A opinião do colunista João Zisman: Calças curtas acabam antes da maioridade penal

Muitos desses meninos viravam estafetas, contínuos, o que anos depois o mundo corporativo batizaria de office boys

A opinião do colunista João Zisman: Calças curtas acabam antes da maioridade penal
A opinião do colunista João Zisman: Calças curtas acabam antes da maioridade penal

Por João Zisman - 14/06/2026 11:26:57 | Foto: João Zisman

Havia um tempo em que meninos usavam calças curtas até quando já eram bem grandinhos. Não era pobreza nem descuido. Era o sinal visível de que aquele ainda era um menino, e que o mundo sabia disso e respeitava. A transição para a vida adulta tinha ritos. As moças debutavam aos quinze anos, apresentadas à sociedade como quem atravessa uma porta. Os rapazes vestiam o primeiro terno, começavam a trabalhar, assumiam responsabilidades que chegavam com peso e com orgulho.

Muitos desses meninos viravam estafetas, contínuos, o que anos depois o mundo corporativo batizaria de office boys. Os que precisavam ajudar em casa iam vender balas, engraxar sapatos, fazer o que fosse necessário. O trabalho não os escravizava. Os forjava. Para uma vida que lhes ofereceria muito pouco, é verdade, mas que ainda assim seria deles, construída com as próprias mãos. O tempo tinha uma ordem que todo mundo entendia sem precisar explicar.

Os crimes da garotada, nessa época, tinham escala de trotes. A galinha da vizinha, a fruta do quintal alheio. Travessuras que o tempo e a vergonha tratavam de corrigir. Ninguém confundia isso com o crime. Porque não era.

Algo mudou. Não no sentido em que costumamos usar essa expressão, como se mudança fosse sempre avanço. O que aconteceu foi outra coisa. A sociedade não amadureceu o jovem mais depressa. Ela o corrompeu mais cedo. São coisas inteiramente diferentes, e confundi-las tem custado caro.

O Estado foi deixando o terreno. O crime foi ocupando. E num país em que o Estado chega tarde ou não chega, o crime chega primeiro, com estrutura, com hierarquia, com promessa e com ameaça. Para um menino de doze anos criado num lugar onde o poder visível usa fuzil e não crachá, a escolha raramente é livre. Mas acontece. E suas consequências são reais, concretas, irreversíveis para quem está do outro lado.

A legislação foi sendo alterada ao longo dos anos. Modernizada, dizem. Essa palavra foi usada tantas vezes para cobrir retrocessos que já virou, para quem acompanha de perto, sinônimo de atraso. E o problema não é só o código do menor infrator. É a legislação criminal de maneira geral. Hermética no texto, frouxa na aplicação. Severa no papel, condescendente na prática. Uma contradição que o crime conhece bem e sabe explorar melhor do que qualquer advogado.

Não por acaso o assunto voltou com força. É ano eleitoral, e segurança pública é um dos maiores problemas do país, o que todo político sabe e nenhum resolve. Na quarta-feira, 10 de junho, a CCJ da Câmara aprovou o projeto que reduz a maioridade penal de dezoito para dezesseis anos para crimes graves. A maioria da população apoia. E quem convive de perto com essa criminalidade, as classes que moram onde o Estado não chega, apoia com uma urgência que não é ideológica. É sobrevivência.

Tive a oportunidade, anos atrás, de entrevistar menores em casas de correção. Eram meninos. A idade estava no rosto, nos ossos, na voz que ainda mudava. Mas havia algo que não estava mais lá. No fundo do olho de alguns deles, onde deveria haver a inquietação natural da idade, havia outra coisa. Um olhar sem brilho. Sem empatia. Por vezes sem remorso. Não era maldade no sentido adulto da palavra. Era ausência. Como se uma parte daquilo que faz alguém reconhecer o outro como humano tivesse sido apagada antes do tempo. Não me esqueci daqueles olhos. E não consigo olhar para esse debate sem me lembrar deles.

Países como Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e Japão encontraram formas de responsabilizar penalmente jovens por crimes graves sem abandonar a perspectiva de recuperação. Não é solução perfeita. Solução perfeita não existe quando o problema começou muito antes do crime.

Mas há uma pergunta que não consigo afastar desde aquelas entrevistas. Quando um menino de treze anos planeja, executa e não demonstra qualquer perturbação diante de um homicídio, em que momento exatamente decidimos que ele ainda precisa ser tratado apenas como vítima do sistema? Ele é vítima. Sem dúvida. Mas a pessoa que ele matou também era.

Calças curtas eram o sinal de que a infância ainda estava ali, precisando de proteção. Quando a infância vai embora antes do tempo, e vai de um jeito que não tem volta, o sinal desaparece junto. E a gente fica sem saber muito bem o que fazer com o que sobrou.

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