A pesquisa Datafolha divulgada ontem aparece como um dos sinais mais visíveis desse ambiente
Por João Zisman - 09/03/2026 21:56:43 | Foto: Divulgação João Zisman
Segundas-feiras costumam ser tratadas como o início de uma nova rodada da política. O noticiário desta semana mostra algo diferente. O que se vê agora não é um recomeço, mas a continuação direta de um ambiente que começou a se formar ao longo dos últimos dias e que foi aproximando investigação criminal, disputa institucional e desgaste político.
A pesquisa Datafolha divulgada ontem aparece como um dos sinais mais visíveis desse ambiente. O aumento da desaprovação ao governo Lula não surgiu no vazio. Ele aparece depois de uma sequência de episódios que ocuparam o centro do debate público e empurraram o sistema político para um terreno de maior tensão.
Entre esses episódios, nenhum ganhou gravidade comparável ao caso Vorcaro.
O que inicialmente parecia restrito ao universo financeiro do Banco Master passou a revelar um conjunto de mensagens, áudios e registros que ampliaram o alcance institucional da investigação. O material extraído do telefone do empresário chegou à CPMI do INSS em centenas de arquivos e continua sendo examinado em Brasília, onde cada nova leitura produz interpretações políticas diferentes.
Entre os registros que começaram a circular nos bastidores há um detalhe particularmente sensível. No dia de uma de suas prisões, Vorcaro manteve contato com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. O aparelho registra o envio de mensagem e três respostas em formato de visualização única, mecanismo que impede o armazenamento posterior do conteúdo.
É preciso afirmar com clareza que esse registro não constitui prova de irregularidade.
Mas ele produz um problema institucional.
Quando o nome de um ministro da mais alta corte do país aparece no contexto de uma investigação criminal que já envolve suspeitas de pressão sobre testemunhas, circulação de influência e disputas políticas, o assunto deixa de ser apenas jurídico. Ele passa a ser institucional, porque o Supremo Tribunal Federal não é um ator comum do sistema político. É a instância encarregada de proteger a própria arquitetura da República.
Nesse tipo de situação, o silêncio institucional costuma ser interpretado como indiferença, quando na verdade o que a sociedade espera é exatamente o contrário: clareza.
Até agora, as explicações apresentadas se apoiam em tecnicalidades periciais. Fala-se em limitações do aparelho, em mensagens que desaparecem após visualização única, em registros que não podem ser preservados. São argumentos que fazem sentido no universo técnico, mas que não resolvem o problema central.
O problema é político e institucional.
A nação não pode viver sob a lógica do “se”.
Se houve mensagem.
Se houve resposta.
Se o conteúdo existiu ou não.
Quando uma instituição da dimensão do Supremo Tribunal Federal aparece no centro de uma zona de dúvida, a resposta não pode ficar restrita ao campo das condicionais. Instituições não podem depender de suposições para preservar credibilidade.
Ao mesmo tempo, o ambiente político da semana passada deixou claro que os ruídos não estão isolados. A decisão do ministro Flávio Dino de suspender quebras de sigilo aprovadas pela CPMI do INSS reacendeu a disputa entre Congresso e Supremo sobre os limites do poder investigativo parlamentar. Em paralelo, a Câmara aprovou a PEC da Segurança Pública, recolocando o tema da segurança no centro da agenda nacional, ainda que tenha deixado de fora a discussão sobre redução da maioridade penal.
Quando investigações criminais, disputas institucionais e reformas constitucionais passam a ocupar o mesmo espaço político, o sistema naturalmente se torna mais sensível.
A pesquisa Datafolha divulgada neste início de semana apenas captou esse ambiente.
O país atravessa um momento em que as instituições são observadas com atenção redobrada. E justamente por isso nenhuma delas pode permitir que a vida pública seja conduzida por hipóteses.
Uma República não se sustenta na base do “talvez”.
Ela precisa funcionar no terreno das certezas.
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