Governo brasileiro teme proliferação nuclear e Israel expansionista na esteira do conflito no Irã

Guerra no Irã vira ônus para Trump enquanto Netanyahu colhe dividendos políticos

Governo brasileiro teme proliferação nuclear e Israel expansionista na esteira do conflito no Irã
Governo brasileiro teme proliferação nuclear e Israel expansionista na esteira do conflito no Irã

Patrícia Campos Mello São Paulo, Sp (folhapress) - 29/03/2026 19:51:22 | Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil

Para além dos impactos imediatos da guerra no Irã sobre preços de combustíveis e fertilizantes, o governo brasileiro se preocupa com as possíveis implicações de longo prazo: um ambiente propício para a proliferação nuclear e um Israel expansionista.

Segundo autoridades do Itamaraty e do Planalto ouvidas pela Folha, o conflito no Irã pode levar países a buscarem capacidade própria de dissuasão. Depois da Europa, agora são os países do Golfo que reavaliam o guarda-chuva de segurança oferecido pelos EUA.

Países como Arábia Saudita e Emirados Árabes se opunham aos ataques de Israel e EUA contra o Irã, antevendo que a maior parte da retaliação seria direcionada a eles. Apesar de serem aliados de Washington, eles não foram consultados sobre a ofensiva e tiveram suas ressalvas ignoradas.

Após gestões de Trump, o líder saudita, Mohammed bin Salman, que tem fortes laços econômicos com os EUA e a família Trump, passou a apoiar os ataques americanos. Para a Arábia Saudita e os Emirados, pior do que ter iniciado a guerra é sair dela deixando no poder um regime hostil.

Ainda assim, na avaliação do governo brasileiro, isso pode levar países da região a investir mais em armamentos e até mesmo em opções nucleares, caso se mantenha no poder no Irã uma gestão linha-dura. Os sauditas são aliados do Paquistão, país que detém armamentos nucleares.

Isso também pode consolidar a percepção no Irã da necessidade de manter armamentos de dissuasão, um retrocesso para as iniciativas que tentam impedir a proliferação nuclear no mundo.

Esse cenário se daria caso a guerra se encerrasse com o regime iraniano enfraquecido econômica e militarmente, mas ainda sobrevivendo, o que deve fortalecer lideranças linha-dura e o nacionalismo no país.

Já no caso de um regime islâmico derrotado, isso poderia estimular uma atuação mais exapnsiva de Israel na região, na avaliação do governo brasileiro. Além de manter a ocupação no Líbano e fazer avanços na Cisjordânia, o governo de Binyamin Netanyahu poderia empreender ações para enfraquecer a Turquia. Parte do governo Netanyahu defende uma "Grande Israel", com fronteiras fluidas expandidas, zonas de amortecimento e enfraquecimento de rivais na região.

Para o governo brasileiro, a ocupação do território libanês pode se transformar em uma ocupação de longo prazo, com Israel se mantendo no país árabe mesmo após uma retirada dos EUA do conflito contra o Irã.

O Brasil também vê riscos de Israel manter ataques contra o Irã mesmo após uma saída dos EUA. Logo após os ataques iniciais de 28 de fevereiro, Netanyahu comemorou, dizendo que a aliança com os EUA "nos permite fazer o que queríamos fazer nos últimos 40 anos".

A maioria do público doméstico israelense apoia a guerra contra o Irã e será difícil para Netanyahu justificar uma saída no curto prazo. E o regime islâmico, embora abalado após milhares de bombardeios israelenses e americanos, continua de pé, sem contestações populares ostensivas.

Também na avaliação de autoridades brasileiras, estão cada vez mais claras as divergências de objetivos entre Netanyahu e Trump para a guerra no Irã.

Para Israel, a meta é enfraquecer ao máximo Teerã. Netanyahu é menos sensível a pressões econômicas causadas pela crise no mercado energético. Já o governo Trump está mais vulnerável à desestabilização da economia internacional e o estremecimento da relação com os países do Golfo.

Na seara doméstica, os ataques contra o Irã e a influência israelense na política externa americana já causam rachaduras na base MAGA de Trump. Figuras como Tucker Carlson tem sido vocais contra o conflito. Joe Kent, diretor do centro de contraterrorismo dos EUA e fiel seguidor de Trump, pediu demissão afirmando que o Irã não representava "uma ameaça iminente" aos americanos e que o governo "iniciou a guerra por causa da pressão de Israel e seu poderoso lobby nos EUA".

