Com 47% das intenções de voto e 52% dos válidos, Celina já não disputa apenas contra Grass. A cinco dias da eleição, o adversário que importa é a linha que separa o primeiro turno do segundo
Por João Zisman - 29/09/2026 09:41:16 | Foto: Divulgação
Leandro Grass tem um problema curioso nesta última semana de campanha. Precisa crescer, naturalmente, mas crescer talvez não seja suficiente. Pode avançar alguns pontos, ampliar a distância para os demais adversários, consolidar-se definitivamente como o nome da oposição e, ainda assim, descobrir no domingo à noite que fez tudo isso para uma eleição que acabou antes que pudesse enfrentá-la novamente.
É a novidade política mais interessante da pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta terça-feira. Celina Leão aparece com 47%, Grass com 26%, Paula Belmonte com 10%, Ricardo Cappelli com 4% e Kiko Caputo com 1%. Considerados apenas os votos válidos, a governadora chega a 52%, contra 29% de Grass. O instituto ouviu 1.600 eleitores entre 24 e 28 de setembro, por telefone e internet, com margem de erro de dois pontos percentuais, nível de confiança de 95% e registro DF-04637/2026.
A eleição, portanto, ganhou uma geometria pouco confortável para quem está atrás. A distância entre Celina e Grass continua importante, mas deixou de ser a única distância que interessa. Para o petista, mais urgente do que alcançar a governadora é empurrá-la para baixo dos 50% dos votos válidos. É uma campanha contra Celina, evidentemente, mas também contra uma linha aritmética. A urna não concede segundo turno por esforço, crescimento ou consolidação política. Ou ninguém ultrapassa metade dos votos válidos, ou a conversa termina ali.
Isso altera a natureza da campanha nos cinco dias finais. Em condições normais, o segundo colocado procura diminuir a diferença para o primeiro e chegar ao domingo carregando a expectativa de que a disputa continuará. No Distrito Federal, Grass precisa convencer o eleitor de algo anterior: que vale a pena haver outra eleição. Parece detalhe semântico, mas não é. Quando uma candidatura encosta ou ultrapassa a barreira dos 50% dos votos válidos, o segundo turno deixa de ser apenas uma etapa prevista no calendário e passa a ser um objetivo político da oposição.
Celina enfrenta o movimento inverso. Não precisa derrotar Grass individualmente nos próximos cinco dias porque já mantém sobre ele uma vantagem confortável. Precisa conservar uma combinação de votos capaz de impedir que a soma dos adversários, dos brancos, dos nulos e das mudanças de última hora a empurre para uma nova rodada. Sua campanha deixa de ter como referência principal o adversário que aparece em segundo lugar e passa a administrar uma porcentagem. É menos épico, mas eleição também se ganha com calculadora.
O quadro fica mais interessante quando se abre a pesquisa espontânea. Sem que os nomes sejam apresentados, Celina aparece com 27%, Grass com 13%, Paula com 2% e Cappelli com 1%, enquanto 42% não indicam candidato. José Roberto Arruda, já fora da disputa, ainda recebe 3% das menções. Não seria correto transformar esses 42% automaticamente em indecisos. Pesquisa espontânea mede outra coisa: a capacidade de o eleitor mencionar seu candidato sem receber uma lista. Mas justamente por isso o contraste merece atenção. Há uma eleição muito mais definida quando o entrevistador oferece os nomes do que quando pede ao eleitor que encontre sozinho sua escolha.
Essa diferença diz alguma coisa sobre os últimos dias de campanha. Celina possui uma vantagem eleitoral robusta, mas a intensidade dessa escolha não acompanha necessariamente o tamanho alcançado no cenário estimulado. Grass também encontra dificuldade semelhante, em proporção ainda maior. Há muito eleitor capaz de escolher quando provocado e muito menos eleitor carregando espontaneamente essa decisão na ponta da língua.
O Datafolha divulgado na segunda-feira já oferecia outra pista nessa direção. No cenário sem Arruda, Celina aparecia com 42% e Grass com 23%; nos votos válidos, 51% a 27%. O instituto ouviu 910 eleitores presencialmente entre 22 e 24 de setembro, com margem de erro de três pontos percentuais, nível de confiança de 95% e registros DF-01888/2026 e BR-06769/2026. O mesmo levantamento indicava 63% totalmente decididos e 37% admitindo possibilidade de mudar de voto. Não cabe colocar Real Time e Datafolha numa mesma régua, porque metodologias e períodos de campo são diferentes, mas os dois chegam a uma questão semelhante por caminhos próprios: Celina está na vizinhança imediata da vitória em primeiro turno, sem que a eleição tenha adquirido rigidez suficiente para dispensar os cinco dias restantes.
Esse é o terreno em que a campanha de Grass terá de trabalhar. Não basta apresentar-se como alternativa a Celina, nem comemorar a consolidação do segundo lugar. Segundo lugar só tem serventia eleitoral quando existe segundo turno. Sua tarefa agora é convencer uma parcela dos eleitores de que a continuidade da disputa também está em jogo no voto de domingo, uma mensagem delicada porque pode ajudar a concentrar a oposição, mas exige admitir implicitamente que a distância para a líder é grande.
Paula Belmonte enfrenta outro tipo de aperto. Seus 10% representam um espaço eleitoral relevante, porém a polarização em torno da realização ou não de um segundo turno pode transformar justamente esse espaço em objeto de pressão. Quanto mais a campanha for reduzida à pergunta “termina domingo ou continua?”, maior será a dificuldade dos candidatos intermediários para impedir que seus eleitores sejam chamados a escolher não apenas quem preferem, mas qual cenário desejam produzir.
Celina também não está livre dessa armadilha. A percepção de eleição encaminhada pode mobilizar seus adversários e desmobilizar uma parcela de seus próprios eleitores. Há uma diferença importante entre liderar confortavelmente uma pesquisa e transformar essa liderança em votos depositados na urna, sobretudo numa eleição em que o comparecimento e a definição tardia das escolhas proporcionais disputam atenção com as campanhas majoritárias.
Por isso, 52% dos votos válidos são ao mesmo tempo uma excelente notícia para Celina e uma péssima autorização para relaxar. A margem que a separa de uma vitória no primeiro turno é pequena demais para produzir certeza e grande o suficiente para alterar o comportamento dos adversários.
Grass entra nos últimos cinco dias tentando crescer. Paula tenta não ser comprimida. Os demais procuram continuar existindo numa eleição que tende a se concentrar. Celina, curiosamente, enfrenta uma missão diferente de todas essas: precisa apenas impedir que a matemática mude de ideia.
No domingo saberemos se haverá segundo turno. Até lá, porém, a campanha do Distrito Federal ganhou um adversário que não concede entrevista, não participa de debate, não aparece no horário eleitoral e não aceita provocação em rede social. Chama-se 50% mais um.
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