A opinião pessoal do cientista político João Zisman: Pesquisa para quem precisa de pesquisa

Nunca se pesquisou tanto e talvez nunca tenha sido tão difícil convencer alguém de uma pesquisa que não lhe agrade

A opinião pessoal do cientista político João Zisman: Pesquisa para quem precisa de pesquisa
A opinião pessoal do cientista político João Zisman: Pesquisa para quem precisa de pesquisa

Por João Zisman - 26/09/2026 18:40:33 | Foto:

Tony Bellotto escreveu para os Titãs, em 1986, uma dessas músicas que acabaram escapando do tempo em que foram feitas. Quarenta anos depois, com alguma licença e nenhuma pretensão musical, basta trocar uma palavra para encontrar um bom refrão para a campanha eleitoral: pesquisa para quem precisa, pesquisa para quem precisa de pesquisa.

Nunca se pesquisou tanto e talvez nunca tenha sido tão difícil convencer alguém de uma pesquisa que não lhe agrade.

No Paraná, chegamos a uma fase curiosa da campanha. Os institutos entram e saem de cena quase como personagens eleitorais. Uma pesquisa coloca Sandro Alex em segundo lugar, outra coloca Requião Filho. Uma mostra uma distância maior para Sergio Moro, outra reduz essa vantagem. Os números mudam, as metodologias não são iguais, os períodos de campo também não, mas há uma constante impressionante: quase todo mundo encontra algum levantamento para chamar de seu.

Pesquisa boa é a que confirma. Pesquisa ruim é a que precisa ser explicada.

O candidato que aparece crescendo distribui gráfico, recorta número, destaca tendência, comemora nas redes e descobre rapidamente as virtudes da estatística. Quando o instituto seguinte apresenta fotografia menos agradável, começa o seminário metodológico. Quem contratou? Quantas pessoas foram ouvidas? Foi telefone, entrevista presencial, recrutamento digital? Onde fizeram? Em quais cidades? Qual era mesmo a margem de erro?

Nada disso é irrelevante. Muito pelo contrário. Pesquisa séria precisa ser examinada por método, amostra, período de campo, questionário, margem de erro e tantas outras informações que a legislação eleitoral exige que sejam registradas. O engraçado começa quando essa curiosidade científica aparece ou desaparece conforme o número apresentado.

E talvez esteja aí a melhor maneira de olhar para essa sucessão de levantamentos sem enlouquecer junto com as campanhas.

Pesquisa não é urna aberta antes do tempo, nem autorização para baixar a faixa de quem aparece atrás. É fotografia feita sob determinadas condições, em determinado momento e com determinado método. Fotografias diferentes podem mostrar ângulos diferentes da mesma paisagem sem que uma delas necessariamente tenha sido falsificada.

O eleitor, aliás, parece bem menos preocupado com essa guerra de planilhas do que quem vive dentro dela. Para candidato, marqueteiro, dirigente partidário e militância, dois pontos podem mudar o humor da manhã. Para muita gente que vai votar, a eleição ainda passa por coisas bem menos sofisticadas: conhecer melhor os candidatos, prestar atenção à campanha, comparar o que dizem e, muitas vezes, decidir mais adiante.

Isso ajuda a explicar outra curiosidade dessa temporada. Quando duas pesquisas divulgadas com poucos dias de diferença contam histórias diferentes, em vez de perguntarmos o que podemos aprender com ambas, começa imediatamente a procura por aquela que deve ser descartada. Cada lado escolhe sua fotografia preferida e segue viagem.

É confortável, mas não é exatamente esclarecedor.

No caso paranaense, há pelo menos uma informação política relevante atravessando os levantamentos mais recentes: Sergio Moro permanece na primeira colocação, enquanto Sandro Alex e Requião Filho disputam um segundo lugar que muda de dono conforme o instituto consultado. A amplitude dessas diferenças também varia bastante. Em vez de fingir que essa diversidade não existe, talvez seja mais inteligente incorporá-la à leitura da eleição.

A campanha, naturalmente, fará outra coisa. É da natureza da disputa ampliar o número favorável e desconfiar do incômodo. Ninguém espera que um candidato convoque entrevista coletiva para anunciar com entusiasmo a pesquisa em que caiu.

Por isso, daqui até a urna, haverá pesquisa para todos os gostos, necessidades e estados de espírito. Algumas produzirão euforia, outras serão recebidas com notas indignadas, outras ganharão cards coloridos e provavelmente veremos candidatos descobrindo defeitos metodológicos em institutos que elogiavam alguns dias antes.

Tony Bellotto falava de outra coisa, em outro Brasil e com outra intenção. Mas o refrão emprestado serve bem à temporada.

Pesquisa para quem precisa.

Pesquisa para quem precisa de pesquisa.

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