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Manaus era uma tragédia anunciada, diz Arthur Virgílio

Manaus era uma tragédia anunciada, diz Arthur VirgílioFoto: Agência Brasil

Ex-prefeito de Manaus aponta erro de gestão do governo estadual, mau exemplo de Bolsonaro e a insubordinação da população como causas do caos no estado

Por Matheus Leitão - Revista Veja - 16/01/2021 - 09:23:04

O ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio acredita que a dramática situação vivida de Manaus , que sofre com o aumento do número de mortes pela Covid-19 e com a falta de oxigênio dos hospitais, era uma tragédia anunciada.

“Previ o tempo inteiro. Disse o tempo inteiro. Falei que não havia nem nova onda porque não tinha acabado a primeira. O coronavírus deu um tempo, fez uma trégua e voltou? Eu tinha um grupo de pessoas, isso é facilmente comprovável, às quais eu mandava sistematicamente, todos os sepultamentos, os relatórios dos sepultamentos e o número de Covid-19. Dava para perceber”, afirmou ele à coluna.

O ex-prefeito governou a cidade nos últimos oitos anos, começando em 2013 e terminando o segundo mandato em 2020. “Depois que larguei a prefeitura, perdi este contato, mas a gente pesquisa aqui, pesquisa acolá, e percebe que anteontem foram sepultadas 198 pessoas, uma coisa absurda”. Arthur Virgílio aponta erro de gestão do governo estadual, mau exemplo de Bolsonaro e a insubordinação da população como causas do caos enfrentado pelo estado amazonense. E diz que tentou evitar o pior.

“Primeiro, o governador fez uma abertura tola. Duas vezes eu evitei. Consegui demovê-lo da ideia de abertura. Adiou a abertura. Eu dizia: ‘governador, com mortes e casos crescentes, não se pode pensar em abertura. A gente só pensa em abertura com mortes decrescentes, curva bem achatada, e pra baixo mesmo, pico virado pra baixo, aí você pode pensar em alguma abertura’. O que ele fez? Ele considerou academia de ginástica, onde as pessoas ficam muito juntas, considerou atividade econômica essencial. Ele abriu os shoppings em primeiro lugar”, acusa o ex-prefeito.

Sobre o o interior do estado do Amazonas, Arthur Virgílio afirma que a situação é ainda mais difícil que na capital Manaus. “Quando a gente fala em interior, você pensa, na pior das hipóteses, no interior do Rio de Janeiro, que são aquelas cidades ali da Baixada Fluminense. Campos, que é uma cidade próspera, mas que estão longe do nível de penúria em que vive a população do interior do Amazonas. Eles são simplesmente indefesos e não se tem números no interior. Tudo o que lhe falarem sobre o interior do Amazonas, quantos morreram, quantos não morreram, é mentira, eu posso te assegurar”, afirma o ex-prefeito de Manaus. Leia os principais trechos da entrevista abaixo:

Veja – A situação de Manaus era uma tragédia anunciada?

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Arthur Virgílio – Previ o tempo inteiro. Disse o tempo inteiro. Falei que não havia nem nova onda porque não tinha acabado a primeira. O número é como se fosse assim, uma batalha. O que pensaram? O coronavírus deu um tempo, fez uma trégua e voltou? Eu tinha um grupo de pessoas, isso é facilmente comprovável, às quais eu mandava sistematicamente, todos os sepultamentos, os relatórios dos sepultamentos e o número de Covid-19. Dava para perceber. Era assim: o quadro do dia, embaixo um gráfico dos sepultamentos nos cemitérios públicos, mais embaixo outro gráfico com os sepultamentos dos cemitérios privados, e depois um bloquinho, um tijolinho. Dentro dele, estava lá a causa de cada morte. A gente percebia claramente o embuste. Era uma responsabilidade da FVS (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas), e uma responsabilidade do Governo do Amazonas. Eles diziam assim, coisas do tipo: 13 Covid, 3 suspeitas de Covid, não sei quantas mortes em domicílio, não sei quantas mortes por causa indeterminada’. Isso foi assim desde quando parecia que estava tudo normal. Eu nunca deixei de mandar para essas pessoas, durante muito tempo eu li, cismei com aquilo, não concordava com aquele tijolinho das causas-mortes, e passei a compartilhar com algumas pessoas. Depois que larguei a prefeitura, perdi este contato, mas a gente pesquisa aqui, pesquisa acolá, e percebe que anteontem foram sepultadas 198 pessoas, uma coisa absurda.

Veja – Não dava pra ter feito alguma coisa? O que poderia ter evitado esta nova situação? De ter chegado a este extremo de novo?

