A opinião pessoal do cientista político João Zisman: Bilhões assustam. Minutos irritam 

A crise do BRB desafia as contas do DF, mas uma eventual greve do Metrô lembra que o desgaste político também nasce no relógio do eleitor

A opinião pessoal do cientista político João Zisman: Bilhões assustam. Minutos irritam 
A opinião pessoal do cientista político João Zisman: Bilhões assustam. Minutos irritam 

Por João Zisman - 31/08/2026 09:08:25 | Foto: Divulgação

O BRB pode ter bilhões de razões para preocupar o Distrito Federal. Para entender a dimensão da crise, porém, o cidadão precisa atravessar uma pequena enciclopédia de capitalização, depósitos judiciais, Banco Master, decisões do Supremo e engenharia financeira. Se o Metrô parar nesta terça-feira, a explicação será bem mais simples: basta chegar à estação.

Essa diferença não torna o BRB menos grave. Torna o Metrô mais próximo.

A política tem dessas perversidades. O tamanho financeiro de um problema não determina automaticamente seu tamanho eleitoral, porque o cidadão não experimenta uma crise bancária da mesma maneira que experimenta quarenta minutos adicionais para chegar ao trabalho. Uma ameaça o patrimônio público; a outra mexe imediatamente com a rotina, o humor e a paciência.

Até aqui, a crise do BRB ocupou manchetes, produziu decisões judiciais, movimentou governo e oposição e colocou cifras gigantescas na conversa. Ainda assim, não há sinal de que tenha provocado um terremoto eleitoral proporcional à sua dimensão. Talvez porque bilhões impressionem, mas permaneçam abstratos enquanto não encontram o bolso ou a vida cotidiana.

Uma catraca fechada dispensa tradução.

Se a greve do Metrô ocorrer, o problema ganhará pernas. Vai aparecer no ônibus mais cheio, no trânsito pior, no atraso para o trabalho e na mensagem enviada para explicar por que alguém não chegou no horário. De repente, aquilo que poderia ser apenas uma negociação trabalhista passa a ocupar milhares de pequenas rotinas ao mesmo tempo.

Para Celina Leão, esse é um risco diferente daquele produzido pelo BRB. Quem governa durante uma campanha pode escolher o que colocar na propaganda, mas não escolhe todos os assuntos que entram nela. Quando um serviço público falha, a realidade compra seu próprio horário eleitoral — e não pede autorização ao marqueteiro.

A oposição também não ganha passagem gratuita. Explorar uma paralisação é fácil; responder como resolver a falta de pessoal, quanto custa contratar e onde encontrar dinheiro obriga o adversário a abandonar por alguns minutos a confortável posição de comentarista do governo.

Talvez esteja aí o aspecto mais interessante dessa coincidência entre BRB, Metrô e campanha. Os bilhões testam a capacidade dos candidatos de explicar problemas complexos. A greve, se acontecer, testará a capacidade de responder ao que o eleitor consegue entender sem ajuda de ninguém.

Eleições não são decididas apenas pelas grandes crises que frequentam manchetes. Também acumulam filas, atrasos, consultas que não chegam, ônibus lotados e serviços que falham justamente quando alguém precisa deles.

O BRB continuará exigindo respostas porque bilhões não desaparecem quando o assunto deixa a primeira página. Mas, na política, existe uma matemática menos sofisticada e muitas vezes mais cruel: bilhões assustam; minutos irritam. E eleitor irritado não precisa de planilha para saber por quê.

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