Depois de meses olhando para o céu à espera de água, o Distrito Federal recebeu em poucas horas um aviso sobre aquilo que encontrará quando o período chuvoso realmente começar
Por João Zisman - 18/09/2026 09:53:54 | Foto: Reprodução Climatempo
Brasília passou boa parte dos últimos meses fazendo aquilo que faz todos os anos: olhando para o céu. A umidade desceu, o mato secou, os incêndios voltaram a ocupar o noticiário e a chuva virou quase um desejo coletivo, até que finalmente apareceu sem muita cerimônia e muito menos pedindo licença.
Em poucas horas, Planaltina, Arapoanga e Samambaia trocaram a espera pela emergência, com granizo, rajadas de vento, árvores no chão, casas destelhadas, interrupções de energia e famílias obrigadas a deixar suas residências. Não houve mortes, felizmente, mas o episódio deixou um detalhe que não deveria desaparecer assim que o céu abrir: o período chuvoso ainda nem começou de verdade.
O temporal aconteceu numa fase de transição, enquanto as chuvas regulares ainda estão adiante. Mais do que um episódio isolado, portanto, pode ser lido como uma amostra do que a cidade encontrará nos próximos meses e, principalmente, das vulnerabilidades que continuam esperando pela água para se tornar visíveis.
O Distrito Federal conhece bem essa troca de extremos. Durante meses, fala-se em baixa umidade, incêndios e vegetação seca; basta mudar o céu para o vocabulário passar a ser alagamento, enxurrada, árvore caída, destelhamento e drenagem. A mesma água que faz falta durante tanto tempo consegue se transformar em problema em algumas horas.
Seria simplório atribuir qualquer estrago à falta de prevenção. Nenhuma administração controla granizo ou rajadas violentas de vento, e eventos severos provocam danos mesmo onde existe boa infraestrutura. A questão começa quando a tempestade encontra problemas que já estavam no chão, como drenagem insuficiente, árvores comprometidas, estruturas precárias e pontos de alagamento conhecidos.
É aí que o temporal deixa de ser apenas assunto para a Defesa Civil e passa a produzir informação para a cidade. Os registros dos Bombeiros, da Novacap, das administrações regionais e das concessionárias mostram onde houve maior concentração de ocorrências, quais estruturas não responderam bem e, sobretudo, quais problemas já haviam aparecido antes.
A resposta imediata é necessária, mas talvez a parte mais importante comece depois que os galhos são retirados e a rotina volta ao lugar. Setembro está terminando e as chuvas regulares ainda estão por chegar, o que oferece algum tempo para olhar o mapa deixado por esse primeiro temporal antes que outro venha desenhá-lo novamente.
Não se trata de procurar culpados para a chuva nem de transformar meteorologia em disputa política. Trata-se apenas de aproveitar o aviso. O céu abriu, os estragos começaram a ser reparados e a cidade seguirá adiante, mas aquilo que a tempestade revelou não deveria desaparecer junto com as poças d'água.
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