São diferenças grandes e, sobretudo, aparecem antes de o entrevistador oferecer uma relação de candidatos
Por João Zisman - 26/08/2026 10:01:21 | Foto: Divulgação João Zisman
Pesquisa eleitoral continua sendo o instrumento mais eficiente de que dispomos para saber o que pensa um eleitorado que só se manifestará de verdade na urna. O problema começa quando a precisão estatística do método é confundida com uma capacidade de antecipação que nenhuma pesquisa reivindica para si. Os números divulgados nas últimas semanas no Paraná e no Distrito Federal oferecem uma oportunidade particularmente interessante para observar essa diferença.
No Paraná, levantamentos realizados praticamente no mesmo ambiente eleitoral colocaram Sandro Alex entre 15% e 24,8%. A distância chama atenção, mas seria precipitado concluir que um instituto acertou e outro errou. Quando se entra na metodologia, descobre-se que nem todos fizeram exatamente a mesma pergunta, da mesma maneira e para amostras construídas segundo os mesmos procedimentos.
O caso do IRG é exemplar. O instituto encontrou Sandro com 24,8%, mas apresentou ao entrevistado as chapas, associando seu nome ao de Rafael Greca. A Quaest, que encontrou 15%, apresentou os candidatos ao governo. Não há como calcular quanto Greca acrescentou ao resultado do IRG, mas é possível estabelecer uma diferença objetiva: 24,8% para Sandro Alex e Rafael Greca não medem rigorosamente a mesma coisa que 15% para Sandro Alex.
Quando se procura uma comparação metodologicamente mais próxima, aparece uma surpresa. Paraná Pesquisas e Quaest fizeram entrevistas presenciais e encontraram Sandro praticamente no mesmo lugar: 16,5% e 15%. Requião Filho também variou pouco, de 23,4% para 21%. Quem se movimentou fortemente entre os dois levantamentos foi Sergio Moro, de 46,1% para 37%.
A discrepância existe, portanto, mas não pertence a um candidato.
Ela reaparece de maneira ainda mais interessante no Distrito Federal. Datafolha realizou seu levantamento entre 18 e 21 de agosto e encontrou Celina Leão com 30%, José Roberto Arruda com 28% e Leandro Grass com 11%. A Quaest iniciou seu campo justamente no dia 21 e terminou no dia 24: Celina apareceu com 34%, Arruda com 20% e Grass com 13%.
É difícil atribuir oito pontos de diferença para Arruda a uma transformação política ocorrida entre uma pesquisa e outra quando os períodos de coleta praticamente se encontram. Isso não torna um dos resultados inválido, mas mostra que existe alguma coisa entre o eleitor entrevistado e o percentual publicado que precisa ser considerada antes que a tabela seja transformada em diagnóstico definitivo da eleição.
A intenção espontânea oferece uma pista particularmente reveladora.
No Paraná, aproximadamente 60% dos entrevistados do IRG e do Paraná Pesquisas não conseguiram indicar espontaneamente um candidato. Na Quaest, foram 73%. No Distrito Federal, o Datafolha encontrou 49% de indefinição espontânea; a Quaest, 63%.
São diferenças grandes e, sobretudo, aparecem antes de o entrevistador oferecer uma relação de candidatos.
Existe uma distância considerável entre o eleitor que chega à entrevista sabendo em quem pretende votar e aquele que, diante da pergunta espontânea, não apresenta candidato, mas escolhe uma alternativa depois que recebe uma lista de nomes. No Distrito Federal isso fica particularmente visível. Na Quaest, Celina Leão tinha 15% espontaneamente e passou para 34% na estimulada. Arruda foi de 8% para 20%; Grass, de 7% para 13%. No Datafolha, Celina saiu de 21% para 30%, Arruda de 12% para 28% e Grass de 6% para 11%.
Não são votos criados pelo instituto. São preferências que aparecem quando o eleitor é colocado diante das alternativas disponíveis. Quanto maior esse contingente, mais relevante se torna compreender como cada levantamento seleciona seus entrevistados, onde os encontra, como formula e ordena as perguntas, quais informações apresenta e como pondera posteriormente as respostas.
É nesse território que aparecem conceitos conhecidos da pesquisa de opinião, como mode effect, quando diferentes formas de abordagem podem produzir resultados distintos, e house effect, expressão utilizada para descrever tendências sistemáticas associadas aos procedimentos adotados por determinado instituto. Nenhum deles é sinônimo de fraude ou manipulação. Podem ser consequência das escolhas metodológicas que cada empresa faz para representar milhões de eleitores a partir de algumas centenas ou milhares de entrevistas.
Os dados disponíveis tampouco oferecem sustentação para falar em erro de tabulação ou amostra dirigida. Permitem, entretanto, uma conclusão menos espetacular e mais relevante: há mais incerteza nas eleições do Paraná e do Distrito Federal do que alguns percentuais isolados fazem parecer.
Isso vale para quem está atrás, mas talvez devesse interessar ainda mais a quem está na frente.
Uma liderança encontrada por diferentes institutos possui significado político e, quando se repete, ganha consistência. O que não se pode fazer é acrescentar ao número aquilo que ele não mediu. Pesquisa de intenção de voto não mede capacidade futura de crescimento, transferência integral de apoio, efeitos da campanha que ainda acontecerão nem decisão definitiva de quem precisou receber uma lista para escolher um candidato.
Também não existe consolo estatístico automático para quem aparece mal. Quinze continuam sendo quinze, vinte continuam sendo vinte, e nenhuma discussão metodológica transforma o terceiro colocado em segundo. O que ela impede é que se confunda posição momentânea com destino eleitoral.
Talvez esteja aí o aspecto mais curioso das pesquisas deste agosto. Enquanto campanhas e torcidas discutem quem subiu ou caiu dois pontos, os próprios levantamentos mostram que metade, 60% e, em determinados casos, mais de 70% dos entrevistados ainda não conseguem dizer espontaneamente em quem pretendem votar.
É muita gente para eleições que, em algumas manchetes e discursos, já começam a parecer decididas.
Pesquisa continua sendo o melhor instrumento disponível para medir uma eleição antes da urna, e seus resultados devem ser levados a sério inclusive quando contrariam expectativas. Paraná e Distrito Federal estão oferecendo neste agosto uma advertência bastante concreta: há fundamento para reconhecer quem está na frente e quem está atrás. O que ainda parece prematuro, diante de tamanha indefinição, é distribuir faixas de campeão ou atestados de óbito eleitoral.
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