Quando a soma dos votos não fecha e o impoderável acontece

O maior risco para o campo de centro e direita não é perder uma disputa direta no segundo turno

Quando a soma dos votos não fecha e o impoderável acontece
Quando a soma dos votos não fecha e o impoderável acontece

Por João Zisman - 02/02/2026 15:26:00 | Foto: João Zisman - Editoria de Artes/IA

Há eleições decididas por projetos, outras por rejeições acumuladas. E há aquelas, talvez as mais brasileiras de todas, em que o resultado nasce de um terreno instável, marcado por fragmentação, cansaço institucional e acontecimentos que ninguém controla por completo. Em 2026, o Brasil já se move nesse ambiente, com o tabuleiro armado e as peças em deslocamento constante.

No campo de centro e de direita, nunca houve tantos nomes viáveis. Governadores bem avaliados, discursos ajustados ao centro do eleitorado, trajetórias administrativas consistentes. No papel, isso sugere vitalidade política. Na prática, pode esconder um risco menos evidente. Enquanto alternativas disputam espaço entre si, Lula aparece nas pesquisas liderando cenários não por empolgar, mas por algo mais silencioso e, justamente por isso, mais eficaz: estabilidade relativa em meio ao barulho.

A eleição presidencial brasileira nunca foi uma corrida em linha reta. Ela se constrói como um mosaico, formado por disputas estaduais que obedecem a lógicas próprias, muitas vezes indiferentes ao alinhamento nacional. Governadores disputam seus estados, não a Presidência. Senadores defendem seus mandatos. Deputados protegem suas bases. O eleitor, por sua vez, não se sente obrigado à coerência vertical. Vota no governador pragmático, no senador possível e no presidente que lhe parece menos distante. Não é contradição. É sobrevivência política.

É nesse ponto que os grandes partidos revelam sua verdadeira natureza. MDB, União Brasil, PP, Republicanos e PSD funcionam menos como legendas ideológicas e mais como grandes estruturas regionais de poder. Cada estado é um jogo distinto. Cada palanque, uma negociação específica. A eleição presidencial entra nessa equação como fator relevante, mas raramente decisivo.

Não é incomum que esses partidos estejam próximos do governo federal em determinados estados e mantenham distância, ou até oposição, em outros. O critério não é incoerência, mas conveniência política. Onde o governo ajuda, aproxima-se. Onde atrapalha, relativiza-se. Onde ameaça, afasta-se. O resultado é um arranjo desigual, no qual a candidatura presidencial pode ser central em um território e quase irrelevante no vizinho.

Nesse ambiente, a fragmentação do campo conservador cria uma sensação confortável, porém enganosa. A ideia de que múltiplas candidaturas garantem o segundo turno e, nele, uma união automática contra o incumbente é sedutora, mas não necessariamente verdadeira. Funciona quando o líder permanece claramente abaixo de um patamar crítico dos votos válidos. Mas se o incumbente se aproxima dos 47% ou 48%, com brancos e nulos em alta e adversários pulverizados, o sistema pode produzir um desfecho inesperado. Não por adesão entusiasmada, mas por dispersão alheia.

A esse quadro soma-se um elemento decisivo: o PL, que em 2026 se propõe a representar a direita mais radical e identitária, com candidatura própria liderada por Flávio Bolsonaro. A presença do PL nesse arranjo não é detalhe. Ela tensiona todo o campo conservador. Ao reivindicar para si a autenticidade da direita dura, o partido estreita a margem de negociação e reduz a elasticidade do voto. Parte do eleitorado se move por identidade, não por cálculo. E identidade, quando ativada, raramente migra com facilidade no segundo turno.

É nesse ponto que o imponderável entra em campo, não como fator externo, mas como parte do próprio jogo político. O Brasil vive um ambiente contínuo de escândalos, atravessando Executivo, Legislativo e Judiciário. Eles já não causam espanto. Produzem desgaste difuso. O imponderável, aqui, não é a existência dos escândalos, mas quem será mais atingido por eles. A experiência recente mostra que o impacto raramente segue a lógica imediata. Às vezes, o cansaço institucional protege quem já está no poder. Outras vezes, penaliza quem tenta se apresentar como alternativa. Em certos momentos, apenas empurra o eleitor para fora do jogo, ampliando abstenção, votos brancos e nulos.

Esse cenário não favorece necessariamente quem fala melhor ou tem o discurso mais correto. Favorece quem atravessa a turbulência sem parecer desorganizado. Favorece quem transmite a sensação de que, apesar de tudo, o sistema ainda se mantém de pé sob seu comando. Em contextos assim, partidos grandes tendem a reduzir riscos, não a apostar tudo numa ruptura incerta. Neutralidade, nesse jogo, já é uma escolha.

Há também um equívoco recorrente no debate público: confundir civilidade entre candidatos com garantia de união eleitoral. Civilidade reduz ataques. Não constrói convergência. União real exige costura política, compromissos claros, incentivos concretos e uma narrativa minimamente compartilhada. Sem isso, o segundo turno, se vier, pode chegar com cansaço, ressentimentos e transferência incompleta de votos. Apoios protocolares produzem campanhas mornas. Militância fria não se converte em maioria.

No Brasil, isso se agrava pelo peso dos estados e pela forma como os grandes partidos operam. MDB, União Brasil, PP, Republicanos e PSD raramente entregam seus territórios em bloco. Negociam pedaço por pedaço. Quando a disputa nacional vira assunto lateral nas campanhas locais, o presidenciável vira figurante da própria eleição. Quando lideranças regionais apostam até o limite em seus projetos individuais, esperando que a convergência venha depois, o tempo costuma cobrar um preço alto.

Lula conhece bem essa lógica. Seus adversários também, ao menos em tese. A diferença, em 2026, está menos no diagnóstico e mais na capacidade de agir antes que o jogo se feche. O campo de centro e direita chega a este ano com múltiplas lideranças, partidos grandes operando em chave regional e o PL ocupando o espaço da direita mais ideológica. Esse movimento não apenas adiciona um nome ao tabuleiro. Ele redefine as margens de negociação e impõe custos reais à ideia de convergência automática.

O maior risco para o campo de centro e direita não é perder uma disputa direta no segundo turno. É chegar a ele fragmentado demais, cansado demais ou, no limite, sequer chegar. Em um ambiente marcado por escândalos espalhados, alianças estaduais desalinhadas e grandes partidos jogando na defensiva, eleições não são decididas por entusiasmo nem por indignação. São decididas por inércia.

E a inércia, quase sempre, favorece quem já ocupa o centro do tabuleiro. Quando a soma não soma, a política não espera consenso, nem respeita expectativas. Ela simplesmente resolve.

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