Arthur Virgílio – Primeiro, o governador fez uma abertura tola. Duas vezes eu evitei. Ele é uma pessoa que fala bobagens em solenidades, sabe? Então ele dizia assim: ‘Prefeito, vamos fazer uma reunião dos poderes’. Poderes eu conheço o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Se ele conhece outros, beleza, enumere os outros. Me reuni duas vezes. Consegui demovê-lo da ideia de abertura. Adiou a abertura. Eu dizia: ‘governador, com mortes e casos crescentes, não se pode pensar em abertura. A gente só pensa em abertura com mortes decrescentes, curva bem achatada, e pra baixo mesmo, pico virado pra baixo, aí você pode pensar em alguma abertura’. O que ele fez? Ele considerou academia de ginástica, onde as pessoas ficam muito juntas, considerou atividade econômica essencial. Ele abriu os shoppings em primeiro lugar. Eu teria aberto em último porque os shoppings oferecem pra você aquele ar condicionado que você não tem certeza da salubridade deles porque é o mesmo sistema jogando ácaros em cima de todo mundo, sobre todo mundo nos momentos de acotovelamento. Ele foi, fez, depois recuou disso, e quando recuou disso propondo um lockdown – eu tinha proposto a ele na hora mais grave, ‘é hora de fazer, e realmente dar um basta, dar uma meia trava nisso’ – ele fez lockdown recentemente. Aí comerciantes e comerciários foram para as ruas, o povo aderiu. Foi uma verdadeira insubordinação civil. Foi uma coisa horrível. Ele teve que colocar Polícia Militar protegendo a casa da família dele, protegendo a casa dele, teve que se esconder. Ele não consegue ir à rua. Quer dizer, ele ajudou, com a condução equivocada destas aberturas e fechamentos. Não vou nem poder deixar de falar do presidente Bolsonaro porque o tempo inteiro ele boicotou a reação mais racional da ciência ao vírus. Quando aparece a vacina, ele nega a vacina, quer dizer, ele diz que não vai dar o braço dele pra vacina, coisa que todos os homens e chefes de estado do mundo estão sendo os primeiros a mostrar.

Veja – O que mais contribuiu?

Arthur Virgílio – Então, você pega isso, você pega o fato de que, a partir daí, nós temos um povo esfuziante, que gosta de festa, que gosta de balada, os jovens não se conformam, se sentem muito prejudicados, quando você fala em lockdown os jovens se sentem prejudicados demais. E pra você fazer o lockdown, você tem que pensar também em medidas sociais. Por exemplo, vamos ser claros. Dinheiro na mão de um despossuído, você permite o trabalho das pessoas que têm que sair de casa pra fazer a manutenção da cidade, e o resto não pode sair. A partir das seis ele deixa todo mundo sair, até um horário não sei se é uma coisa certa porque, a partir das sete, ele pode fazer o que quiser. Ele vai para tudo quanto é lugar que ele quiser, inclusive, pode fazer uma festa rave às 8h da manhã. Por que não pode? Pode fazer uma festa pra ele. Eu não sei o quanto vai render este lockdown, enfim, que propôs o governador.

Veja – E o interior? Como está?

Arthur Virgílio – Quando a gente fala em interior, você pensa, na pior das hipóteses, no interior do Rio de Janeiro, que são aquelas cidades ali da Baixada Fluminense. Campos, que é uma cidade próspera, e algumas cidades que não são prósperas, mas que estão longe do nível de penúria em que vive a população do interior do Amazonas. Eles são simplesmente indefesos e não se tem números no interior. Tudo o que lhe falarem sobre o interior do Amazonas, quantos morreram, quantos não morreram, é mentira, eu posso te assegurar. Quem quer que fale está mentindo, não está falando a verdade. O interior é indefeso. É uma morte covarde porque é uma morte pelas costas, é um tiro pelas costas, na nuca. A pessoa sobrevive se tiver que sobreviver. Tem aquelas pessoas que a Covid-19 raspa, passa raspando e não acontece nada. Tem aquelas pessoas que jovens ou não jovens, fortes ou não fortes, elas sucumbem à Covid-19 e por fim têm que ser muito bem tratadas para sobreviverem, se não, não sobrevivem. Não há praticamente atividade econômica no interior, aquele benefício, aquela prestação de benefício continuado, né, aquilo ali mais o Bolsa Família sustentam o interior do estado e mais o repasse, que é obrigatório fazer do Fundo de Participação dos Municípios, por parte do Governo federal – para os pequenos é muito importante. À medida que o município vai ficando maior deixa de ser importante isso. E, ao mesmo tempo, você lá não tem atividade econômica nenhuma.

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