Ao contrário do público israelense, os eleitores americanos desaprovam fortemente a guerra. Segundo pesquisa AP-NORC divulgada nesta semana, 59% dos americanos acreditam que as ações americanas no Irã têm sido excessivas. E 45% estão "muito" ou "extremamente" preocupados com o preço da gasolina nos próximos meses, um salto diante dos 30% que tinham a mesma opinião logo após Trump vencer a eleição prometendo melhorar a situação econômica e reduzir o custo de vida -o preço médio da gasolina nos EUA subiu 30% em março.

As autoridades brasileiras fazem a ressalva de que é muito difícil fazer avaliações neste momento de incerteza no conflito, com os EUA dizendo que estão próximos de resultados positivos em negociações, e o Irã demonstrando o oposto.

Na primeira, condenou os ataques ocorridos "em meio a um processo de negociação entre as partes". E fez um apelo a todoso os envolvidos pedindo que respeitassem o Direito Internacional e exercessem "máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil." Na segunda, condenou os ataques retaliatórios do Irã contra Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait e Jordânia.

Ainda no âmbito diplomático, o Brasil não foi um dos 140 países a patrocinar a resolução 2817 do Conselho de Segurança da ONU -o texto condena as ações retaliatórias do Irã contra os países do Golfo, mas não rechaça os ataques de Israel e EUA ao país persa.

A China, membro permanente, absteve-se, afirmando que a resolução "não retrata a causa original e o cenário completo do conflito de uma maneira equilibrada". O representante da Rússia, que também não apoiou o texto, disse que ele "adota um tom enviesado".

Independentemente do desfecho do conflito, o governo brasileiro já prevê uma fragilização ainda maior da ordem internacional.

Já com a intervenção americana na Venezuela para capturar o ditador Nicolás Maduro e instalar no lugar um governo mais dócil, desenhava-se um cenário geopolítico em que uma superpotência ignora sistematicamente as regras internacionais.

Com a guerra no Irã, isso se reforça. O governo brasileiro receia que, com o governo americano cada vez mais enrolado no Irã, Trump busque fatores diversionistas para tirar o foco do Oriente Médio. Seguindo a "Doutrina Donroe" de hegemonia no Hemisfério Ocidental, Trump poderia embarcar em uma operação de troca de regime em Cuba -o que teria repercussões muito negativas no Brasil.

O governo brasileiro mantém sua representação diplomática em Teerã, com o embaixador e dois diplomatas presentes no país.

Logo após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, e Itamaraty divulgou duas notas diplomáticas.

Guerra no Irã vira ônus para Trump enquanto Netanyahu colhe dividendos políticos

SIDNEY FONTINELE-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um mês após o ataque conjunto de Estados Unidos e Israel, a guerra no Irã se tornou um problema diplomático e doméstico para Washington. Em vez de uma vitória rápida como Donald Trump aparentava esperar, a escalada do conflito ameaça corroer a influência global americana e corre o risco de fazer desmoronar até a base eleitoral do republicano, afirmam especialistas ouvidos pela Folha.

A armadilha, segundo os analistas, tem nome: Binyamin Netanyahu. Para Daniel Rio Tinto, doutor em estudos internacionais e professor da FGV, a especulação na opinião pública americana é que o presidente foi "sugado" para a guerra pelo primeiro-ministro de Israel.

"Na literatura de ciência política temos um termo para isso que é muito difícil de traduzir, chamado 'moral hazard' [risco moral]; essa ideia de que seu aliado faz alguma coisa e você é obrigado a ajudá-lo, mesmo que não concorde diretamente", explica. "Os EUA consideram que isso pode ser uma implicação da relação com Israel, porque é um aliado que não conseguem controlar completamente."
Essa á uma possibilidade que tanto o israelense quanto o americano negam.

