Selo de terrorista não resolve combate a cartéis na América Latina, dizem pesquisadores

O movimento do Planalto não é sem motivo

Selo de terrorista não resolve combate a cartéis na América Latina, dizem pesquisadores
Selo de terrorista não resolve combate a cartéis na América Latina, dizem pesquisadores

Douglas Gavras Buenos Aires, Argentina (folhapress) - 30/03/2026 16:55:55 | Foto: © U.S. SOUTHERN COMMAND/DIVULGAÇÃO

A classificação de organização terrorista dada a grupos do narcotráfico na América Latina, é uma das políticas mais impulsionadas pelo governo do Estados Unidos para a região.

A discussão ganhou força no Brasil e também peso eleitoral para outubro, com a proposta enfrentando resistência do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sendo defendida pela oposição.

O governo brasileiro tenta evitar que os EUA anunciem a designação do CV e do PCC como organizações terroristas. Como mostrou a Folha de S. Paulo, o Planalto avalia que a designação abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro.

O movimento do Planalto não é sem motivo. Ao longo de 2025, o governo de Donald Trump aumentou a lista de grupos designados dessa forma, atualmente com 18 exemplos na região, conforme um relatório da InSight Crime, um think tank de crime e segurança da América Latina.

A medida é parte de uma estratégia para isolar e combater esses grupos, que, segundo a Casa Branca, representam uma ameaça à segurança nacional americana e regional.

Fazem parte da lista atores bem distintos: de cartéis de drogas mexicanos, como o Nova Geração de Jalisco e o de Sinaloa, a grupos dissidentes das Farc, na Colômbia; de criminosos que aterrorizam os equatorianos com roubos e sequestros, como Los Lobos e Los Choneros, ao Tren de Aragua, que se espalhou a partir da Venezuela para outros países da região.

Além do tráfico de drogas, esses coletivos são conhecidos pelo envolvimento em diversos crimes, como lavagem de dinheiro, extorsão, roubos e homicídios.

Em setembro passado, os EUA enviaram um destacamento militar ao Caribe e começaram a realizar ataques em águas internacionais contra embarcações supostamente ligadas a esses grupos criminosos.

Outros países da América Latina começaram a seguir o modelo de classificação, designando-os como organizações terroristas. El Salvador fez o mesmo com o Barrio 18 e a Mara Salvatrucha, assim como a Guatemala.

Em janeiro de 2024, o Equador deu um dos passos mais significativos nesse sentido, apontando 22 grupos como terroristas, e Argentina e Peru fizeram o mesmo em agosto passado com o chamado Cartel de los Soles, grupo que supostamente seria dirigido por altas autoridades políticas e militares da ditadura venezuelana.

Em outubro de 2025, o presidente paraguaio Santiago Peña declarou os grupos criminosos brasileiros CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) organizações terroristas internacionais.

Após se reunir em Brasília com o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) na semana passada, o boliviano Rodrigo Paz, afirmou que o Comando Vermelho e o PCC, que também atuam no país vizinho, geram um sentimento de terrorismo.

Na visão de pesquisadores de quatro desses países que optaram por fazer a designação de terroristas a esses criminosos, a medida ainda não trouxe efeitos justificáveis no combate ao crime organizado.

Para Steven Dudley, um dos diretores da InSight Crime, a classificação de grupos como PCC e Comando Vermelho como terroristas pode abrir espaço para mais problemas. "Eles podem ter algumas características, mas acho muito difícil dizer que sejam terroristas. A designação abre as portas para conflitos internacionais devido às diferentes interpretações, porque alguns países, como os EUA, pensam que isso lhes confere maior jurisdição para agir", diz.

"Grupos que não têm características de organizações terroristas não deveriam ser classificados dessa forma. Há maneiras de fazer frente a grupos terroristas, mas não são as formas mais eficazes de enfrentar uma organização criminosa", complementa.

"Essas são pessoas que continuarão a cometer crimes, em diferentes partes do país e da região", avalia Juan Martens, do Paraguai, doutor em Criminologia e pesquisador do Inecip (Instituto de Estudos Comparados em Ciências Penais e Sociais) e da Universidade Nacional de Pilar.

"Ultimamente, há uma tendência de diminuir as salvaguardas do direito penal liberal e facilitar a persecução penal, mas isso provou ser um fracasso, e o exemplo mais claro é a guerra contra as drogas no México, que sob [o ex-presidente] Felipe Calderón foi militarizada e terminou como terminou. Não se trata de facilitar o combate ao crime organizado, mas sim de preparar a população para aceitar certas narrativas", diz.

Segundo Fernando Carrión, professor do Equador e coordenador da Aliança Universitária URBstIC, os números não justificam a mudança.

"Quando [o presidente equatoriano] Daniel Noboa assumiu o cargo, a taxa de homicídios era de 44 por 100 mil habitantes, muito alta. Dois meses depois, ele declarou guerra contra o crime organizado e houve uma queda. Minha hipótese é que foi a primeira política desse tipo no Equador e os grupos estavam recuando", diz.

Ele argumenta que praticamente um ano após a declaração de conflito armado interno, o Equador atingiu a taxa de 31 homicídios por 100 mil habitantes. "Então, se analisarmos se essa política funcionou ou não, os dados são bastante claros."
Na avaliação de Luis Carlos Córdova-Alarcón, professor da Universidade Central do Equador, a violência e o crime no país estão intimamente ligados à base social, às gangues urbanas que impulsionam essa dinâmica de violência no país e na região.

"Portanto, ao classificar organizações como terroristas, especialmente pelos Estados Unidos, como fizeram com Los Choneros e Los Lobos, simplesmente é criado um adversário para justificar operações antiterroristas."
Para Carolina Sampó, do Conicet (conselho de pesquisas científicas da Argentina) e professora da Universidade Complutense de Madri, a decisão dos EUA de classificar organizações criminosas latino-americanas como terroristas está ligada a sua capacidade de usar a força na região, evidenciada pela operação para remover o ditador Nicolás Maduro do poder na Venezuela, em janeiro.

Segundo ela, isso não teria sido possível sem a classificação como terrorista do Cartel de los Soles e das acusações de que Maduro faria parte da organização -mais tarde, o Departamento de Justiça dos EUA recuou da acusação de que o chavista chefiava o cartel.

"Atualmente, com o governo Trump e suas intervenções, assim como a intervenção na Venezuela, que foi relativamente cirúrgica em termos de entrada no país, remoção de Maduro e, obviamente, negociação com a vice Delcy Rodríguez, trata-se de uma violação de soberania."
A pesquisadora pondera que, ainda que organizações como PCC e Comando Vermelho sejam designadas como terroristas, esse movimento não deve trazer riscos de intervenção estrangeira no Brasil como ocorreu com a Venezuela.

Martens discorda. Para ele, um país que tem grupos classificados como terroristas se torna um alvo para intervenções de potências estrangeiras. Para ele, é preciso reforçar a atuação em conjunto dos países da região para combater os criminosos sem ser preciso mudar a classificação.

"Para o PCC, o Paraguai era basicamente uma zona de conforto, e eles até o transformaram em um centro logístico internacional para distribuição de drogas. Estamos a apenas uma hora de voo dos centros de produção de cocaína, e essa droga depois entra no Brasil ou na Argentina por terra."

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