Integrante da igreja pentecostal, Santiago recorda que a maioria das comunidades evangélicas e pastores são da periferia
Por igor Carvalho e maria Teresa Cruz - Portal Brasil De Fato - 24/06/2026 10:09:05 | Foto: Aava Santiago | Arquivo pessoal
Em Goiás, uma evangélica pentecostal será cabo eleitoral do presidente Lula (PT). A vereadora de Goiânia Aava Santiago (PSB) se destacou como figura progressista em um estado que foi governado pelo presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), um dos ícones da direita brasileira.
Pré-candidata à deputada federal, ela é uma voz de resistência em um contexto tradicionalmente conservador e almeja receber 70 mil votos na eleição de outubro.
Ao BdF Entrevista , Santiago fala sobre a expectativa em relação às eleições e o combate ao bolsonarismo no meio evangélico. A vereadora conta que sua aproximação com Lula aconteceu nas eleições de 2022, quando, segundo ela, o “momento era dramático”.
“Na época, eu era presidenta do PSDB aqui de Goiânia e eu sou da Assembleia de Deus, então foi o único diretório do PSDB na época do Brasil que apoiou o presidente Lula nos dois turnos. Desde então, a gente vem construindo, batendo bola com interlocutores do governo, com o próprio presidente. Ele sempre me aciona para fazer a leitura de cenário. Quando ele vem a Goiás, a gente sempre se encontra”, relata.
Aava Santiago conta que, no início do ano, assumiu a presidência do PSB estadual com o desafio de aumentar a representação progressista do estado no Congresso Nacional. Hoje, dos 17 deputados de Goiás, apenas dois são do PT: Delegada Fabiana Accorsi e Rubens Otoni.
A vereadora conta que é natural do Rio de Janeiro e mudou-se com a família para Goiás depois que uma tragédia aconteceu: Jonatas, um primo muito próximo, foi morto por bala perdida, conceito, inclusive, que ela questiona. “E eu sempre trago esse marcador, não importa quantas vezes eu fale dessa morte, porque a morte do Jonatas foi registrada como bala perdida. Não era uma bala perdida, obviamente era uma bala endereçada, que não se perde no Leblon, não se perde no Alphaville, não se perde nos condomínios fechados, ela só se perde perto da casa da gente, dos filhos da gente, são as mães da gente que vão para a beira do caixão”, critica.
Ela estudou Ciências Sociais e se filiou ao PSDB que, dentro do contexto de Goiás — que tem forte tradição política dos Caiado — se mostrava como um partido de oposição. “Confesso a você, e não me envergonho nem um pouco disso, eu não tinha nenhum letramento ideológico. Meu letramento era o tiro e a fome. Era isso que me situava no mundo. E foi isso que me fez pensar: ‘Poxa, eu quero estudar para fazer o que esse cara — que na época era o governador de Goiás, Marconi — faz'”, afirma.
O tempo foi passando, conta a vereadora, sua compreensão das disputas ideológicas foi amadurecendo e o PSDB foi ficando cada vez mais distante do que ela acreditava. “Seria absolutamente incongruente a minha permanência. E eu sou uma cumpridora de missão. Aqui em Goiás, eu vou pedir votos para quem o presidente Lula mandar. Isso é indiscutível”, crava.
Quando questionada como se define, Aava Santiago não hesita: “Eu me considero uma mulher progressista, mas o que eu tenho de mais radical na minha vida é o Evangelho de Cristo. É ele que me faz radicalmente contra as injustiças, radicalmente contra as opressões, radicalmente contra a fome. É ele que radicalmente me posiciona ao lado dos perseguidos, dos marginalizados. Tudo em que eu sou de mais radical e tudo que é mais inegociável para mim, eu aprendi primeiro na Escola Bíblica Dominical.”
A parlamentar também propõe uma reflexão sobre como, devido ao estigma criado por algumas lideranças religiosas, determinadas alas da esquerda afastaram-se dos evangélicos no debate político. “Havia uma esquerda ali muito academicista, muito elitista, que olhava para nós, pentecostais, como alienados, como o crente burro que dá o dízimo para o pastor ladrão, como o crente alienado que serve de massa de manobra para o pastor ladrão. São grandes equívocos. A maioria esmagadora dos pastores pentecostais desse país nasce pobre e morre pobre. As nossas comunidades estão majoritariamente fincadas em chão periférico “, afirma.
Na sua visão, essa arrogância impediu que diálogos eficientes acontecessem, deixando o grupo evangélico, de forma geral, refém de uma narrativa identitária da extrema direita. Contudo, afirma Santiago, a notícia é boa: “O povo evangélico está saturado da extrema-direita. Está saturado do bolsonarismo. E eu sempre digo que essa não é a fé evangélica. A ‘bolsolatria’ é uma outra religião instalada como parasita entre os nossos. Mas ela definitivamente não é a nossa fé.”
Confira a entrevista completa abaixo:
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
Editado por: Gia Matheus Almeida
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