"Eu não enganei ninguém, e não tive que convencer o presidente Trump da necessidade de impedir que o Irã desenvolvesse seu programa nuclear, colocando ele debaixo da terra e possibilitando o lançamento de mísseis com ogivas nucleares nos EUA. Ele já entendia isso; ele me explicou, não eu para ele", afirmou Netanyahu em entrevista coletiva recente. "Os EUA não lutam por Israel, mas com Israel."
Ter sido impulsionado à guerra por Netanyahu traria a Trump o ônus político de contrariar sua promessa de campanha de não envolver os EUA em conflitos internacionais. E, como afirma Karabekir Akkoyunlu, professor de ciência política da UFMG, a insatisfação dos americanos é um fator central para a sobrevivência política de Trump.

"A resistência a novos envolvimentos militares no Oriente Médio cresce inclusive em setores da direita ligados ao movimento Maga, que temem que os EUA sejam arrastados para conflitos custosos", diz, citando a sigla que se refere ao slogan "faça a América grandiosa novamente" e é usada para denominar a base mais leal ao presidente.

O resultado é uma guerra altamente impopular. Diferentemente do esmagador apoio doméstico dado a empreitadas militares após o ataque do Japão a Pearl Harbor e no início da chamada "guerra ao terror", a atual ofensiva americana amarga uma aprovação que varia de apenas 27% a 50% nos EUA, de acordo com pesquisas da Reuters/Ipsos e Fox News.

Se a escalada exigir o envio de tropas americanas ao solo iraniano, como as movimentações militares até aqui indicam, o custo político pode ser ainda maior. "Isso seria uma derrota, no sentido de que Trump prometeu aos americanos que não se envolveriam em novas guerras. Ele estava conseguindo isso, fazendo com o que aconteceu na Venezuela passar como se não fosse guerra, mas uma operação especial", diz Rio Tinto.

O que representa um desgaste para Washington funciona como um trunfo em Tel Aviv. Enquanto Trump enfrenta erosão de apoio, para Denilde Holzhacker, doutora em ciência política e diretora acadêmica de pesquisa da ESPM, a deflagração do conflito serviu como uma salvação política para Netanyahu, elevando sua popularidade e consolidando seu poder internamente, mesmo que em um momento delicado.

"Netanyahu conseguiu um apoio expressivo na opinião pública israelense para que o regime iraniano seja derrubado. Com essa força, conseguiu fazer uma ação no Líbano, afetando diretamente apoiadores do Irã", afirma a especialista. "Israel, do ponto de vista militar, tem alcançado muito mais os seus objetivos do que se percebe no caso americano."
Na prática, o Exército israelense aproveitou o fôlego político interno para intensificar sua ofensiva. Nas últimas semanas, o país fez ataques concentrados a líderes do alto escalão da Guarda Revolucionária do Irã, além de atacar diretamente a infraestrutura do grupo extremista Hezbollah em Beirute, ameaçando fazer com a cidade algo similar ao que fez na Faixa de Gaza.

Há ainda o peso das relações dos EUA enfraquecidas com países outrora aliados, principalmente da Europa, que tendem a buscar parceiros mais previsíveis, como pontua Gustavo Macedo, doutor em ciência política e professor de economia no Insper.

"Isso gera desconfiança e alimenta a percepção de declínio relativo do poder norte-americano. Como consequência, países passam a fortalecer relações regionais e a buscar novos parceiros –especialmente a China. Assim, enquanto os EUA ampliam sua presença militar, sua influência política tende a se enfraquecer."
Para além da geopolítica, o risco econômico é imediato. Macedo alerta que a instabilidade no estreito de Hormuz pode gerar um efeito cascata na economia internacional, para além da alta de preços do petróleo.

"Estamos falando de uma região estratégica para a logística global. Qualquer instabilidade ali afeta não apenas o fluxo de petróleo, mas também outras cadeias produtivas e até a infraestrutura digital global. Isso gera efeitos em cascata na economia internacional", afirma Macedo.

Diante do agravamento da guerra, as organizações multilaterais se mostraram estagnadas. Akkoyunlu destaca o que chama de "papel marginal" da ONU, agravado pela atuação de EUA e Israel que, segundo o professor, dá-se fora dos marcos do direito internacional. Rio Tinto acrescenta que as grandes organizações, além de subfinanciadas, carecem de vontade política, operando de "mãos amarradas".

Comentários para "Governo brasileiro teme proliferação nuclear e Israel expansionista na esteira do conflito no Irã":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório