A opinião do colunista de política nacional João Zisman: O tempo das definições

Durante meses, a política do Distrito Federal viveu da expectativa

A opinião do colunista de política nacional João Zisman: O tempo das definições
A opinião do colunista de política nacional João Zisman: O tempo das definições

Por João Zisman - 20/07/2026 07:57:16 | Foto: Marcos Carrieri/ANBA

Durante meses, a política do Distrito Federal viveu da expectativa. Cada pesquisa produzia uma nova interpretação, cada fotografia alimentava especulações sobre alianças e cada conversa de bastidor parecia suficiente para antecipar um cenário que, na prática, permanecia incompleto. A abertura do período das convenções partidárias modifica essa lógica porque inaugura o momento em que as hipóteses começam a dar lugar às decisões.

A coincidência com a divulgação da nova pesquisa Paraná Pesquisas não deixa de ser simbólica. O levantamento chega exatamente quando partidos e lideranças deixam de discutir possibilidades abstratas para enfrentar escolhas concretas. É uma diferença sutil, mas politicamente decisiva. Até aqui, as pesquisas mediam tendências. A partir de agora, passam também a influenciar negociações, fortalecer determinadas posições e reduzir a margem de manobra de quem ainda apostava em cenários alternativos.

A liderança de Celina Leão ganha relevância justamente por esse motivo. Ela chega ao início das convenções ocupando a dianteira e isso amplia naturalmente sua capacidade de articulação dentro da base governista. Não porque a eleição esteja definida, mas porque, em política, quem lidera negocia em condições mais favoráveis. Ao mesmo tempo, a permanência de José Roberto Arruda em um patamar eleitoral expressivo demonstra que a oposição continua dispondo de um ativo importante para construir seu projeto e organizar sua estratégia para os próximos meses.

O mesmo raciocínio alcança a disputa pelo Senado. A vantagem de Leila do Vôlei e Michelle Bolsonaro não elimina a competitividade dos demais nomes nem encerra a discussão sobre a composição das chapas. Ao contrário. A existência de duas vagas torna a engenharia política ainda mais complexa e faz das convenções um espaço decisivo para definir quem efetivamente chegará à campanha em condições competitivas.

Mas seria um equívoco imaginar que o início desse novo tempo político desloca a administração pública para um plano secundário. O noticiário desta segunda-feira mostra exatamente o contrário. Enquanto partidos reorganizam suas estratégias, as agências do trabalhador oferecem mais de seiscentas vagas de emprego, o governo mantém a rotina de manutenção da infraestrutura elétrica, a fiscalização aponta problemas persistentes um ano após a concessão do estacionamento da Rodoviária do Plano Piloto e a Justiça Eleitoral abre o período para solicitação do voto em trânsito. Nenhum desses assuntos desaparecerá da agenda porque começaram as convenções. Pelo contrário, tendem a ganhar ainda mais significado.

É justamente nesse ponto que a política muda de natureza. Até agora, governo e sucessão caminhavam em trilhas paralelas. A partir desta semana, elas passam a se cruzar diariamente. Cada obra, cada serviço público, cada indicador econômico e cada decisão administrativa deixa de produzir apenas efeitos sobre a vida da população. Passa também a produzir consequências eleitorais. Não porque os governos passem a governar pensando exclusivamente na eleição, mas porque o eleitor começa a observar a administração sob a perspectiva da escolha que fará em outubro.

Talvez seja essa a principal característica da etapa que se inicia. O Distrito Federal não ingressa apenas no calendário formal das convenções. Entra, sobretudo, no tempo das definições. É quando partidos deixam de administrar expectativas para assumir compromissos, quando candidaturas deixam de ser cogitações para se transformar em projetos efetivos e quando a política passa a conviver, de maneira inevitável, com a cobrança permanente por resultados concretos na gestão da cidade.

Esse é o verdadeiro significado da segunda-feira. Não foi a pesquisa, nem as convenções, tampouco qualquer fato isolado. O que mudou foi a natureza da disputa. Daqui em diante, a sucessão deixará de ser conduzida principalmente pelos bastidores e passará a ser julgada, todos os dias, pela capacidade de cada grupo político responder às demandas reais de uma cidade que continua funcionando muito além do calendário eleitoral.

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