A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: O Santa que mora em mim

Eu saí do Recife, o Recife nunca saiu de mim

A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: O Santa que mora em mim
A opinião pessoal do cientista de política nacional João Zisman: O Santa que mora em mim

Por João Zisman - 21/09/2026 07:22:32 | Foto: Divulgação João Zisman

Eu não posso contar com intimidade todas as dores que o Santa Cruz atravessou nos últimos anos. Já faz quase 35 anos que não moro no Recife e fingir que acompanhei cada queda, cada jogo e cada desarranjo seria pose. Mas acontece uma coisa curiosa com quem vai embora: eu saí do Recife, o Recife nunca saiu de mim.

E dentro desse Recife que carrego está o Santa Cruz.

O meu Santa é grande. Foi o Santa que conheci moleque, depois adolescente, olhando para aquelas três cores como quem olhava para uma coisa imensa. Givanildo, Ramon, Nunes, Wilson Carrasco, Betinho, Luciano, Birigui, Zé do Carmo, Ricardo Rocha... Calma, não me cobrem posição, esquema tático nem confiram se todos jogaram juntos. Não jogaram. Essa não é a escalação de um time. É a minha seleção da memória.

E memória de torcedor não respeita calendário.

Ela mistura épocas, jogos, arquibancadas, nomes que o tempo não conseguiu apagar e aquela sensação maravilhosa de que o Santa podia entrar em campo contra qualquer um. Era a Cobra Coral, era o encarnado, preto e branco, era o Mundão do Arruda e era, sobretudo, uma maneira muito pernambucana de acreditar que o nosso tamanho não precisava da autorização de ninguém.

Por isso esse Santa que agora se aproxima outra vez da Série B me alcança de tão longe.

Não acompanhei de perto toda a travessia, mas sei reconhecer o que ela significa. Sei o que é olhar para a camisa e encontrar nela uma parte da infância, do Recife, dos domingos, das pessoas e de um tempo que não volta. Talvez seja por isso que futebol consiga fazer uma coisa que pouca coisa na vida consegue: devolver por alguns minutos o lugar de onde viemos.

A taça da Série C ainda está aí para ser buscada, e que seja. Tricolor também tem direito de querer mais. Mas há alguma coisa acontecendo que campeonato nenhum explica sozinho. O Santa está se levantando outra vez e, junto com ele, se levanta aquele orgulho danado de dizer: eu sou Santa Cruz.

Ou, melhor ainda, deixar Sebastião Rosendo dizer por mim, como escreveu em 1942: “Eu sou Santa Cruz de corpo e alma”. E aí a memória completa quase sozinha: serei sempre de coração. Quando a cobrinha entra no gramado, o arrepio volta.

Quase 35 anos longe do Recife.

E aí vem a Cobra Coral, apronta uma dessas e me lembra que distância é uma invenção da geografia.

Porque o Recife continua aqui.

E o Santa também.

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