uma decisão que censurou um levantamento da Atlas/Bloomberg e a proposta de um "selo de acurácia" para os institutos que publicarem pesquisas com resultados próximos ao apurado nas urnas. As duas iniciativas foram alvos de críticas de empresas e especialistas.

O presidente do TSE tem sinalizado a interlocutores que considera o protocolo atual de registro de pesquisas genérico, pois, embora os institutos sejam obrigados a prestar uma série de dados sobre a metodologia da pesquisa e o perfil das amostras, não há uma sistematização dessas informações.

Nessas conversas, Kassio avalia que o processo poderia ser mais transparente, para oferecer acesso a esses dados à população, aos partidos políticos e às campanhas que eventualmente desejem questionar na Justiça um determinado levantamento.

A ideia do ministro é apresentar as principais informações de cada pesquisa em uma plataforma no site do TSE, com um "layout" que evidencie cada uma delas, facilitando a consulta pelos candidatos e pelo eleitorado.

Nas discussões com sua equipe, o presidente do TSE tem dito que o formulário que será disponibilizado aos institutos é uma iniciativa simples de aperfeiçoamento e que não haverá nenhuma interferência do tribunal no mérito das pesquisas, exceto em casos de judicialização.

O ministro tem afirmado a pessoas próximas que os institutos precisam justificar, por exemplo, eventuais casos em que a amostra de eleitores será entrevistada em uma determinada área geográfica, e não em outra. Se a pesquisa for realizada apenas numa região específica de um estado, essa informação precisa ser tornada pública, ele argumenta.

De acordo com relatos feitos à reportagem por auxiliares do ministro, outra indagação que pode ser feita no questionário é se o instituto tomou as devidas precauções para evitar que robôs participem de pesquisas feitas pela internet.

Uma outra possibilidade é questionar o instituto sobre a intenção de mostrar aos entrevistados fotos, áudios ou vídeos relacionados a algum candidato -controvérsia que será discutida pelo plenário do TSE em agosto, quando for retomado o julgamento sobre o caso Atlas/Bloomberg.

A pesquisa, que mostrou queda de seis pontos percentuais nas intenções de voto para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foi censurada por Kassio em junho. O ministro entendeu que houve "indução grave de percepção negativa" sobre o pré-candidato.

O instituto mostrou aos entrevistados o áudio em que Flávio pede dinheiro ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme "Dark Horse", que conta a história de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Diretora do Datafolha, instituto de pesquisas de opinião pertencente ao Grupo Folha, Luciana Chong entende que o formulário adiciona mais uma etapa de burocracia, sem ganho real para a transparência, uma vez que os dados da amostra já ficam disponíveis nos cadastros feitos atualmente.

Para ela, a preocupação maior é com a possibilidade de que as empresas tenham de informar previamente os bairros em que o levantamento será realizado. "Isso seria um absurdo. Qualquer campanha poderia tentar interferir na aplicação da pesquisa, colocando em risco a sua integridade."
Hoje, os institutos de pesquisa que realizam entrevistas presenciais tomam precauções para evitar que grupos políticos procurem ativamente os entrevistadores, com o objetivo de manipular o resultado final. Esse risco poderia ficar maior caso houvesse a divulgação prévia das regiões em que o levantamento será feito.

Segundo o coordenador do comitê de opinião pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, João Francisco Meira, a medida coloca os entrevistadores em uma posição vulnerável a pessoas hostis.

"Informando antecipadamente os locais, pode haver um esforço por parte das campanhas de deslocar pessoas que não são representativas daquela população", diz. "Também pode significar risco pessoal aos entrevistadores, que podem ter seu trabalho inviabilizado."
Meira também entende que a iniciativa pode abrir espaço para mais judicialização de pesquisas eleitorais, com ações apresentadas por má-fé, apenas para tentar atrasar a divulgação de resultados.

