Quem é Ricardo Magro, alvo de operação da Polícia Federal
Nicola Pamplona E Alexa Salomão-rio De Janeiro, Rj, E São Paulo, Sp (folhapress) - 20/05/2026 06:55:27 | Foto: Fantástico/ TV Globo
ALEXA SALOMÃO E NICOLA PAMPLONA-SÃO PAULO, SP, E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O empresário Ricardo Magro, dono da refinaria Refit, no Rio, voltou a ser alvo de operação sobre fraudes no setor de combustíveis nesta sexta-feira (15). Magro vive em Miami e foi determinada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a inclusão de seu nome na lista vermelha da Interpol.
Na ação desta sexta, a PF (Polícia Federal) apura suspeitas de fraudes fiscais, ocultação patrimonial e inconsistências relacionadas à operação de refinaria. Em novembro de 2025, o Grupo Refit já havia entrado na mira de uma das maiores operações de combate à sonegação realizadas contra uma única empresa no setor, com a investigação de uma teia de pessoas físicas e empresas direta ou indiretamente ligadas aos negócios de Magro.
Em entrevista à Folha de S.Paulo no início de setembro, logo após a megaoperação Carbono Oculto intensificar o combate ao crime organizado no setor de combustíveis, Magro declarou que trabalhava na legalidade e que é perseguido. Magro disse que não era sonegador contumaz, apenas tinha discussões sobre o pagamento de impostos com o Fisco.
O empresário conduz seus negócios a partir de Miami, nos Estados Unidos, onde fixou residência em 2016.
Na vida privada, Magro segue tradições africanas. É adepto da umbanda, jogou capoeira e, na cena musical, atua como o DJ de afro house Orgam -um anagrama de seu nome. Admira esportes e a cultura, por causa disso, a Refit já fez doação para escola de samba, parceria com o UFC e patrocínio oficial para a NFL no Brasil.
Na cidade praiana americana, Magro vive com conforto. A reportagem teve acesso ao seu processo de separação. A discussão ocorreu entre 2019, quando ele saiu de casa, e 2021, com a assinatura de um acordo, mas dá uma ideia do padrão de vida no exterior.
A residência do casal era um imóvel com mais de 9.000 metros quadrados e o valor tributável, então, superava US$ 3,5 milhões (R$ 18,7 milhões em valores de hoje). Na época, a então esposa dirigia um Range Rover, e Magro, um Maserati.
Eles ainda precisaram discutir a partilha de um barco Azimut de 60 pés, marca de luxo italiana. O processo destacava que vários outros imóveis tinham sido adquiridos durante o casamento, em áreas nobres da Flórida, como Sunny Isles, Park Grove, Coconut Grove e Key Biscayne, uma linda ilha na região.
Quando saiu de casa, Magro se mudou para uma propriedade alugada. Pelo que a esposa contou no processo, antes de vencer o contrato de locação, ele alugou uma casa, também em Miami, que pertencia ao jogador americano de basquete LeBron James -uma mansão luxuosa com cozinha de chef, adega de sommelier, cinema personalizado e muitos outros recursos, que custava entre US$ 35 mil e US$ 40 mil (R$ 187 mil e R$ 213 mil) por mês.
Apesar de conhecido na cena carioca, Magro é nascido e criado em São Paulo. Ele conta que o pai foi dono da antiga rede de postos Tigrão, então da bandeira Esso, e que usava aquele macacão da marca. Diz que o negócio praticamente quebrou depois de a petroleira mudar o modelo e apostar em revendas menores. Entre 1997 e 2004, a família, então, passou a atuar na distribuição, quando sofreu novo revés, e decidiu se mudar para o Rio de Janeiro.
Não muito tempo depois, Magro inicia uma relação comercial com Manguinhos. Em 2008, adquiriu a refinaria, por R$ 7 milhões na época, quando estava à beira da falência. Dali para frente foi só controvérsia, com Magro imerso em discussões judiciais, tributárias e policiais.
Em 2012, por exemplo, o governo de Sergio Cabral chegou a decretar a desapropriação devido a denúncias de sonegação e inadimplência de impostos, forçando a interrupção das atividades.
Na política, é conhecido por transitar bem seja qual for a ideologia. No passado, era lembrado como alguém à esquerda. No final da década de 2000, o ex-secretário de Comunicação do PT e assessor da Casa Civil durante a gestão do ex-ministro José Dirceu, Marcelo Sereno, teve cargos em Manguinhos.
Agora, é associado à direita, por causa da proximidade com o senador Ciro Nogueira (Progressistas) e políticos do PL -especialmente no Rio de Janeiro-, mas nega conhecer a família Bolsonaro.
