Saída de Arruda abre uma corrida por seus eleitores, enquanto a reta final acrescenta à disputa outro fenômeno conhecido das urnas: o voto útil
Por João Zisman - 28/09/2026 09:03:53 | Foto:
A política tem algumas palavras que todo mundo pratica e quase ninguém gosta de ouvir. Oportunismo é uma delas. Costuma aparecer como acusação, embora numa campanha eleitoral possa ser apenas o nome menos cerimonioso dado à capacidade de perceber uma oportunidade e tentar ocupá-la antes do adversário. José Roberto Arruda saiu da disputa pelo Governo do Distrito Federal carregando sua candidatura, mas deixou para trás aquilo que, a seis dias da eleição, interessa bastante aos que permaneceram nela: seus eleitores.
Há, porém, duas forças diferentes funcionando sobre esse espaço aberto. Uma é deliberada e já está visível nas movimentações de campanha, com candidatos procurando diretamente o eleitor que perdeu sua opção original. A outra dispensa convite formal e costuma aparecer naturalmente quando a urna se aproxima: o voto útil, que pode concentrar escolhas nas candidaturas percebidas como mais competitivas e, nesse caso, produzir efeitos favoráveis a quem já ocupa a liderança. Não há contradição entre as duas coisas. Enquanto uns saem à procura do espólio, uma parte dele pode simplesmente se deslocar pela própria lógica da disputa.
É sobre a primeira força que o fim de semana foi particularmente generoso. Leandro Grass passou a conversar com esse eleitorado destacando inclusive convergências entre propostas de seu programa e ideias defendidas por Arruda. Paula Belmonte também se movimentou em direção ao espaço aberto pela saída do ex-governador, enquanto Kiko Caputo preferiu falar diretamente com quem ficou sem candidato. Cada qual encontrou seu argumento, sua linguagem e seu jeito de exercer o livre direito de ser oportunista, expressão que pode soar dura, mas talvez seja apenas excessivamente sincera para descrever aquilo que campanhas fazem quando um adversário com votação relevante desaparece a poucos dias da urna.
Seria mais estranho se, por delicadeza ou respeito à memória de uma candidatura encerrada, todos resolvessem deixar esses votos numa redoma até domingo. Campanha é disputa por voto e, quando uma quantidade importante deles perde sua referência original a menos de uma semana da eleição, seria ingenuidade imaginar os concorrentes imóveis, esperando que o eleitor resolvesva sozinho seu destino antes de serem apresentados os argumentos disponíveis.
As pesquisas realizadas antes da saída definitiva de Arruda já sugeriam que não existia herdeiro único esperando a abertura do testamento. Em levantamento do Datafolha que simulou sua ausência, parte de seus eleitores migrava para Celina, outra parcela seguia para Grass e Paula Belmonte, enquanto um contingente relevante preferia branco ou nulo. O dado interessa menos como previsão do que como advertência contra uma velha fantasia da política, a de imaginar que eleitorado pertence a alguém e pode ser transportado de uma candidatura para outra junto com a placa do diretório, os cabos eleitorais e a fotografia dos dirigentes.
O fim de semana tornou essa diferença ainda mais visível. O PSD escolheu Celina, Arruda recusou-se a acompanhá-lo e Grass, Paula e Kiko foram atrás do eleitor que ficou disponível, cada um oferecendo uma razão diferente para que ele atravesse a rua. A decisão de uma direção partidária transfere estrutura, relações políticas, candidatos proporcionais e capacidade de mobilização, mas não existe instrumento equivalente para transferir eleitor, por mais que a política insista de tempos em tempos em procurar um.
O problema é que ainda estamos tentando entender a eleição nova com pesquisas que, ao menos parcialmente, mediram a eleição antiga. O Igape divulgado no domingo atravessou a decisão do TSE e, por isso, Arruda ainda aparece com 8,3%. O levantamento registra uma realidade que mudou durante o próprio campo. Na simulação em que esse percentual deixa de ser atribuído ao ex-governador, os indefinidos chegam a 18,8%, o que talvez diga mais sobre o momento do que qualquer tentativa apressada de distribuir esses votos entre os candidatos restantes. Há um pedaço considerável do eleitorado novamente diante de uma escolha.
A primeira pesquisa realizada integralmente depois da retirada de Arruda será mais interessante justamente porque encontrará o eleitor confrontado com a eleição que efetivamente existe, embora nem ela possa transformar tendência em escritura de propriedade. Até lá, Grass continuará procurando uma passagem, Paula tentará abrir a sua e Kiko falará diretamente com quem perdeu a opção original, enquanto o PSD já decidiu onde pretende ficar e Arruda fez questão de informar onde não estará.
Há oportunismo eleitoral, há voto útil e há um eleitor que não deve obediência a nenhum dos dois. Os primeiros movimentos podem ser observados nas campanhas e a concentração do voto poderá aparecer nas próximas pesquisas, mas nenhum deles autoriza a distribuir antecipadamente aquilo que Arruda deixou para trás.
Talvez seja esse o detalhe que a política costuma esquecer quando começa a repartir espólios antes da hora: candidato pode deixar herança política, estrutura partidária, aliados e até recomendações, mas voto não entra em inventário. O eleitor continua vivo, livre e, para desespero dos que já fizeram as contas, perfeitamente capaz de escolher sozinho.
Nota de rodapé
Pesquisa Datafolha/Folha de S.Paulo/TV Globo. Registro DF-06055/2026. Foram entrevistados 910 eleitores do Distrito Federal entre 8 e 10 de setembro de 2026. Margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.
Pesquisa Igape/TV Atual, afiliada da Record News. Registro DF-00171/2026. Foram entrevistados 2.000 eleitores do Distrito Federal entre 22 e 26 de setembro de 2026. Margem de erro de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.
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