Acareação entre Vorcaro e ex-BRB tratou de venda de carteiras de crédito podre de R$ 12,2 bi
Catia Seabra, Brasília, Df (folhapress) - 31/12/2025 16:47:39 | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
ADRIANA FERNANDES E JOSÉ MARQUES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A acareação feita na noite desta terça-feira (30) pela Polícia Federal a mando do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), tratou de divergências sobre a venda de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes, segundo os investigadores, do Banco Master para o BRB, o banco estatal de Brasília.
A PF colocou frente a frente o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, após os dois prestarem depoimentos individualmente. O diretor de Fiscalização do Banco Central, responsável por supervisionar as instituições, ficou de fora da acareação.
Costa afirmou, por meio de sua defesa, que não houve contradições nos depoimentos dos dois.
"Não houve contradições entre seu depoimento e o de Daniel Vorcaro, mas apenas percepções distintas sobre os mesmos fatos", informou a defesa, em nota.
Nos bastidores, os executivos trataram as versões distintas para o negócio como "diferenças", não como contradição, uma vez que a operação foi objeto de contrato entre os dois bancos. Ao Master, coube explicar por que gerou a carteira de créditos e as suas características. Sobre o BRB, os investigadores buscaram saber por que comprou e como foi processada a operação.
A defesa de Costa afirma acreditar que as explicações foram dadas a contento.
"A acareação realizada foi breve e suficiente para esclarecer essas diferenças. Paulo Henrique Costa foi ouvido por mais de duas horas, respondeu a todos os questionamentos e sempre destacou que sua atuação se deu no âmbito de decisões técnicas, colegiadas e formalmente documentadas, indicando os registros que comprovam a correção e a regularidade de sua atuação como presidente do Banco BRB", informou.
A defesa de Vorcaro não se manifestou.
O BRB tem como estratégia tomar distância dos aspectos que levaram à liquidação do Master e tem defendido que a compra e venda de carteiras de crédito é algo usual no mercado bancário.
A audiência na qual ocorreram os depoimentos começou por volta das 14h com divergências entre a delegada da Polícia Federal que conduziria os atos, Janaina Palazzo, e o juiz auxiliar de Toffoli, Carlos Vieira von Adamek.
A delegada disse ao juiz que não havia determinação do ministro na realização de depoimentos individuais, apenas da acareação entre Vorcaro, Paulo Henrique Costa e Ailton de Aquino.
Pessoas com conhecimento da situação afirmam que Adamek teve que ligar de viva-voz para Toffoli, que informou ter determinado que os depoimentos fossem colhidos, e depois os termos registrados em ata.
Após o impasse, foi iniciado o depoimento de Vorcaro, que durou aproximadamente 2h30, e se encerrou por volta das 17h. Em seguida, foi colhido o depoimento de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de Brasília).
Logo no início, o gabinete de Toffoli já identificava contradições entre as falas dos dois depoentes, e sinalizava a necessidade de uma acareação posterior, para confrontar as versões.
Costa encerrou o seu depoimento aproximadamente às 19h40, quando Ailton de Aquino, do Banco Central, foi chamado a depor. Pessoas ligadas a Toffoli consideraram que as falas de Aquino foram valiosas e forneceram informações que deixaram tanto Vorcaro quanto Costa no que chamaram de "situação difícil".
Às 21h, ele foi dispensado da acareação, sob a justificativa de que o seu depoimento foi claro, com dados precisos e sem contradições.
Pessoas ligadas a Toffoli disseram que foi o próprio ministro, por meio do juiz auxiliar, que decidiu pela dispensa e, em comum acordo, as autoridades presentes decidiram pela continuidade da acareação. O procedimento foi mais rápido do que a tomada de depoimentos, e se encerrou por volta das 21h30.
Entenda por que operações do Banco Master com a Reag estão sob investigação
ANA PAULA BRANCO-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um relatório do Banco Central (BC) enviado ao TCU (Tribunal de Contas da União) aponta indícios de fraude em operações financeiras realizadas pelo Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, em conjunto com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.
