Trump segue como o Menino Maluquinho da geopolítica, não pelo encanto
João Zisman - 26/01/2026 10:36:47 | Foto: João Zisman - Foto Editoria de Artes/IA
Donald Trump resolveu brincar de paz como quem monta uma invenção no meio da sala e avisa, antes mesmo de ligar na tomada, que vai dar certo. O Conselho da Paz nasce assim: ideia simples, anúncio barulhento e a convicção absoluta de que, se ele estiver no centro, tudo funciona. Trump fala primeiro, concorda em seguida, reforça o ponto e encerra a conversa. Quatro vozes, uma só cabeça.
A lista de convidados ajuda a definir o clima. Parte da Europa preferiu ficar de fora, com a elegância de quem entende o risco do convite. O Canadá, o vizinho de porta, passou por situação mais constrangedora: não foi esquecido. Foi desconvidado. A paz começa seletiva, quase caprichosa.
As premissas também não escondem o improviso. Fala-se em pacificação global enquanto se testa a elasticidade dos mapas, como se soberania fosse rascunho. A Groenlândia entra na conversa como quem entra numa vitrine. Trump sempre teve esse olhar imobiliário para o mundo: onde há conflito, ele vê terreno subaproveitado.
Gaza aparece como projeto. O genro, Jared Kushner, surge com planos de reconstrução dignos de quem passou a vida olhando ruínas e enxergando oportunidades. Em Manhattan, bairros. No Oriente Médio, maquetes. A lógica é a mesma. Só muda a escala do problema.
E então entra Vladimir Putin, sempre atento, sempre calculando. Topa integrar o Conselho da Paz, desde que a cota bilionária saia dos recursos russos congelados por sanções. Uma jogada típica de um Vorcaro internacional: não nega o negócio, só ajusta o fluxo de caixa. “Libera o dinheiro e eu pago.” Não é provocação. É teste de limite.
Aqui está o ponto central. Trump e Putin não são ingênuos. Eles acreditam que podem enganar, ou pelo menos que podem ir avançando até onde os outros deixam. Um fala alto para ver quem se constrange. O outro fala pouco para ver quem cede. Ambos jogam para medir reação. Se ninguém reage, avançam mais um passo.
O Conselho da Paz vira, assim, um grande experimento. Menos sobre resolver conflitos e mais sobre observar até onde vai a paciência alheia. Quem aceita. Quem recua. Quem finge não ver.
Nada disso os desmoraliza. Pelo contrário. Humaniza. Mostra líderes testando bordas, esticando conceitos, explorando ambiguidades. Trump testa pelo excesso. Putin, pela sutileza contábil. Ambos sondam o mesmo terreno: o limite dos outros.
No fim, o Conselho diz menos sobre paz e mais sobre poder. Trump segue como o Menino Maluquinho da geopolítica, não pelo encanto, mas pela certeza quase infantil de que dá para empurrar o mundo um pouco mais e ver se alguém reclama.
Putin observa, calcula e pergunta onde assina. Desde que o teste passe.
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