A opinião pessoal do colunista João Zisman: O governo também precisa escolher

Num cenário de recursos finitos, governar é decidir quem espera e quem recebe prioridade

A opinião pessoal do colunista João Zisman: O governo também precisa escolher
A opinião pessoal do colunista João Zisman: O governo também precisa escolher

Por João Zisman - 17/07/2026 09:27:41 | Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

A notícia do dia não é o BRB, a gripe ou o IPTU isoladamente. É o que elas revelam quando são colocadas lado a lado.

Enquanto a rede pública enfrenta o aumento das síndromes respiratórias, o governo prepara o orçamento do próximo ano, mantém investimentos, executa contratos, responde a disputas judiciais envolvendo o banco público e continua financiando dezenas de políticas públicas simultaneamente. Cada uma dessas decisões disputa o mesmo recurso: dinheiro.

A política costuma transformar o orçamento numa peça técnica. Na prática, ele é o documento mais político de qualquer governo. É ali que deixam de existir discursos genéricos sobre prioridades e passam a existir números. Quando um programa recebe mais recursos, outro inevitavelmente deixa de receber na mesma proporção. Quando uma obra avança, outra aguarda. Quando uma área é fortalecida, outra aprende a conviver com a escassez.

Por isso, a elaboração da Lei Orçamentária talvez seja muito mais importante para o futuro do Distrito Federal do que parte da movimentação eleitoral que domina os bastidores. Candidaturas mudam. Alianças se reorganizam. Pesquisas variam. O orçamento, entretanto, determina durante doze meses onde haverá investimento, contratação, manutenção e capacidade de resposta do Estado.

A pressão provocada pelo crescimento das doenças respiratórias é um bom exemplo. Não basta reconhecer o problema. É preciso deslocar recursos para ampliar atendimento, comprar insumos, reforçar equipes e sustentar campanhas de vacinação. Cada decisão dessa natureza produz efeitos sobre outras áreas igualmente legítimas.

Esse é o verdadeiro teste da administração pública. Governar nunca significou fazer tudo ao mesmo tempo. Significa escolher, justificar a escolha e assumir suas consequências.

Em ano eleitoral essa realidade fica ainda mais evidente. Crescem as demandas por obras, programas, inaugurações e anúncios. A disponibilidade financeira, porém, continua obedecendo aos mesmos limites fiscais. A matemática do orçamento não muda porque a política acelerou.

Talvez por isso o debate público frequentemente olhe para o lugar errado. Discute-se quem será candidato, quem apoiará quem, quem ganhou ou perdeu espaço nas negociações. Muito menos atenção recebe a pergunta que realmente moldará o cotidiano da população no próximo ano: quais políticas públicas terão prioridade quando o orçamento finalmente estiver fechado?

É nesse documento, muito mais do que nos palanques, que o governo revela aquilo que considera verdadeiramente essencial.

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