Talvez por isso eu tenha dificuldade com a maneira como nós, adultos, passamos a explicar essas palavras
Por João Zisman - 07/09/2026 16:52:45 | Foto: Divulgação
Uma criança não começa a entender o Brasil pelo 7 de Setembro. Começa muito antes, sem saber que está fazendo isso, pelo sotaque que ouve em casa, pela comida, pelas músicas, pelo futebol, pelas histórias dos avós, pelas paisagens que reconhece e por uma quantidade de pequenas referências que vão formando uma sensação de pertencimento muito antes que alguém lhe apresente palavras como Pátria, Independência ou patriotismo.
Talvez por isso eu tenha dificuldade com a maneira como nós, adultos, passamos a explicar essas palavras.
Quem cresceu algumas décadas atrás conheceu a bandeira primeiro na escola, no desfile, na arquibancada, no hino cantado meio errado e naquelas comemorações que podiam ser solenes demais, até aborrecidas, mas ainda assim introduziam o símbolo antes da disputa sobre ele. Não estou defendendo a volta de um civismo obrigatório nem imaginando que crianças marchando em fila fossem produzir cidadãos melhores. A diferença talvez esteja apenas na ordem das coisas.
Muitas crianças desta geração encontraram o verde e amarelo já acompanhado de adultos exaltados, manifestações, acusações, vídeos, discursos e uma permanente tentativa de estabelecer quem representaria melhor o Brasil. Antes mesmo de descobrir o símbolo, viram a briga pelo símbolo.
E isso muda alguma coisa?
Tenho a impressão de que muda bastante. Quando a bandeira aparece primeiro como marca de identificação de um grupo, deixa de chegar inteira. Quando alguém precisa reivindicar publicamente que ama mais o país, cria sem perceber uma fronteira em torno desse amor. E quando o patriotismo exige demonstração, uniforme, palavra de ordem ou certificado ideológico, talvez já esteja se afastando daquilo que deveria representar.
O sentimento mais profundo de pertencer a um país provavelmente nasce de maneira muito menos espetaculosa. Ninguém precisa ensinar uma criança a reconhecer o lugar onde vive como parte de sua história. Isso vai acontecendo no cotidiano, nas memórias que se acumulam e até nas contradições que ela aprende a perceber. O Brasil que se ama também pode ser o Brasil que incomoda, que decepciona e que merece ser criticado, porque pertencimento não é concordância permanente nem obrigação de entusiasmo.
Talvez o nosso erro tenha sido acreditar que patriotismo se ensina aos gritos, quando ele provavelmente se aprende em silêncio.
Neste 7 de Setembro, mais do que perguntar se as crianças ainda compreendem o sentido da data, eu perguntaria se nós ainda sabemos apresentá-la sem entregar junto nossas próprias disputas. Porque talvez elas não estejam menos interessadas no Brasil do que fomos um dia. Talvez apenas tenham recebido de nós um país já embrulhado em tanta disputa sobre quem pode representá-lo que ficou mais difícil perceber aquilo que deveria vir antes de qualquer lado.
A bandeira, afinal, deveria ser uma das últimas coisas a precisar de explicação sobre a quem pertence.
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