Milton Santos: Um centenário que nos convoca à dignidade

Filho de professores primários, recordou, com emoção, as lições fundamentais recebidas em casa

Milton Santos: Um centenário que nos convoca à dignidade
Milton Santos: Um centenário que nos convoca à dignidade

Por Maria José Rocha Lima (zezé)* - 05/05/2026 18:26:57 | Foto: Divulgação

Celebrar o centenário de nascimento de Milton Santos é mais do que reverenciar um dos maiores geógrafos do mundo; é reencontrar um mestre que fez da ciência um instrumento de humanização e da educação um caminho para a dignidade. Tive a honra de homenageá-lo na Assembleia Legislativa da Bahia, em 1998, em uma sessão memorável intitulada “Obrigado, professor. Obrigada, professora”, dedicada aos grandes mestres baianos.

Naquela ocasião, sua presença engrandeceu o evento. Dono de uma trajetória intelectual reconhecida internacionalmente — com 13 títulos de Doutor Honoris Causa e laureado com o Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia” —, Milton Santos destacou-se, sobretudo, pela simplicidade e profundidade com que transmitia seus ensinamentos.

Filho de professores primários, recordou, com emoção, as lições fundamentais recebidas em casa: manter a cabeça erguida, olhar sempre para frente, respeitar o outro e cultivar a dignidade. “Em última palavra, ensinaram-me a ser um homem”, afirmou. Esses princípios não apenas moldaram sua vida, mas também fundamentaram sua obra e sua postura ética diante do mundo.

Ao rememorar sua formação no Instituto Baiano e no Colégio da Bahia, ressaltou o verdadeiro sentido da educação: rigor aliado ao afeto. “Nenhuma complacência com aqueles que não cumprem o seu dever; carinho, mas também severidade.” Essa síntese revela uma concepção pedagógica que valoriza tanto a exigência quanto o cuidado — elementos essenciais para a formação de cidadãos conscientes.

Milton Santos não nos ofereceu apenas uma aula de geografia, mas uma reflexão profunda sobre o papel do professor e da escola na construção de um mundo mais justo. Enfatizou que seus mestres lhe ensinaram o gosto pela verdade, pela ética e pelo saber significativo — aquele que transforma e emancipa.

Na oportunidade, recordei as palavras de Pedro Calmon, que exaltava o magistério como espaço das melhores inteligências e das mais respeitáveis personalidades da sociedade. Contudo, o próprio Milton Santos alertou para a dura realidade contemporânea dos professores: “remar contra a maré”. Denunciou a desvalorização, os baixos salários e, mais grave ainda, as limitações à liberdade de ensinar e de expressar a verdade.

Para ele, o problema do Brasil não se restringe ao acesso à educação, mas à qualidade dessa educação. A escola, tal como estruturada, pode se tornar matriz da desigualdade social. Ainda assim, reconheceu, com admiração, que os professores não desertaram de sua missão, mesmo diante de adversidades tão severas.

Em seu discurso, fez um chamado contundente aos poderes públicos, responsabilizando-os pela situação de penúria e abandono do professorado. Alertou para o clima de medo — do presente e do futuro — que cerceia o exercício pleno da docência, quando o professor deveria dispor de condições dignas, inclusive psicológicas, para desempenhar sua função.

Após palavras tão firmes e necessárias, fez questão de um gesto de elegância e reconhecimento ao dirigir-se a mim: “Está vendo, deputada Maria José, vim com prazer, mas vim para cumprir esse dever. Agradeço a V.Exª, à senhora, você que representa essas virtudes do povo, que as encarna tão bem. Essa sua pugnacidade, que lhe tem valido tantos dissabores, mas também o reconhecimento das pessoas capazes de um julgamento nobre. Veja o que, Exª, a senhora, você, andou procurando e encontrou.” Suas palavras, longe de suavizar a crítica, a engrandeciam — pois revelavam que o compromisso com a verdade pode caminhar junto com o respeito e a generosidade.

Milton Santos também evocou, com orgulho, a Bahia de sua juventude, quando a cultura era o grande farol da sociedade. E, com a mesma lucidez que marcou toda a sua trajetória, apontou caminhos: defendeu a reconstrução de instituições científicas e convocou o Estado a assumir seu papel na condução de políticas educacionais comprometidas com o futuro.

Celebrar seu centenário é, portanto, renovar esse compromisso. Milton Santos permanece vivo não apenas em sua obra, mas na atualidade de suas ideias. Ele nos ensinou que pensar o mundo é também transformá-lo — com dignidade, coragem e responsabilidade.

*Maria José Rocha Lima (Zezé) é professora, mestre em Educação e doutora em Psicanálise. Foi deputada estadual de 1991 a 1999.

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