De acordo com o documento, as transações suspeitas somariam R$ 11,5 bilhões e foram consideradas pelo BC como portadoras de "falhas graves", em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional. O órgão regulador comunicou o caso ao Ministério Público Federal (MPF).
A Reag foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada pela Polícia Federal para investigar um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital) no mercado financeiro.
Na época, a empresa afirmou que colabora de forma ampla com as autoridades e negou qualquer envolvimento com práticas criminosas
O QUE O BANCO CENTRAL ENCONTROU
Segundo o relatório encaminhado ao TCU, o Banco Central identificou indícios de fraude em operações estruturadas entre o Banco Master e fundos ligados à Reag realizadas entre julho de 2023 e julho de 2024.
Essas operações faziam parte de um conjunto maior de transações do banco com fundos de investimento, que totalizam R$ 11,5 bilhões -sendo ao menos dois deles administrados pela Reag.
O BC apontou problemas como gerenciamento inadequado de capital e de risco, além da realização de negócios sem garantias suficientes, liquidez adequada ou diversificação, o que pode ensejar processos administrativos sancionadores.
Técnicos também levantaram a suspeita de que os fundos teriam sido usados para pulverizar recursos em nome de terceiros, os chamados "laranjas". Entre os veículos citados estão o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, ambos administrados pela Reag.
Essa é a segunda comunicação do BC ao MPF envolvendo o Banco Master. A primeira tratou da revenda de R$ 12,2 bilhões em créditos considerados inexistentes ao BRB (Banco de Brasília).
POR QUE A REAG ESTÁ NO CENTRO DAS INVESTIGAÇÕES
A Reag foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, que investiga a conexão entre o crime organizado, o setor de combustíveis e estruturas do mercado financeiro.
Segundo as autoridades, o esquema investigado envolve a lavagem de quase US$ 10 bilhões, atribuída a um dos maiores grupos criminosos do país.
De acordo com a investigação, o dinheiro teria sido mascarado por meio de fundos de investimento com um único cotista, conhecidos como fundos exclusivos, descritos pelos investigadores como possíveis "fundos de fachada".
Pelo menos 40 fundos teriam sido utilizados pelo suposto mentor do esquema, Mohamad Hussein Mourad, apontado como responsável por lavar recursos provenientes de um império ilegal de combustíveis. Quase uma dúzia desses fundos era administrada ou gerida pela Reag -mais do que por qualquer outra instituição envolvida, segundo o MP.
Os promotores afirmam que a estrutura permitiu a expansão de um negócio baseado na venda de combustível adulterado.
Há ainda outras conexões entre Reag e Banco Master. A distribuidora administrava o fundo Termópilas, que controlava a empresa Super Empreendimentos, dona de uma casa de R$ 36 milhões em Brasília usada por Daniel Vorcaro para encontros com políticos, segundo investigações.
O IMPACTO NO MERCADO E A REAÇÃO DA REAG
A ascensão meteórica da Reag, que chegou a ter cerca de R$ 369 bilhões em ativos sob gestão, foi interrompida pela operação policial.
O fundador da empresa, João Carlos Mansur, afastou-se da gestão e renunciou à presidência do conselho. Em outubro, concluiu a venda de sua participação.
Na tentativa de reposicionar sua imagem, a gestora mudou de endereço e passou a se chamar Arandu Investimentos -termo em tupi que significa "sabedoria" ou "tempo de escutar".
Por meio de seus advogados, a empresa afirma que colabora de forma ampla com as autoridades e nega qualquer envolvimento com práticas criminosas. A defesa diz que os fundos sob investigação representam cerca de 0,23% do total de ativos administrados pela casa.
O caso acendeu um alerta no mercado financeiro sobre a possível infiltração do crime organizado em estruturas tradicionais do sistema, reforçando a pressão por regras mais rígidas de supervisão.
O BC já decretou a liquidação do Banco Master em novembro. Paralelamente, o TCU apura eventuais falhas ou omissões do próprio BC na condução do caso.
