O dia em que o Brasil nomeou Lampião com um papel de mentira

Vou lhe contar uma história que aconteceu em Juazeiro do Norte, no Ceará

O dia em que o Brasil nomeou Lampião com um papel de mentira
O dia em que o Brasil nomeou Lampião com um papel de mentira

Por João Zisman - 14/06/2026 11:21:16 | Foto: Por João Zisman

Em março de 1926, o governo federal teve uma ideia que pareceu genial: contratar Lampião para combater a Coluna Prestes.

O deputado Floro Bartolomeu fez o convite, prometeu dinheiro, armas e uma patente de capitão.

Lampião topou.

Entrou em Juazeiro do Norte com 49 cangaceiros armados desfilando pelas ruas. O povo parou tudo para ver.

O Padre Cícero, então com 82 anos, foi recebê-lo.

Os cangaceiros se ajoelharam. Inclusive Lampião.

O cangaceiro mais temido do Brasil também era profundamente religioso.

Padre Cícero tentou convencê-lo a abandonar o cangaço.

Lampião ouviu com respeito.

Mas não tinha vindo para sermão.

Tinha vindo buscar o que lhe haviam prometido.

E foi aí que o Brasil apareceu.

Floro Bartolomeu, o deputado que havia prometido tudo, estava doente no Rio de Janeiro e morreu exatamente naqueles dias.

Não havia oficial do Exército em Juazeiro para assinar a patente.

Não havia militar.

Não havia autoridade.

Não havia ninguém do governo.

Havia um agrônomo.

Pedro de Albuquerque Uchoa, funcionário federal ligado ao Ministério da Agricultura, sentou-se à mesa e redigiu o documento nomeando Lampião capitão.

O papel não tinha valor legal nenhum.

Mas tinha cara de documento oficial.

Lampião ficou quatro dias na cidade, deu entrevistas, tirou fotografias e partiu com a patente no bolso.

Pouco depois descobriu que havia sido enganado.

Ficou furioso.

Mas levou consigo uma lembrança daqueles dias.

Antes de Juazeiro, assinava suas cartas como "Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião".

Depois, passou a assinar "Capitão Lampião".

O título inventado por um agrônomo numa tarde de março passou a acompanhá-lo até a morte.

A promessa feita por quem não podia cumprir.

O compromisso assumido por quem desapareceu antes de entregar.

O documento oficial assinado por quem não tinha autoridade para fazê-lo.

E um homem que saiu convencido de que havia recebido algo valioso, sem perceber que carregava apenas um papel que valia menos do que parecia.

Cem anos se passaram.

Mudaram os personagens.

Mas o Brasil continua produzindo quem promete o que não pode entregar, quem assina o que não tem poder para assinar e quem sai feliz com um papel que vale menos do que aparenta.

Por alguma razão, a cena nunca envelheceu.

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