Áudio de Flávio com Vorcaro irrita pastores, e ala defende migrar apoio para Caiado

Saiba quem é Henrique Vorcaro, pai do dono do banco Master preso nesta quinta

Áudio de Flávio com Vorcaro irrita pastores, e ala defende migrar apoio para Caiado
Áudio de Flávio com Vorcaro irrita pastores, e ala defende migrar apoio para Caiado

José Marques-brasília, Df (folhapress) - 14/05/2026 18:02:29 | Foto: Polícia Federal

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu uma quantia milionária a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai caiu como um balde de água fria entre lideranças evangélicas que, nos bastidores, já vinham demonstrando entusiasmo limitado com sua pré-candidatura à Presidência.

No Aliança, grupo de WhatsApp que reúne pastores de densidade nacional, o clima azedou desde que vieram à tona os relatos de que Flávio teria solicitado R$ 134 milhões ao dono do banco Master para a produção de um filme em que o ator Jim Caviezel (o Jesus de "A Paixão de Cristo") interpreta Jair Bolsonaro (PL). Ao menos R$ 61 milhões foram repassados, e Flávio foi atrás de mais recursos.

O áudio da conversa revoltou pastores. Publicamente, falam em aguardar pelos desdobramentos do caso. Nos bastidores, contudo, uma ala já defende migrar seu apoio para o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). O mineiro Romeu Zema (Novo) empolga menos, mas não é descartado.

A irritação se deu menos pelo pedido de dinheiro em si e mais pelo contexto e pela falta de transparência atribuída àquele que se posiciona como herdeiro político do bolsonarismo. Até então, Flávio sustentava que jamais havia tido contato com Vorcaro.

A revelação reacendeu uma desconfiança que já rondava boa parte da liderança: a de que o primogênito do ex-presidente não herdou automaticamente o capital político do pai nem sua conexão orgânica com a base religiosa.

O Aliança funciona como um termômetro para os humores políticos dessa cúpula evangélica. Fazem parte do grupo nomes como Silas Malafaia, Renê Terra Nova, Estevam Hernandes, Robson Rodovalho e Abner Ferreira, todos líderes com trânsito político.

A preocupação maior, agora, é permanecer ao lado de Flávio, "porque fica a dúvida do que pode ter mais para frente", disse reservadamente uma liderança. Novas denúncias são tratadas como prováveis.

Muitos ainda não tinham declarado endosso público ao senador. Até pretendiam fazê-lo mais adiante, mas um movimento nesse sentido fica suspenso por ora. Um pastor influente chegou a apagar uma postagem recente em apoio a Flávio logo após o caso ganhar repercussão.

O grupo discutiu outras alternativas para enfrentar Lula (PT) assim que os áudios começaram a circular. O nome de Caiado voltou à roda. Também lamentaram a inviabilidade de uma dobradinha com Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) à frente da chapa e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na vice. A regra eleitoral não permite que, a essa altura, o governador tente um cargo diferente do que ele já ocupa.

Já uma chapa capitaneada por Michelle, embora vislumbrada por alguns, teria que antes enfrentar barreiras de ordem familiar. Conflitos entre os filhos de Bolsonaro e sua madrasta não são segredo para nenhum dos pastores.

A percepção é que o episódio com Vorcaro atingiu um ponto sensível justamente porque ocorre num momento em que o campo conservador tenta reorganizar sua sucessão para 2026 enquanto Bolsonaro segue inelegível. Flávio não seria, na avaliação da maioria desses líderes, o presidenciável ideal, por carregar consigo passivos demais.

