A opinião pessoal do colunista de política nacional João Zisman: Um quarto das urnas

Os brasileiros com mais de 60 anos já representam 23,6% do eleitorado. Mais do que um dado demográfico, esse contingente se transformou numa das variáveis estratégicas das eleições brasileiras

A opinião pessoal do colunista de política nacional João Zisman: Um quarto das urnas
A opinião pessoal do colunista de política nacional João Zisman: Um quarto das urnas

Por João Zisman - 22/07/2026 10:05:31 | Foto: Ilustrativa Lula Marques /Agência Brasil

Toda eleição produz uma espécie de obsessão coletiva. Pesquisas procuram identificar o humor do eleitor, campanhas segmentam mensagens para diferentes públicos e analistas tentam descobrir qual grupo social poderá decidir a disputa. Jovens, mulheres, evangélicos, empresários, servidores públicos, moradores das periferias. Todos acabam ocupando, em algum momento, o centro das atenções.

Enquanto isso, uma transformação silenciosa acontece diante dos olhos de todos.

Os brasileiros com mais de 60 anos já representam 23,6% do eleitorado apto a votar nas eleições de 2026. São 37,4 milhões de pessoas. Em apenas quatro anos, esse contingente cresceu em aproximadamente 4,5 milhões de eleitores. Não se trata mais de um segmento específico. É praticamente um quarto das urnas brasileiras.

O dado divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral é, antes de tudo, um retrato do envelhecimento da população. Mas limitar a interpretação à demografia significa enxergar apenas parte do fenômeno. A política mudou antes mesmo que muitas campanhas percebessem.

Durante décadas, a idade apareceu como uma informação secundária nas estratégias eleitorais. Os partidos preferiam dividir o eleitorado por renda, religião, escolaridade, gênero ou região. Fazia sentido. Esses recortes continuam fundamentais. O problema é que a idade deixou de ser apenas uma característica estatística para se transformar numa variável política.

Nenhuma candidatura competitiva pode ignorar um grupo que reúne quase um quarto dos eleitores do país. Menos ainda quando esse grupo carrega uma característica difícil de medir nas pesquisas: experiência.

Quem hoje ultrapassou os 60 anos viveu a hiperinflação, acompanhou planos econômicos que fracassaram, presenciou o nascimento do Plano Real, atravessou sucessivas crises, alternâncias de poder e mudanças profundas na sociedade brasileira. Isso não significa que vote de forma homogênea nem que exista um "voto da terceira idade". Significa apenas que esse eleitor costuma interpretar promessas e discursos à luz de uma memória que poucas gerações possuem.

Existe outro aspecto que as campanhas frequentemente subestimam.

Em milhões de famílias brasileiras, quem passou dos 60 anos deixou há muito tempo de ocupar apenas a condição de aposentado. Continua trabalhando, ajuda no orçamento doméstico, sustenta filhos e netos em momentos de dificuldade e, muitas vezes, representa a renda mais estável da casa. Não é por acaso que estudos do IBGE mostram a importância crescente das aposentadorias e pensões na composição da renda familiar, especialmente entre os domicílios de menor renda.

Essa posição produz um efeito político que nenhuma estatística consegue medir com precisão. O voto continua individual e intransferível. Mas a influência raramente termina na cabine de votação. Quem participa das decisões da família também participa das conversas sobre inflação, segurança pública, saúde, educação e custo de vida. Não escolhe pelos outros, mas ajuda a formar o ambiente em que muitas escolhas são feitas.

É justamente aí que esse eleitor deixa de ser apenas um número.

O fenômeno também não se distribui igualmente pelo território nacional. O Rio Grande do Sul já possui 29,3% de eleitores acima dos 60 anos. No Rio de Janeiro, esse percentual chega a 28%. Minas Gerais registra 26%. São Paulo, 24,6%. O Paraná alcança 24,5%, acima da média nacional.

No Distrito Federal, os brasileiros com mais de 60 anos representam 20,1% do eleitorado. Na direção oposta aparecem estados mais jovens, como Amapá, Amazonas e Roraima, todos com percentuais próximos de 15%.

Essas diferenças ajudam a explicar por que uma mesma campanha dificilmente conseguirá falar da mesma maneira para todo o país. O envelhecimento eleitoral avança em velocidades distintas e altera prioridades regionais. Onde a participação dos brasileiros com mais de 60 anos é maior, temas como estabilidade econômica, segurança, saúde, previdência e qualidade dos serviços públicos tendem a ganhar ainda mais relevância. Não porque esses assuntos interessem apenas aos mais velhos, mas porque fazem parte da experiência acumulada desse eleitor.

Existe ainda um detalhe frequentemente ignorado. Entre 60 e 69 anos, o voto continua obrigatório e o comparecimento às urnas permanece acima da média nacional. Depois dos 70 anos, quando o voto passa a ser facultativo, a participação naturalmente diminui, mas continua suficiente para influenciar disputas equilibradas. Isso significa que esse contingente não impressiona apenas pelo tamanho. Também chama atenção pela capacidade efetiva de participar do processo eleitoral.

Seria um equívoco concluir que esse eleitor decidirá sozinho as eleições de 2026. Nenhum segmento possui essa capacidade. O Brasil continua complexo demais para permitir explicações tão simples. Renda, escolaridade, religião, região, gênero e avaliação dos governos continuarão influenciando o comportamento das urnas.

Mas ignorar esse movimento talvez seja um erro ainda maior.

A política costuma voltar os olhos para aquilo que faz mais barulho. As redes sociais produzem a impressão de que toda eleição é decidida pela velocidade das informações ou pela capacidade de mobilizar os mais jovens. Essa continuará sendo uma parte importante da disputa. Só não é mais a única.

Enquanto o debate se concentra nos algoritmos, um quarto das urnas brasileiras amadureceu, acumulou experiência, ganhou peso demográfico e ampliou sua presença dentro das famílias. Talvez a grande novidade desta eleição não seja a forma como os brasileiros mais jovens passaram a votar. Talvez seja a importância que os brasileiros com mais de 60 anos conquistaram sem fazer alarde.

As campanhas que compreenderem essa mudança estarão olhando para o eleitorado que existe. As que insistirem em disputar apenas o eleitorado que imaginam encontrar poderão descobrir tarde demais que o Brasil mudou mais depressa do que suas estratégias.

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