Na disputa dentro de seu partido para representar o que seria a terceira via, Caiado venceu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o mais afastado do bolsonarismo entre as três opções de Gilberto Kassab
Ana Gabriela Oliveira Lima São Paulo, Sp (folhapress) - 31/03/2026 10:01:36 | Foto: Ronaldo Caiado é governador de Goiás / Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
"A minha trajetória de vida é exatamente no mesmo eleitorado do presidente Bolsonaro." A frase, dita em 2024, é de Ronaldo Caiado, 76 anos, escolhido pelo PSD nesta segunda-feira (30) para representar uma alternativa aos eleitores que não querem reeleger Lula (PT) ou o projeto político de Jair Bolsonaro (PL), agora sob a tutela do filho Flávio.
Na disputa dentro de seu partido para representar o que seria a terceira via, Caiado venceu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o mais afastado do bolsonarismo entre as três opções de Gilberto Kassab. Contra Ratinho Junior, venceu por default, uma vez que o governador do Paraná, tido antes como o preferido, desistiu da disputa pela pré-candidatura ao cargo na semana passada.
O governador de Goiás nunca negou o desejo de reeditar a corrida que tentou uma única vez, em 1989. Nela, a primeira eleição direta para a Presidência após a ditadura militar (1964-1985), concorreu contra outros 21 candidatos, dentre eles Lula, e obteve menos de 1% dos votos. No segundo turno, Fernando Collor foi eleito, derrotando o petista.
Caiado também nunca negou que setor representa, mesmo quando, segundo ele diz, era mais difícil defender abertamente o interesse da direita agrária. "Me coloquei como candidato naquela época [1989] que ninguém tinha coragem de defender o setor rural, a livre iniciativa, o direito de propriedade", disse em entrevista à Folha de S. Paulo em 2024.
Naquele ano, Caiado concorreu pelo partido PSD, que coincidentemente possuía o mesmo nome da sigla atual de Kassab, mas que teve a estrutura absorvida pelo PTB em 2003. Kassab lançou a sua legenda em 2011.
A reedição da disputa de 1989 é vista com ceticismo por parte do meio político, para quem o goiano pode ter de novo uma votação inexpressiva ao concorrer ao Palácio do Planalto.
"As pesquisas mais recentes mostram que ele aparece na casa de 4% a 5% quando o nome é apresentado ao eleitor, mas tem menos de 1% na pesquisa espontânea, que é justamente a que mede lembrança real. Esse é um dado importante, porque indica que ele ainda não conseguiu se tornar uma opção presente no imaginário do eleitor médio brasileiro", opina o cientista político Elias Tavares.
Um dos desafios vem do fato de ter proposta e público similares aos de Bolsonaro, de quem ansiou abertamente receber o espólio político antes que o senador Flávio (PL-RJ) fosse indicado pelo pai para a disputa. Caiado acenou ao eleitorado bolsonarista, por exemplo, participando de manifestações de apoiadores do ex-presidente na avenida Paulista, em 2024 e 2025.
Resta a ele o apoio do PSD e a herança da própria família, uma das mais influentes do Centro-Oeste, mas que também carrega a pecha de práticas como de coronelismo durante a República Velha (1889-1930).
Segundo Robson Gomes Filho, professor de história da UEG (Universidade Estadual de Goiás), o histórico da família no estado remonta ao século 18.
A família teve presidentes do estado (cargo atual de governador), senadores e deputados, com perda de influência local depois da Revolução de 1930. Desde então, porém, se manteve na vida política, a exemplo do deputado federal Emival Caiado, autor de projeto de lei que levou à inauguração de Brasília em 1960, diz Itami Campos, doutor em ciência política pela USP e professor emérito da UFG (Universidade Federal de Goiás).
Depois da ditadura, quem retoma o protagonismo da família é Ronaldo Caiado, com a fundação da UDR (União Democrática Ruralista) em 1985, entidade "abertamente de direita, anticomunista, ruralista e defensora da propriedade rural", afirma Gomes Filho.
Marido de Gracinha Caiado, pré-candidata ao Senado, e pai de Ronaldo Filho, já falecido, Anna Vitória, Maria e Marcela, o presidenciável é médico graduado e com mestrado na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Foi deputado federal por cinco mandatos, o primeiro iniciado em 1991. Em 2014, foi eleito senador por Goiás. Chegou ao Executivo do estado em 2018 e foi reeleito no pleito seguinte. No Congresso, passou a maior parte do tempo no PFL (que virou DEM em 2007 e, depois, se tornou União Brasil).
Sua atuação política foi marcada, além da defesa do agronegócio, pela oposição ao PT, além de apelo às bandeiras da segurança pública e do combate à corrupção.
De Bolsonaro se distanciou publicamente durante a pandemia, quando afirmou que as declarações do ex-presidente sobre a Covid-19 não alcançariam o estado de Goiás, mas depois buscou a reaproximação.
Em diversas entrevistas, prometeu anistiar o ex-presidente e já relativizou a ditadura, referindo-se a ela como período de "restrições" feitas via atos institucionais.
Ele finaliza a gestão de governador com acordo controverso com os Estados Unidos sobre terras raras, o que gerou críticas indiretas do presidente Lula sobre subserviência a países estrangeiros.
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