O processo envolvendo o Master e seu dono, Daniel Vorcaro, tramita sob sigilo no STF (Supremo Tribunal Federal), sob relatoria do ministro Dias Toffoli.
BC diz ao TCU que acionou MPF por indícios de fraudes do Master com Reag
O Banco Central enviou ao TCU (Tribunal de Contas da União) um relatório sobre operações suspeitas atribuídas ao Banco Master. Segundo informações do documento obtidas pela reportagem, o regulador acionou o Ministério Público Federal após identificar indícios de fraude em negócios do banco de Daniel Vorcaro com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.
O relatório do BC em poder do TCU aponta que, entre julho de 2023 e julho de 2024, Master e Reag estruturaram operações com falhas graves, em desacordo com normas do Sistema Financeiro Nacional.
Essas transações fazem parte de um conjunto de operações estruturadas do Master com fundos no montante de R$ 11,5 bilhões, sendo dois ligados à Reag. É a segunda denúncia feita pelo BC ao MPF apontando indícios de irregularidades na atuação do Master - a primeira foi a revenda de R$ 12,2 bilhões em créditos inexistentes ao BRB.
O BC indicou ao TCU inadequado gerenciamento de capital e risco, negócios sem garantia, liquidez, e diversificação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores, em fase de instrução.
A Reag foi um dos alvos da Carbono Oculto -operação realizada em agosto, que mira a relação entre setor de combustíveis, PCC e empresas financeiras. Procurada pela reportagem na tarde desta terça-feira (30), a empresa não se manifestou.
Uma das suspeitas, segundo pessoas a par das informações do Banco Central, é que os fundos teriam sido usados para pulverizar recursos em nome de terceiros, "laranjas". Entre os fundos citados, estariam o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, administrados pela Reag. Em outra frente, esses recursos teriam sido realocados na tentativa de venda do Master para o BRB (Banco de Brasília).
"Em 17 de novembro de 2025, houve nova comunicação ao MPF por indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta. Tratava-se de operações estruturadas no montante de R$ 11,5 bilhões, que revelaram inadequado gerenciamento de capital e risco, com negócios sem garantia, liquidez, e diversfiicação, agravando a crise e justificando processos administrativos sancionadores, que se encontram em fase de instrução", diz o documento enviado pelo BC ao TCU, reportando os achados contra o Master.
O processo em andamento no TCU apura falhas e omissões do Banco Central no caso Master e, como mostrou a Folha de S.Paulo, pode se transformar em trunfo para Vorcaro escapar de uma eventual condenação criminal e evitar ser forçado a fechar uma delação premiada no futuro. A apuração é mantida em sigilo pelo ministro relator Jhonatan de Jesus.
Ministros e técnicos do tribunal de contas, ouvidos pela reportagem na condição de anonimato, avaliam que a corte tem poder legal para investigar a atuação do BC, mas há uma divisão entre eles sobre a força do TCU para anular a liquidação do Master, decretada pelo órgão regulador do sistema bancário brasileiro em novembro passado.
Nesta terça, Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, foram ouvidos pela Polícia Federal. Vorcaro e Costa foram depois submetidos a uma acareação por causa de versões conflitantes.
Os depoimentos ocorreram presencialmente na sede do STF (Supremo Tribunal Federal) e foram acompanhados por um membro do Ministério Público e por um juiz auxiliar do gabinete do ministro Dias Toffoli, relator das apurações sobre o Master na corte.
O processo no qual ocorreram os depoimentos é sigiloso. Desde o começo de dezembro, diligências e medidas ligadas à investigação sobre o Master e Vorcaro têm que passar pelo crivo de Toffoli, por decisão do próprio magistrado.
A investigação sobre a tentativa de venda do Master apontou que, antes mesmo da formalização do negócio, o banco teria forjado e vendido cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consignado para o BRB -R$ 6,7 bilhões em contratos falsos e R$ 5,5 bilhões em prêmios, o valor que supostamente a carteira valeria, mais um bônus.
Comentários para "Acareação entre Vorcaro e ex-BRB tratou de venda de carteiras de crédito podre":