Em nota enviada em novembro, a Refit afirma que os débitos tributários apontados pela Secretaria da Fazenda de São Paulo são alvo de questionamento judicial, "exatamente como fazem inúmeras empresas brasileiras". Por isso, a empresa nega tentativa de ocultar receitas ou fraudar o recolhimento de tributos.
Polícia Federal acusa Cláudio Castro de usar máquina pública para facilitar crimes da Refit
As investigações da Polícia Federal que culminaram com a Operação Sem Refino, deflagrada nesta sexta-feira (15), acusam o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro de usar a máquina do estado para facilitar crimes atribuídos ao empresário Ricardo Magro, dono da Refit.
As denúncias indicam que agentes públicos de alto escalão receberiam mais de R$ 300 mil por mês para facilitar processos do grupo. Um fiscal de rendas é acusado de ter acumulado mais de R$ 12 milhões em propinas nos últimos anos.
"A leniência e a criação de um ambiente propício para a propagação da atividade espúria desenvolvida pela organização criminosa capitaneada por Ricardo Magro", diz a PF, "retratam o amálgama do crime organizado com agentes públicos influentes na política fluminense, a começar pelo então chefe do Poder Executivo".
Em nota, a defesa de Castro diz que foi surpreendida com a operação, que o ex-governador "está à disposição da Justiça para dar todas as explicações convicto de sua lisura" e que todos os procedimentos de sua gestão obedeceram aos critérios técnicos e legais da legislação vigente, inclusive os relacionados à política de incentivos fiscais do Estado.
"A gestão Cláudio Castro foi a única a conseguir que a Refinaria de Manguinhos pagasse dívidas com o estado, o que reforça a postura isenta e institucional do ex-governador. No total, gestão conseguiu garantir o pagamento de parcelas cujo o montante se aproxima de R$ 1 bilhão."
A defesa afirma que o parcelamento está suspenso devido a decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e que, em sua gestão, a PGE (Procuradoria-Geral do Estado) ingressou com inúmeras ações contra a Refit.
A Refit e Magro, também em nota, negam ter falsificado declarações fiscais para ter vantagens fiscais ou ter fornecido combustível para o crime organizado.
Castro foi um dos alvos de mandados de busca e apreensão na operação desta sexta. Ele renunciou ao cargo em março, para evitar cassação pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em processo de abuso de poder nas eleições de 2022.
O governo Castro é acusado de tomar decisões que facilitaram supostas operações fraudulentas do grupo Refit e de dificultar investigações e processos contra empresas de Magro. Entre as facilidades, aprovou uma lei que parcelou R$ 9,5 bilhões em dívidas com desconto de 95% das penalidades e juros.
A lei ficou conhecida como "Lei Ricardo Magro".
As investigações apontam ainda atuações de outros órgãos estaduais em favor do grupo. O Inea (Instituto Estadual do Meio Ambiente) teria aprovado e renovado licenças de operação ambiental para a Refit à revelia de pareceres do Ibama (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis).
A PGE teria emitido pareceres favoráveis à empresa. Em um deles, tentou reverter interdição da refinaria de Manguinhos pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) após a Operação Cadeia de Carbono, em parceria com a Receita Federal.
No parecer, a procuradoria alegava que a paralisação das atividades da refinaria teria efeitos negativos sobre as receitas do estado.
A Polícia Federal acusa ainda agentes da Polícia Civil do Rio de atuar para sabotar investigações sobre irregularidades cometidas pela Refit, adotando medidas que inviabilizassem a colheita de provas, como a intimação precoce de suspeitos.
"Sob a batuta de Cláudio Castro e mediante suas diretrizes, o Estado do Rio de Janeiro direcionou todos os esforços de sua máquina pública, em um verdadeiro engajamento multiorgânico em prol do conglomerado capitaneado por Ricardo Magro", diz a PF.
O ex-secretário de Fazenda Juliano Pasqual é apontado como peça-chave nesse esquema. Sob seu comando, diz a PF, a secretaria se tornou "extensão da estrutura empresarial o grupo Refit", com decisões favoráveis aos negócios de Magro.
Segundo as investigações, Pasqual teria ainda atuado para impedir a concorrência no estado, ao obstruir ou dificultar obras de outras empresas do setor, como Tobras, Tramp Oil e Branson Holdings.
A decisão destaca que o conglomerado Refit e as pessoas vinculadas a ele acumulam uma dívida de cerca de R$ 52 bilhões inscrita na dívida ativa da União, estados e Distrito Federal. Desse total, 94%, R$ 48, 9 bilhões, estão concentrados especificamente na Refit.
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