Hoje completam-se 163 anos
Por António Cabrera* - 30/10/2026 05:23:47 | Foto: Alesp
Em 29 de outubro de 1863, uma conferência internacional em Genebra aprovou as resoluções que deram origem ao movimento da Cruz Vermelha.
Hoje completam-se 163 anos.
Tenho o privilégio de guardar na minha biblioteca um exemplar da primeira edição do livro que tornou isso possível: Un Souvenir de Solférino (Uma Recordação de Solferino), publicado em 1862 pelo suíço Henry Dunant. Cada vez que o abro, lembro que a fé cristã ganha sentido quando vira gesto.
Em junho de 1859, Dunant, um empresário de 31 anos, viajava a negócios pelo norte da Itália. Chegou a Castiglione delle Stiviere logo depois da batalha de Solferino e encontrou milhares de mortos e feridos espalhados pelos campos e pelas igrejas, quase sem socorro.
Ele podia ter seguido viagem e ficou. Organizou os moradores, sobretudo as mulheres da cidade, comprou curativos e água, buscou médicos e cuidou dos feridos sem perguntar de que país eram, a que exército pertenciam ou qual religião professavam. As moradoras repetiam uma frase que ficou na história: "Tutti fratelli", somos todos irmãos.
Dunant era um cristão de fé prática. Na juventude, ajudou a fundar a Associação Cristã de Moços em Genebra e dedicava parte do tempo a visitar pobres e presos. Acreditava que o Evangelho devia aparecer em atitudes concretas de amor ao próximo.
De volta a Genebra, escreveu o livro com o próprio dinheiro e enviou os exemplares a governantes e líderes da Europa. Propôs a criação de sociedades de voluntários para cuidar dos feridos de qualquer nacionalidade. A conferência de outubro de 1863 transformou a ideia em realidade, e no ano seguinte foi assinada a primeira Convenção de Genebra. Em 1901, Dunant recebeu o primeiro Prêmio Nobel da Paz.
Ao folhear essa primeira edição, lembro da parábola do bom samaritano e da ordem de Jesus: "Vai e procede tu de igual modo" (Lucas 10:37). O samaritano interrompeu a viagem, cuidou do ferido e pagou a conta com os próprios recursos. Dunant fez o mesmo, e o gesto acabou alcançando o mundo inteiro.
A história dele mostra que ninguém precisa ocupar cargo público, ter poder político ou esperar a iniciativa do Estado para fazer o bem. Basta compaixão, responsabilidade e disposição para agir, seja no campo de batalha, na comunidade, na empresa ou na fazenda.
Um homem de negócios, movido pela fé, ajudou a criar uma das maiores iniciativas humanitárias da história. Por isso esse livro ocupa um lugar tão especial na minha estante.
A fé que muda o mundo é a que sai das palavras e chega às mãos.
*Antonio Cabrera Mano Filho GOMM é um médico veterinário brasileiro. Durante o governo Collor, fez história ao tornar-se, aos 29 anos, o mais jovem Ministro de Estado da República Brasileira, comandando o Ministério da Agricultura. Por São Paulo, foi secretário da Agricultura durante o governo Mário Covas
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