A cientista política e professora da USP Maria Tereza Sadek avalia que a Justiça Eleitoral não tem atribuição de fiscalizar os institutos de pesquisa. "O TSE tem que focar a sua missão, que é a de organizar eleições limpas e sem ruídos, o que já é uma tarefa hercúlea."
Os especialistas também são contrários à proposta de Kassio de premiar os institutos cujas pesquisas mais corresponderem aos resultados oficiais das eleições. O ministro apresentou a minuta do texto às empresas na semana passada, e ainda analisa as sugestões.

A minuta inicial prevê selo de acerto para levantamentos realizados nos sete dias anteriores à eleição. Kassio, agora, cogita uma mudança -restringir esse universo para as pesquisas feitas a 48 horas do pleito, para que a disputa pelo prêmio seja mais uniforme.

Fala sobre urnas vira munição contra tentativa de Flávio de construir imagem moderada

CAIO SPECHOTO, AUGUSTO TENÓRIO E CAROLINA LINHARES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo e lideranças do centrão apontam erro estratégico de Flávio Bolsonaro (PL) na declaração desta terça-feira (21) contra as urnas eletrônicas. Integrantes do PT afirmam que o discurso acabou com a tentativa de moderação do pré-candidato à Presidência. Já o centrão aponta que o senador atraiu para si um tom derrotista ao tentar resgatar um assunto considerado pelo grupo como "página virada".

"A tentativa de apresentar Flávio como um candidato moderado era uma estratégia fadada ao fracasso. Ele é o que é, um bolsonarista raiz, e como tal flerta com o golpismo, os ataques às instituições e com uma postura submissa, entreguista a interesses estrangeiros. A melhor definição de Flávio partiu de Donald Trump: Bolsonaro Júnior", disse à reportagem o secretário de comunicação do PT, Éden Valadares.

Desde que assumiu sua pré-candidatura, Flávio Bolsonaro tem tentado passar uma imagem de moderação, pelo menos em comparação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A avaliação do PL era que, se não apostasse nos mesmos discuros do pai, ele poderia recuperar parte dos eleitores de centro e vencer o presidente Lula (PT) na eleição de outubro.

Apesar disso, Flávio passou a enfrentar dificuldades de manter esse discurso, principalmente diante do tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, logo após o pré-candidato visitar Donald Trump e tirar uma foto com o presidente estadunidense. Nesse sentido, a associação, já desmentida, de relação entre urnas brasileiras e uma empresa venezuelana piorou esse cenário.

O deputado Jilmar Tatto (PT-SP) defendeu a retirada de Flávio da corrida eleitoral. "Acho que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) devia não deixar ele ser candidato. O cara não confia na urna eletrônica, como participa de um pleito que acha que não tem segurança?", afirmou.

No centrão, integrantes de partidos com quem Flávio manteve diálogo, do PP, ao União Brasil e Republicanos, dizem que a declaração só não atrapalhou uma aliança com a sigla porque elas já tinham descartado uma adesão formal à candidatura do PL à Presidência da República.

Anteriormente, parte do centrão havia colocado a moderação como pré-requisito para uma eventual aliança com Flávio Bolsonaro. Uma ala aponta que, ao por em xeque a confiabilidade das urnas, o senador não só voltou a um assunto considerado "página virada" como assumiu um tom de "derrotismo" no pleito de outubro.

O grupo diz que tal estratégia, de reunir diplomatas para atacar o sistema de votação nacional, não rendeu bons frutos ao pai de Flávio Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores e atacou as urnas. Ele foi condenado pelo TSE, ficando inelegível por oito anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Enquanto isso, um interlocutor da pré-campanha de Flávio Bolsonaro minimiza o impacto. Ele argumenta que, nas bolhas da direita, houve pouca atenção para o discurso do pré-candidato sobre as urnas eletrônicas.

Reconhece, porém, que a fala municiou influenciadores da esquerda para explorarem o assunto nas redes sociais

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