A semana foi atravessada por movimentos que, vistos em conjunto, sugerem mais do que derrotas pontuais do Planalto
Por João Zisman - 01/05/2026 20:15:29 | Foto: Divulgação
O Primeiro de Maio costuma chegar com o mesmo roteiro de sempre, discursos voltados ao trabalhador, promessas que tentam dialogar com renda e emprego, e uma tentativa de conexão direta entre governo e base social. Desta vez, o feriado encontra um ambiente que desloca esse eixo. O tema continua sendo o trabalho, mas o que realmente ocupa o centro da cena é a disputa por comando.
A semana foi atravessada por movimentos que, vistos em conjunto, sugerem mais do que derrotas pontuais do Planalto. A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo não se esgota no episódio em si, assim como a derrubada do veto na dosimetria dificilmente pode ser tratada como fato isolado. Há um encadeamento que indica um desgaste na relação entre Executivo e Legislativo, especialmente num momento em que acordos antes considerados estáveis passaram a ser tratados com maior flexibilidade.
Nesse rearranjo, Davi Alcolumbre aparece como peça relevante não apenas pelo cargo que ocupa, mas pela capacidade de reorganizar maiorias sem necessidade de exposição. O movimento do Congresso não se apresenta como ruptura formal, tampouco como enfrentamento aberto, mas vai redesenhando o espaço de atuação do governo de forma gradual.
O Centrão, como costuma fazer, adapta-se ao ambiente com rapidez. Lideranças como Ciro Nogueira e Antônio Rueda têm seus nomes frequentemente mencionados nas investigações que orbitam o caso Banco Master, ainda que sem desdobramentos conclusivos até aqui. Esse tipo de exposição potencial tende a produzir um efeito previsível: a necessidade de calibrar proximidade institucional com setores do Judiciário que, neste momento, concentram maior protagonismo.
É nesse ponto que o movimento ganha outra dimensão. A aproximação de figuras como Alcolumbre, Ciro e Rueda com a ala do Supremo que tem demonstrado maior convergência interna, representada por Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, passa a ser observada como parte de uma dinâmica mais ampla de proteção e equilíbrio. Não se trata de alinhamento declarado, mas de um ajuste de posicionamento que responde ao ambiente.
As especulações sobre o papel de ministros do Supremo em relação à indicação de Messias, mesmo sem confirmação formal, ajudam a compor esse quadro. Em política, muitas vezes a percepção antecede o fato e produz efeitos concretos, influenciando decisões e redesenhando alianças.
Nesse cenário, o Executivo parece ter pouco espaço para gestos bruscos. Sinalizar rompimento com qualquer desses atores significaria ampliar um desgaste que já se faz sentir. Resta administrar o ambiente como ele é, com suas contradições e seus custos, mantendo interlocução mesmo onde o desconforto é evidente. Não se trata de escolha elegante, mas de necessidade política. Seguir adiante, ainda que em terreno menos estável, tende a ser o único caminho até que o calendário eleitoral reordene as forças em disputa.
O governo segue com agenda e capacidade de iniciativa, mas enfrenta um ambiente em que o controle sobre o ritmo das decisões já não parece tão evidente. O Congresso amplia seu espaço e testa limites com maior frequência, enquanto o Judiciário permanece como elemento de equilíbrio, ainda que inserido, direta ou indiretamente, nesse jogo de forças.
No meio desse cenário, o trabalhador continua presente no discurso, mas o Primeiro de Maio chega sem a centralidade que já teve em outros momentos. A data permanece simbólica, embora o contexto sugira que as discussões mais relevantes da semana tenham se deslocado para outro terreno.
Talvez seja cedo para conclusões definitivas, mas os sinais indicam uma fase em que o tema do poder tende a se sobrepor ao da agenda social. E, quando isso acontece, o calendário político costuma ganhar outra velocidade.
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