O confronto continua dentro do Supremo, mas já alcança a Polícia Federal, mobiliza antigos ministros e chega à OAB-DF.
Por João Zisman - 09/09/2026 10:24:15 | Foto: Agência Senado
O confronto continua dentro do Supremo, mas já alcança a Polícia Federal, mobiliza antigos ministros e chega à OAB-DF. O problema deixou de caber apenas nos onze gabinetes da Corte
A crise continua no Supremo, e talvez esteja até mais desconfortável por lá, mas já não é possível fechar as portas e tratá-la como uma dessas divergências entre ministros que o tempo, algumas conversas e um julgamento de plenário costumam acomodar. Moraes e Mendonça permanecem no centro do problema, Fachin tenta encontrar uma saída institucional, a Polícia Federal entrou no conflito, antigos ministros resolveram quebrar o silêncio e agora a OAB-DF decidiu abrir procedimento ético-disciplinar para examinar a atuação de integrantes do escritório ligado à mulher e aos filhos de Alexandre de Moraes.
Não é pouca coisa, principalmente porque ninguém consegue mais olhar para cada episódio isoladamente. O contrato milionário do escritório Barci de Moraes com o Banco Master, as mensagens encontradas no material de Daniel Vorcaro, os questionamentos sobre a condução das investigações, a reação de Moraes, as decisões de Mendonça e a entrada da OAB-DF formam um emaranhado no qual a pergunta sobre quem pode investigar começa perigosamente a disputar espaço com aquilo que precisa ser investigado.
A abertura do procedimento pela OAB-DF não condena Viviane Barci de Moraes, seus filhos ou qualquer outro advogado, assim como o material recolhido pela Polícia Federal não autoriza transformar suspeitas em fatos consumados. Mas existe uma diferença enorme entre respeitar garantias e fingir que nada relevante está acontecendo. Se uma seccional da Ordem entende que existem elementos suficientes para examinar a conduta profissional de advogados envolvidos nessa história, a crise ganhou mais uma porta institucional pela qual terá de passar.
Ao mesmo tempo, treze ex-integrantes do Supremo resolveram se manifestar publicamente e cobrar apuração rigorosa e transparente. Não é comum ver antigos ministros se organizando para advertir o tribunal onde passaram parte importante de suas vidas, muito menos em bloco, e talvez isso diga mais sobre o tamanho do desconforto do que algumas das manifestações produzidas por quem ainda está sentado nas onze cadeiras.
O problema para Fachin é que administrar tudo isso como uma crise interna já parece impossível. A cada movimento surgem novos personagens, novas perguntas e, principalmente, novas instituições obrigadas a decidir o que fazer com aquilo que chega às suas mãos. Não se trata mais de saber se Moraes e Mendonça conseguem conviver depois da tempestade, mas se o sistema consegue investigar a si próprio sem parecer que cada regra muda conforme o nome que aparece na página seguinte.
Ontem escrevi que era hora de o Supremo julgar o Supremo. A questão continua posta, só que o tempo encurtou e o problema cresceu. Enquanto a Corte procura a maneira de responder ao que acontece dentro dela, Polícia Federal, OAB, PGR e antigos integrantes do próprio tribunal já foram arrastados para a discussão, enquanto a política, naturalmente, tenta tirar proveito de cada novo capítulo.
Talvez seja esse o ponto em que uma crise deixa de poder ser administrada com notas, silêncios calculados ou explicações pela metade. O Supremo continua sendo o epicentro e provavelmente continuará por algum tempo, mas já não controla sozinho nem o alcance das perguntas nem os lugares onde elas serão feitas.
A crise não mudou de endereço; apenas começou a ocupar outros.
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