Sociedade normaliza assédio e abuso sexual de crianças e adolescentes?

Lucas Lopes fala em 'sensibilidade social seletiva', já que maioria das violências acontece no contexto familiar

Sociedade normaliza assédio e abuso sexual de crianças e adolescentes?
Sociedade normaliza assédio e abuso sexual de crianças e adolescentes?

Por maria Teresa Cruz e raquel Setz - Portal Brasil De Fato - 18/04/2026 16:45:01 | Foto: © ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL

Entre as meninas, o índice de violência chega a 26%.

A última edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que 18,5% dos estudantes do 7º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio já sofreram alguma forma de assédio sexual. Entre as meninas, o índice chega a 26%. A pesquisa também aponta que mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros já foram submetidos à relação sexual forçada.

Será que a sociedade brasileira condena esse tipo de comportamento no discurso, mas normaliza na prática ?

Ao BdF Entrevista , Lucas Lopes, secretário executivo da Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes, diz acreditar que sim e fala em “sensibilidade social seletiva”, uma vez que a maioria dessas agressões acontece no ambiente familiar.

“A narrativa, o discurso da defesa dos direitos de crianças e adolescentes está presente no imaginário social, mas, na prática, é o oposto. E uma das questões é exatamente o fato de que essa é uma violência predominantemente intrafamiliar, que acontece no contexto doméstico. Existe um deslocamento moral do debate, que é como se a sociedade estivesse dizendo: ‘É um problema que nós temos, nós não sabemos como enfrentá-lo ou nós não queremos enfrentá-lo, porque no fundo é um problema de como nós nos relacionamos domesticamente'”, analisa.

Lopes também procura desmistificar o perfil do agressor, geralmente definido no senso comum como uma pessoa solitária, suspeita. “Uma narrativa muito presente é a que coloca o autor de violência ou a autora de violência como uma figura monstruosa num beco escuro. É importante conversar sobre isso”, alerta.

O secretário executivo também afirma que quem comete uma violência sexual contra uma criança não necessariamente é pedófilo. “A gente precisa falar sobre violência sexual contra crianças e adolescentes separando um pouco as coisas. Nem todo mundo que comete o crime de estupro de vulnerável possui esse transtorno, essa parafilia, clinicamente falando. Narrativas têm deslocado, mantido esse imaginário, essa crença de que quem comete o crime de estupro é pedófilo ou pedófila, e isso não procede”, afirma.

Lopes também ressalta a importância da denúncia. “Os canais estão aí, tem o disque 100, os conselhos tutelares. Muitas vezes, acontece por meio da escola, que identifica no aluno ou aluna alguns sinais comportamentais e assim por diante. Uma vez feita a denúncia, existe legalmente todo um sistema de garantias da criança vítima ou testemunha de violência, que é a lei 13.431 de 2017. É uma lei que vai completar dez anos e promove a não revitimização”, diz.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: THAÍS FERRAZ

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