O cangaço de toga
Por João Zisman - 16/09/2026 07:40:01 | Foto: Divulgação João Zisman
Tem dias em que o Supremo parece um tribunal. Em outros, parece um país dentro do país, com suas próprias leis de gravidade, seus códigos, seus humores, suas vaidades e aquela convicção silenciosa de que, dali para cima, já não existe muito mais ninguém. Foi essa a sensação que me ficou, muito mais do que o pedido de vista, a questão de ordem, o placar, o regimento ou a coleção de tecnicidades que continuará alimentando juristas, professores, comentaristas e especialistas de ocasião até que tudo perca o gosto. O que não sai da cabeça é a cena, o ambiente, o modo como a instituição se exibiu sem qualquer preocupação em parecer menor do que realmente é.
O cangaço de toga.
Não o cangaço que ganhou romance, cinema e alguma beleza tardia, muito menos Lampião convertido em personagem de resistência. Falo do outro cangaço, o do mando, da ocupação do território, do recado dado mais pelo gesto do que pela palavra, aquele instante em que alguém deixa de apenas exercer autoridade e passa a fazer questão de exibi-la, quase como se o exercício normal da função já não bastasse e fosse preciso deixar claro quem decide até onde os outros podem ir.
Flávio Dino me pareceu assim. Não como ministro que diverge, porque ministro pode e deve divergir, nem como jurista que sustenta uma tese, porque para isso existe o plenário, mas como alguém que ocupa o espaço com a desenvoltura de quem conhece o tamanho da própria voz e não vê muita razão para diminuí-la. Dino sempre teve presença, e na política isso pode ser virtude, talvez até requisito, mas no Supremo a mesma presença adquire outro peso, porque ali o gesto vale tanto quanto o voto e a arrogância, quando aparece, não vem acompanhada de consequência eleitoral imediata.
A toga não apagou o político. Talvez apenas tenha lhe dado uma tribuna mais alta, mais protegida e quase imune a interrupções. Gilmar Mendes conhece esse território há muito tempo, conhece os caminhos, os atalhos, os limites e talvez até os pontos em que eles deixam de parecer limites. Dino chegou depois, mas aprendeu rápido que ali também existe uma geografia interna, e foi difícil não enxergar, naquele episódio, uma espécie de entendimento tácito entre quem abre caminho e quem avança, entre quem oferece experiência e quem demonstra apetite para usá-la.
O que me incomoda não é a divergência jurídica, mas a naturalidade com que uma discussão que deveria produzir esclarecimento terminou parecendo uma demonstração de imposição. O assunto era um, passou a ser outro, a investigação virou disputa, a necessidade de esclarecer cedeu espaço à necessidade de marcar posição, e de repente o Supremo parecia muito mais preocupado em dizer quem manda dentro de casa do que em explicar ao país o que havia dentro dela.
Talvez seja exatamente assim que nasce o corporativismo, não necessariamente em reuniões secretas, telefonemas conspiratórios ou combinações registradas em algum lugar, mas na reação quase instintiva de uma instituição que se sente ameaçada e fecha fileiras. É quando o corpo se reconhece como corpo e reage antes mesmo de perguntar se precisa reagir. No Supremo isso pesa mais, porque quase não existe instância acima dele, e, quando falta um freio externo, a medida precisa vir de dentro.
Talvez seja essa a palavra que esteja faltando há algum tempo: medida. Não fraqueza, não submissão, não silêncio, mas a noção elementar de que uma instituição com tamanha margem de ação precisa aprender a não fazer tudo, justamente para continuar sendo respeitada. O que se viu, porém, foi outra coisa, uma espécie de satisfação em demonstrar prerrogativa, em exibir musculatura institucional, em transformar discordância em disputa de território e autoridade em espetáculo.
Flávio Dino, nesse ambiente, tornou-se o personagem que mais me incomoda porque nele a toga não parece ter produzido distância da política, mas apenas uma nova forma de exercê-la. Há no seu comportamento uma segurança que por vezes deixa de parecer serenidade e começa a soar como certeza demais, e quando um ministro da mais alta Corte passa a transmitir a sensação de que sabe não apenas o que pensa, mas também até onde os outros podem ir, alguma coisa começa a sair do lugar.
Alexandre de Moraes pode não ter feito absolutamente nada de errado. Melhor ainda. Que se investigue e se descubra isso. Não existe forma mais limpa de proteger uma reputação do que submetê-la à mesma luz que se exige para todos os outros. O problema começa quando a tentativa de preservar a instituição transmite a impressão de preservar pessoas, porque, a partir daí, a defesa deixa de produzir segurança e passa a produzir suspeita.
Do outro lado da Praça dos Três Poderes, certamente fazem contas. Governo faz conta, oposição faz conta, campanha faz conta, e Lula sabe que uma crise dessa natureza pode atravessar a rua sem pedir licença. Seus adversários sabem também. Mas talvez todos estejam errando a conta, porque blindar demais pode grudar, proteger demais pode contaminar e fechar demais pode fazer parecer que existe coisa demais para esconder, mesmo quando não existe.
É essa a crueldade da imagem pública. Ela não pede autorização aos autos.
Flávio Dino talvez esteja convencido de que apenas exerceu suas prerrogativas e talvez tenha argumentos suficientes para sustentar cada gesto que fez. O problema é que, em instituições desse tamanho, não basta estar juridicamente correto; é preciso também não parecer dono do mundo.
E foi isso que ficou.
Não a imagem de um ministro firme, mas a de uma instituição que já não demonstra muito constrangimento em exibir sua capacidade de impor a própria vontade.
O cangaço de toga não precisa de chapéu de couro.
Tem microfone, voto, prerrogativa e certeza demais.
Comentários para "A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: O cangaço de toga":