A opinião pessoal de João Zisman: Um voto que diz muito

Afinal, um parlamentar não é eleito para descobrir de que lado está a maioria e correr para acompanhá-la, embora essa seja uma prática bastante conhecida no Congresso

A opinião pessoal de João Zisman: Um voto que diz muito
A opinião pessoal de João Zisman: Um voto que diz muito

Por João Zisman - 16/10/2026 19:40:42 | Foto:

A aprovação do fim da escala 6×1 no Senado foi uma demonstração de habilidade política de Davi Alcolumbre e do governo Lula, que conseguiram construir um entendimento capaz de reunir praticamente todo o plenário em torno de uma proposta que, até pouco tempo atrás, provocava resistências consideráveis. Foram 75 votos favoráveis e apenas um contrário, num momento em que a proximidade do segundo turno presidencial também ajudou a tornar a mudança mais atraente para parlamentares de diferentes partidos.

Mas, olhando para o resultado, o que mais me chamou a atenção foi justamente aquele único voto contrário, dado pelo senador Hamilton Mourão, general da reserva e ex-vice-presidente da República, que resolveu manter sua posição mesmo sabendo que ficaria sozinho. E não é necessário concordar com ele, muito menos considerar que sua avaliação sobre a jornada de trabalho esteja correta, para reconhecer que há alguma coisa importante nesse comportamento.

Afinal, um parlamentar não é eleito para descobrir de que lado está a maioria e correr para acompanhá-la, embora essa seja uma prática bastante conhecida no Congresso. Recebe votos para representar pessoas, defender ideias, exercer seu próprio julgamento e, principalmente, assumir a responsabilidade pelas decisões que toma. Isso vale quando concorda com todos e vale ainda mais quando precisa explicar por que pensa diferente, sobretudo diante de uma questão tão sensível e popular quanto a redução da jornada de trabalho.

Também seria um equívoco imaginar que os outros 75 senadores votaram por conveniência ou que Mourão tenha alguma superioridade moral por ter ficado sozinho. A maioria pode estar absolutamente convencida de suas razões, assim como a minoria pode simplesmente estar errada. Aliás, mudar de opinião diante de argumentos consistentes é sinal de inteligência, não de fraqueza. O problema começa quando a convicção passa a ser substituída pelo cálculo de popularidade, pelo receio de contrariar a bancada ou pela preocupação com o barulho que uma decisão pode provocar nas redes sociais.

É por isso que considero o episódio interessante, muito além da figura de Mourão ou da própria discussão sobre a escala 6×1. Uma democracia precisa de parlamentares que saibam construir maiorias, negociar e encontrar entendimentos, mas também precisa daqueles que tenham liberdade para discordar, sem que isso seja tratado como uma afronta ou uma espécie de traição.

Talvez a política brasileira melhorasse bastante se esse comportamento fosse mais comum, não porque precisemos de gente votando contra apenas para demonstrar coragem, mas porque um mandato deveria ser exercido com independência, coerência e responsabilidade perante o eleitor. Os 75 votos aprovaram uma mudança importante para o país, enquanto o único voto contrário nos oferece uma reflexão igualmente necessária sobre a prática parlamentar. No Congresso, acompanhar a maioria pode ser uma boa decisão, mas jamais deveria ser uma obrigação de conveniência.

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