No Dia Mundial das Áreas Úmidas, ICMBio destaca os desafios para a conservação desses ecossistemas

Novo mapeamento mostra que 18% da Amazônia é formada por áreas úmidas, e experiências com Sítios Ramsar indicam caminhos para fortalecer sua proteção e governança

No Dia Mundial das Áreas Úmidas, ICMBio destaca os desafios para a conservação desses ecossistemas
No Dia Mundial das Áreas Úmidas, ICMBio destaca os desafios para a conservação desses ecossistemas

Agência Gov | Via Icmbio - 03/02/2026 07:22:09 | Foto: Agência Gov Br

As áreas úmidas abrangem uma grande diversidade de ambientes na interface entre terra e água, naturais ou artificiais, permanentes ou temporários, como lagoas, lagunas, manguezais, campos e florestas alagadas, veredas, várzeas, reservatórios, turfas e o próprio Pantanal. Segundo a Recomendação do Comitê Nacional de Zonas Úmidas (CNZU) nº 7, de 11 de junho de 2015 , são ecossistemas “permanente ou periodicamente inundados ou com solos encharcados”, com águas doces, salobras ou salgadas e comunidades de plantas e animais adaptadas à sua dinâmica hídrica.

No Brasil, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) atua diretamente na proteção, gestão e pesquisa de áreas úmidas por meio das Unidades de Conservação federais, de Sítios Ramsar e de iniciativas de monitoramento e governança participativa.

Por que as áreas úmidas são tão importantes
No contexto da mudança do clima, destacam-se por sua capacidade de estocar carbono. Manguezais, por exemplo, podem absorver mais carbono do que florestas tropicais, enquanto as turfeiras, que ocupam apenas 3% da superfície do planeta, armazenam cerca de 30% do carbono terrestre — o dobro de todas as florestas do mundo juntas. Esses ambientes também reduzem riscos de inundações e secas, ao regular o fluxo de rios e favorecer a recarga de aquíferos, além de contribuírem para a filtragem e purificação da água.

O papel do Brasil
O Brasil ocupa posição de destaque global na conservação de áreas úmidas. O Pantanal é a maior planície inundável do mundo; os manguezais da costa norte formam a faixa contínua mais extensa desse ecossistema no planeta; grande parte da Amazônia é composta por ambientes alagáveis; e os maiores recifes de coral do Atlântico Sul estão em águas brasileiras.

Apesar disso, o cenário global é preocupante. Segundo o Global Wetlands Outlook de 2018, 87% das áreas úmidas do mundo foram perdidas desde 1700 — sendo 35% apenas nos últimos 50 anos, um ritmo três vezes maior que o de desmatamento de florestas naturais. Entre as principais pressões estão drenagem, poluição, espécies exóticas invasoras, usos insustentáveis do solo, alteração dos pulsos de inundação e impactos da mudança climática.

Unidades de Conservação federais e a proteção da água
Pela Lei nº 9.985/2000 , que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), as UCs têm entre seus objetivos proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos (que pertence ou pode estar relacionado ao solo ). Dentro dessas áreas, as zonas úmidas são estratégicas para a segurança hídrica, atuando como reservatórios naturais, regulando vazões e garantindo água para consumo humano e biodiversidade.

Áreas úmidas da Amazônia: milhões de hectares essenciais ao clima e à biodiversidade
Nesse cenário, a Amazônia se destaca não apenas pela extensão de suas áreas úmidas, mas também pela diversidade de funções ecológicas e pelos desafios crescentes para sua conservação.

Um estudo recente, com participação do ICMBio, revelou que 18% da Amazônia é formada por áreas úmidas, totalizando cerca de 77 milhões de hectares. Quase metade dessas áreas, porém, está fora de territórios legalmente protegidos.

O trabalho “Desafios e oportunidades para a proteção, conservação e manejo de áreas úmidas do bioma Amazônia” foi conduzido por pesquisadores do Imazon, ICMBio, ISA e EcoSaMa, com uma nova metodologia de mapeamento baseada em imagens de satélite, dados de sensores remotos e o Inventário Nacional de Áreas Úmidas.

Esses ecossistemas concentram biodiversidade extraordinária, incluindo cerca de 2 ,5 mil espécies de peixes de água doce e florestas de várzea com mais de mil espécies de árvores adaptadas às inundações periódicas.

Também atuam como filtros naturais, retendo sedimentos e decompondo poluentes e metais pesados , processo essencial para a saúde dos rios e das populações que dependem deles.

Pelo chamado “efeito esponja”, absorvem o excesso de chuvas nas cheias e liberam água gradualmente na estação seca, reduzindo riscos de inundação e garantindo a recarga de aquíferos. Nas turfeiras, esse papel é ampliado pela grande capacidade de armazenamento de carbono.

Povos indígenas, ribeirinhos e comunidades tradicionais dependem desses ciclos para sua segurança alimentar, baseada em pesca, caça e agricultura familiar. A economia local também se apoia na extração de produtos como açaí, óleos vegetais, plantas medicinais e madeira.

Importância dos Sítios Ramsar
Os Sítios Ramsar são áreas úmidas de importância internacional reconhecidas pela Convenção de Ramsar , da qual o Brasil é signatário desde 1993. O país possui 27 sítios, sendo 10 na Amazônia, que juntos somam cerca de 23 milhões de hectares.

Para a pesquisadora do ICMBio Suelma Silva, esses territórios demonstram o papel estratégico das áreas úmidas no enfrentamento da crise climática. “ Conservar áreas úmidas é uma das estratégias mais eficazes para proteger a biodiversidade, garantir segurança hídrica e enfrentar a crise climática, especialmente em regiões onde floresta, água e povos tradicionais estão profundamente interligado s” , coloca.

O estudo também mapeou mais de um milhão de hectares de áreas úmidas ameaçadas por atividades humanas. As hidrelétricas são a maior pressão (cerca de 600 mil ha em reservatórios), seguidas pelo desmatamento (290 mil ha entre 2020 e 2024). Pequenos reservatórios já afetam 112 mil hectares, além de garimpo, exploração madeireira e mineração industrial.

Em 2025, os manguezais ganharam destaque na COP 30 , quando o ICMBio discutiu modelos de governança inovadora para Sítios Ramsar , reforçando a importância desses ecossistemas para a mitigação climática, comunidades costeiras e biodiversidade.

Secas extremas e risco de ponto de não retorno
Por serem altamente dependentes da água, as áreas úmidas estão entre os ecossistemas amazônicos mais vulneráveis às mudanças climáticas, além de sofrerem pressões de desmatamento, expansão urbana, mineração e barragens.

Atualmente, apenas 53,7% das áreas úmidas amazônicas estão sob algum nível de proteção legal — 21,3% em UCs, 15,4% em Terras Indígenas, 3% em Sítios Ramsar e 14% em áreas protegidas sobrepostas.

Caminhos para a proteção
O estudo recomenda fortalecer a implementação dos Sítios Ramsar , ampliar a participação de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas nos planos de manejo e integrar as áreas úmidas às estratégias de adaptação e mitigação climática.

Ampliar o conhecimento e o reconhecimento desses ecossistemas é decisivo para evitar perdas irreversíveis e garantir a resiliência da Amazônia frente à crise climática.

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