No João Florêncio, aos 12 anos, participei do Grêmio Estudantil e da minha primeira passeata em defesa da escola pública
Por Maria José Rocha Lima* - 27/04/2026 11:19:57 | Foto: Arquivo pessoal
Hoje é aniversário do meu irmão José Antonio Rocha (Zeinho). A saudade bateu forte — intensamente perturbadora. Ele é o nosso caçula, nascido em um período muito difícil de uma família disfuncional, mas nem isso conseguiu esmagá-lo ou fazê-lo perder sua notável inteligência e criatividade.
Sempre digo que Zeinho é a memória viva desta família que combina tradição, loucura e rebeldia. Guardo com muito carinho o presente que ele me enviou de Salvador: um bauzinho de madeira com o escudo do Colégio João Florêncio Gomes (JFG) e a frase: “O mundo está nas mãos daqueles que têm a coragem de sonhar e correr o risco de viver seus sonhos. Feliz Aniversário.” Ali está o registro simbólico de onde começou a minha história política.
No João Florêncio, aos 12 anos, participei do Grêmio Estudantil e da minha primeira passeata em defesa da escola pública. Anos depois, tornei-me professora de Biologia e Microbiologia, mas fui denunciada ao SNI por ensinar, com eloquência, a teoria da evolução e por publicar, com meus alunos, um boletim de saúde revelando a contaminação do Rio Bate Estaca, nos Alagados. Fui perseguida, transferida para um bairro distante e, posteriormente, para a Secretaria de Educação.
Zeinho, desde cedo, revelou-se dono de um repertório linguístico vasto e impecável, além de um profundo gosto pela cultura e pela arte. Lembro-me dele, aos seis anos, empinando uma arraia e dizendo: “Maria, estou obcecado por arraias”. E explicava que estava alucinado, doido por arraias, que é como se chama pipas na Bahia. Inquieto, ampliou seu universo cultural, tornando-se um apaixonado por cinema, reunindo um acervo das melhores obras nacionais e internacionais.
Arquivo pessoal
No final da década de 1970, acompanhava-me nos ensaios e apresentações do Grupo de Teatro Amador Amadeu. Em uma ocasião, preparou criativamente plaquinhas para anunciar os atos da peça — o que só não se concretizou pela presença de um censor do SNI.
Ainda adolescente, ao perceber seu talento, matriculei-o em um curso de arte. Logo ele passou a nos encantar com suas criações. Estudou serigrafia (silk screen), técnica que ganhava força na década de 1970 em Salvador, utilizada tanto pela contracultura quanto por instituições tradicionais. Mais tarde, produziu com dedicação e capricho as camisetas da minha campanha vitoriosa para deputada.
Sempre inquieto, Zeinho ainda fez curso de panificação com ninguém menos que Olivier Anquier, chef e empresário francês que ele já admirava.
Mas sua maior obra foi o casamento com Fátima Oliveira, mulher sábia, inteligente e generosa, com quem teve dois filhos extraordinários — ambos professores, apaixonados por literatura, cultura e arte, como o pai.
*Maria José Rocha Lima é professora, mestre em Educação e doutora em Psicanálise. Foi deputada estadual de 1991 a 1999.
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