A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: Quatro dias, muitos ruídos

Pesquisa apertada, disputa no Supremo, Master, bets e pressão fiscal dividem a quarta-feira de uma campanha que chega à reta final com muito assunto e pouca conversa sobre governo.

A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: Quatro dias, muitos ruídos
A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: Quatro dias, muitos ruídos

Por João Zisman - 30/09/2026 16:00:20 | Foto: Alejandro Zambrana/Secom/TSE

Faltam quatro dias para a eleição e a pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira ajuda a explicar boa parte do ambiente. Lula tem 39,4%, Flávio Bolsonaro 38,4%. Num eventual segundo turno, 48,5% a 48%. Tudo dentro da margem de erro. A essa altura, um ponto parece enorme na campanha e pequeno demais para autorizar qualquer certeza.

É nesse espaço apertado que quase todo assunto vira disputa eleitoral. Nossa Senhora Aparecida virou um deles, atravessou o TSE, chegou ao Supremo e colocou ministros em posições diferentes sobre uma história que começou com uma informação falsa: Flávio Bolsonaro não tem relação com o projeto que pretendia alterar a legislação sobre a padroeira. O fato foi desmentido, mas a confusão continuou crescendo. É uma característica interessante destes tempos: a mentira pode morrer cedo e sua repercussão continuar perfeitamente saudável.

O episódio também diz alguma coisa sobre o STF. Quando André Mendonça decide, Flávio Dino interfere, Luiz Fux responde, Nunes Marques leva o assunto ao TSE e Edson Fachin evita, por enquanto, transformar a divergência em mais uma batalha no plenário do Supremo, a discussão já deixou Nossa Senhora para trás. Passou a ser também sobre uma Corte que continua entrando na política e recebendo a política dentro dela. As campanhas perceberam isso faz tempo e aprenderam a explorar cada porta disponível.

Só que a quarta-feira tem outros sinais importantes fora dessa disputa.

O caso Master é um deles. As investigações sobre precatórios já provocaram uma reação nacional para ampliar a fiscalização sobre emissão, valores e negociação desses créditos. É talvez o desenvolvimento mais importante do caso neste momento porque sai da coleção de personagens e chega ao funcionamento do sistema. Mais interessante do que descobrir apenas quem conhecia quem é entender como determinadas operações conseguiram atravessar tantos controles.

As bets seguem caminho parecido. Começaram como discussão sobre apostas, viraram problema de saúde, publicidade e futebol e agora aparecem também nos meios de pagamento, nos contratos dos clubes e na economia. O Banco Central registrou queda nas transações via Pix nos dias seguintes à proibição, sem que isso permita estabelecer automaticamente uma relação de causa e efeito. Clubes pressionam, empresas reagem e o governo tenta administrar uma atividade que cresceu muito antes de o Estado decidir exatamente o que queria fazer com ela.

E há uma conta menos barulhenta no meio disso. O governo central registrou déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto, enquanto a trajetória da dívida continua impondo perguntas sobre gasto, receita, investimento e capacidade fiscal. Pode-se discutir o tamanho do problema e as respostas possíveis. O que chama atenção é o espaço reduzido que essa discussão ocupa numa campanha presidencial tão apertada.

O cenário externo também acrescenta pressão. O petróleo continua sujeito à instabilidade no Oriente Médio, a Europa aumenta os gastos militares e ainda encontra lacunas importantes em sua capacidade de defesa, enquanto a inteligência artificial entra numa fase em que segurança, autonomia dos sistemas e controle começam a disputar espaço com a corrida por modelos mais poderosos.

É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas não são assuntos desconectados. A quarta-feira mostra uma campanha absorvida pela disputa imediata do voto enquanto decisões institucionais, problemas regulatórios, restrições econômicas e tensões externas continuam avançando em outra velocidade.

Com Lula e Flávio separados por um ponto no primeiro turno na pesquisa Meio/Ideia, é compreensível que cada movimento ganhe peso desproporcional nesta reta final. O risco é o barulho acabar parecendo maior do que o contexto.

E o contexto desta quarta-feira é justamente esse: uma eleição muito apertada acontecendo dentro de um país e de um mundo que continuam produzindo problemas bem maiores do que a campanha consegue discutir.

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