"Ainda está nebuloso", admite o bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra. Ele não vê problemas na passagem de pires em si. "No áudio, Flávio está fazendo um pedido de patrocínio a um banco. Mais do que natural, sem contrapartida nenhuma, pelo menos nada conhecido até agora. Teremos que aguardar os desdobramentos."
Rodovalho reconhece, porém, que o episódio já produziu efeito negativo. "Nesse instante as coisas estão sobrestadas, aguardando mais informação. Mas já se sabe que já tem um impacto político significativo."
O tom bíblico também apareceu. O apóstolo César Augusto, da igreja Fonte da Vida, enviou à reportagem um versículo do Evangelho de Lucas: "Não há nada escondido que não venha a ser descoberto, ou o que está oculto que não venha a ser conhecido."
"O momento é de espera", escreveu. "Tudo que está oculto vai ser revelado. A CPI é o instrumento legal para trazer à luz o que está encoberto."
Já o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, avisou que pretende publicar um vídeo sobre o tema nesta quinta (15). Ele resistia a embarcar na candidatura de Flávio, cético em relação ao projeto presidencial. Não via no senador "musculatura" para sustentar a disputa.

Acabou abrindo espaço para o filho 01 de Bolsonaro em culto realizado no último dia 3, gesto lido como um aceno à candidatura.

O pastor Teo Hayashi, da Zion Church, afirmou não enxergar irregularidade em buscar patrocínio privado. Lembrou que Vorcaro também financiou produções ligadas a outros campos políticos, incluindo filmes sobre Lula e Michel Temer (MDB-SP), segundo o jornal O Globo.

Para Hayashi, o problema central foi outro: a omissão. "Qual eu acho que é o problema? É o fato dele não ter aberto o relacionamento dele com o Vorcaro, uma vez lançado candidato. E, se você pegar a linha do tempo, no momento que pede patrocínio já tem uma suspeita sendo levantada [sobre o dono do Master]."
Saldo: o episódio provoca desgaste político e também econômico, com a queda da Bolsa e a subida do dólar, avalia o pastor, à frente do Dunamis, movimento de evangelização em universidades, e do The Send, festival missionário que já brincou ser o "Lollapalooza crente".

"O compromisso da igreja e do povo cristão é com valores, mais do que com pessoas. Qualquer um que for pego com dinheiro sujo não tem o nosso apoio, independente de partido, sobrenome ou lado político", afirmou.

Destino do dinheiro, orçamento do filme e histórico de Flávio e Vorcaro: 3 perguntas sem resposta

ARTHUR GUIMARÃES DE OLIVEIRASÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mensagens reveladas nesta quarta-feira (13) expuseram cobranças de dinheiro feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e abalaram a pré-campanha do senador à Presidência.

O conteúdo foi divulgado pelo site The Intercept Brasil. O veículo mostrou que Flávio negociou transferências milionárias com o ex-dono do Banco Master para custear a produção de "Dark Horse", uma cinebiografia do pai, Jair Bolsonaro (PL). A autenticidade das mensagens foi confirmada pela Folha.

Os repasses chegaram a R$ 61 milhões, mas, segundo The Intercept, o acordo compreendia um total de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época. Não há evidência de que todo o dinheiro tenha sido transferido.

O QUE É O FILME
"Dark Horse" é inspirado em uma história escrita pelo deputado Mario Frias, que é produtor-executivo do longa. O roteiro narra os momentos após a facada em Juiz de Fora (MG), em 2018, na campanha a presidente.

O americano Jim Caviezel, que interpreta Bolsonaro, disse que a obra estreia no cinema dia 11 de setembro, mas não há confirmação oficial.

O QUE DIZ FLÁVIO
Em nota, Flávio confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro para o filme, mas negou ter recebido ou oferecido vantagens. "É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público".

PARA ONDE FOI O DINHEIRO?
Ainda não está claro o destino dos recursos.

Embora Flávio tenha confirmado o pedido da verba, e Vorcaro tenha pago R$ 61 milhões, a produtora do filme "Dark Horse" Go Up Entertainment negou ter recebido repasses de verba do ex-banqueiro para o projeto.

Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da empresa, disse à Folha que o filme só tem investimentos estrangeiros, sem ligação com Vorcaro. O produtor-executivo e ex-deputado federal Mário Frias também declarou que não há "um centavo" do ex-banqueiro na produção.

POR QUE O FILME RECEBERIA R$ 134 MILHÕES?
Os R$ 134 milhões que seriam destinados ao filme extrapolam o orçamento usual da indústria cinematográfica.

"Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, foi orçado em R$ 45 milhões. Já "O Agente Secreto", indicado na mesma categoria, custou cerca de R$ 28 milhões.

Considerando outras produções internacionais que disputaram a última edição do Oscar, os R$ 61 milhões que teriam sido efetivamente repassados por Vorcaro antes de sua prisão superam ainda o orçamento de "Valor Sentimental", que ganhou a estatueta da categoria, com estimativa de US$ 7,8 milhões de orçamento.

POR QUE FLÁVIO NEGOU TER CONTATO COM VORCARO SE TROCOU MENSAGENS E O CHAMOU DE 'IRMÃO'?
De acordo com The Intercept, a primeira aproximação registrada entre Flávio e Vorcaro ocorreu em dezembro de 2024. Quem organizou o encontro foi o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias.

As mensagens reveladas pelo site indicam uma relação próxima entre os dois. Um dia antes de o ex-banqueiro ser preso, em novembro de 2025, o senador escreveu para ele: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!".

Mas, há dois meses, Flávio negou que tivesse havido qualquer contato com o ex-dono do Banco Master quando a Folha revelou que seu número de telefone estava na agenda de Vorcaro.

Policia Federal cumpre mandados contra hackers suspeitos de atuarem para Daniel Vorcaro

Três hackers que atuavam para o grupo chamado de A Turma, investigado por fazer ameaças sob determinação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, são alvos de mandado de prisão nesta quinta-feira (14), na sexta fase da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master.

A mesma ação também prendeu o pai de Daniel, Henrique Vorcaro, além de um agente da Polícia Federal.

Os hackers são suspeitos de atuarem para derrubar conteúdos negativos contra Vorcaro publicados na internet ou para tentar inflar publicações positivas sobre ele.

A operação desta quinta investiga pessoas relacionadas a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, que era suspeito de ter atuado para Vorcaro em uma milícia privada e cometeu suicídio ao ser preso, em março.

A sexta fase da Compliance Zero apura se o pai de Vorcaro e outras pessoas cometeram atos de intimidação, de coerção, de obtenção de informações sigilosas e de invasões a dispositivos informáticos. A defesa de Henrique Vorcaro foi procurada, mas ainda não se manifestou.

Uma delegada da PF de Minas Gerais também foi alvo de busca e apreensão e afastada do cargo, e um agente da ativa foi preso. Um delegado aposentado foi alvo de busca.

No total, a polícia cumpre sete mandados de prisão preventiva (sem tempo determinado) e 17 de busca e apreensão, expedidos pelo ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal).

São investigadas suspeitas dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.

Saiba quem é Henrique Vorcaro, pai do dono do banco Master preso nesta quinta

JOSÉ MARQUES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Henrique Vorcaro, preso nesta quinta-feira pela Polícia Federal, é empresário e pai de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Delatado pelo filho, ele aparece nas investigações como um dos principais nomes do núcleo familiar ligado aos negócios do grupo.

Fundador do grupo imobiliário Multipar, Henrique construiu trajetória no setores de imóveis e administradoras empresariais, com participação em operações de grande porte. Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) indica que a empresa da família movimentou cerca de R$ 1 bilhão em transações consideradas atípicas entre contas ligadas ao dono do Master. O conselho identificou que a movimentação sugere uma tentativa de esconder o patrimônio.

Ele também aparece como sócio, ao lado da filha Natália Vorcaro, de um projeto de créditos de carbono na Amazônia que, segundo investigações, foi utilizado para inflar o valor de fundos ligados ao ecossistema do banco. A estrutura envolvia ativos sem lastro efetivo de mercado, usados para sustentar avaliações bilionárias.

O nome de Henrique surge ainda em ações judiciais relacionadas ao colapso do banco, que apuram a possível participação de familiares em operações de desvio e ocultação de recursos. As investigações seguem em curso, e a família nega irregularidades.

Henrique foi preso em uma nova fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes envolvendo o Banco Master.

Henrique Vorcaro era um participante ativo da rede de movimentações financeiras do Master e do filho. Eles participavam juntos de empresas que, segundo as investigações, teriam sido usadas para ocultar patrimônio do esquema.

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