Brasil chega à reta final da eleição sob pressão de dentro e de fora

A três dias do segundo turno, indefinição nas urnas convive com tensão fiscal, disputa institucional e um cenário internacional igualmente instável

Brasil chega à reta final da eleição sob pressão de dentro e de fora
Brasil chega à reta final da eleição sob pressão de dentro e de fora

Por João Zisman - 22/10/2026 07:55:28 | Foto: © MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Faltam três dias para o segundo turno e talvez a palavra que melhor defina esta quinta-feira, 22 de outubro, seja incerteza. Não apenas porque Lula e Flávio Bolsonaro continuam separados por uma diferença mínima nas pesquisas, mas porque tudo ao redor da eleição parece estar se mexendo ao mesmo tempo, e depressa demais para aquela sensação confortável de que basta esperar domingo chegar e pronto, a urna resolve o resto.

A Quaest colocou Flávio com 45% e Lula com 44%, um empate técnico que, sozinho, já seria suficiente para manter qualquer campanha acordada de madrugada. Só que há um detalhe ainda mais interessante na pesquisa espontânea, quando ninguém apresenta os nomes ao eleitor: os dois aparecem com 40% e os indecisos saltam para 14%, o dobro da rodada anterior. Não parece razoável imaginar que, de uma hora para outra, milhões de brasileiros tenham esquecido quem está disputando a Presidência. Parece mais provável que exista ali uma faixa de eleitor menos convencida, mais desconfortável com a escolha ou simplesmente sem grande entusiasmo por nenhuma das duas opções.

E isso muda bastante a leitura da reta final. A campanha já não está apenas tentando arrancar voto do adversário. Está tentando fazer o próprio eleitor levantar no domingo, sair de casa e comparecer à urna. Lula precisa disso, especialmente em regiões onde a eleição local terminou no primeiro turno e não há governador, senador, prefeito ou deputado para puxar o eleitor até a seção. Flávio enfrenta o mesmo problema em redutos onde aparece na frente. Numa disputa tão apertada, quem fica em casa pode pesar quase tanto quanto quem muda de lado.

Enquanto isso, Lula e Flávio descobriram uma generosidade impressionante justamente quando faltam poucos dias para votar. Lula chega a esta reta final com reajuste e antecipação do Bolsa Família, perdão de dívidas de microempreendedores, ampliação de programas, Pé-de-Meia e a proposta de tarifa zero nos fins de semana. Flávio, que começou o segundo turno vendendo a ideia de ajuste duro e redução de despesas, passou a falar em retomada de incentivos fiscais, congelamento de dívidas, devolução de dinheiro ao consumidor e manutenção de programas sociais.

No fim das contas, a campanha conseguiu produzir uma curiosa convergência: ninguém quer parecer austero antes da urna. A austeridade, ao que tudo indica, ficou marcada para janeiro.

Só que janeiro chega. E quem vencer encontrará uma dívida pública alta, juros ainda pesados, despesas obrigatórias enormes e um orçamento muito menos generoso do que os palanques desta semana. Essa talvez seja uma das discussões mais importantes que a campanha não conseguiu fazer direito. Lula e Flávio explicam bastante o que pretendem oferecer e muito pouco aquilo que terão de escolher, cortar, adiar ou negociar quando o discurso finalmente encontrar a planilha.

A disputa institucional também entrou naquele estágio em que ninguém quer ser o primeiro a piscar. O desafio de abrir os sigilos começou como uma provocação no debate e virou uma troca de condições quase sem fim. Lula diz que abre os dele e os da família se Flávio fizer o mesmo. Flávio responde que aceita, mas quer incluir mais pessoas, mais empresas, mais anos e mais informações. Lula diz que topa. A partir daí, a brincadeira muda de tamanho.

Politicamente, funciona porque ninguém quer parecer resistente à transparência. Na prática, é evidente que não haverá tempo para destrinchar anos de informações bancárias, fiscais e telefônicas até domingo. O valor imediato está muito mais na imagem pública do que na investigação propriamente dita.

Ao mesmo tempo, o TSE quase entrou em outra confusão ao discutir restrições aos grandes canais políticos de WhatsApp nas 48 horas anteriores à votação. A ideia perdeu força depois da reação de juristas e do próprio reconhecimento de que mudar regra a essa altura poderia gerar mais insegurança do que proteção. Mas o episódio deixou uma coisa bastante clara: a Justiça Eleitoral continua tentando regular uma campanha digital que corre mais rápido do que a legislação.

WhatsApp, inteligência artificial, algoritmos, canais gigantescos, compartilhamentos em massa, tudo isso já está alguns passos à frente das normas que foram pensadas para rádio, televisão, santinho e impulsionamento tradicional. E esse problema não termina domingo.

No Distrito Federal, a eleição local continua muito mais definida do que a nacional. Celina Leão mantém vantagem larga sobre Leandro Grass, mas o caso BRB voltou a produzir ruído justamente na semana decisiva. Uma nova acusação atribuída a Daniel Vorcaro contra Ibaneis Rocha, feita num contexto de tentativa de colaboração premiada que não avançou e sem prova suficiente apresentada até aqui, recoloca o banco público no centro da conversa política local.

É o tipo de assunto que exige duas coisas ao mesmo tempo: cautela jornalística e atenção política. Não se pode transformar acusação em fato, mas também não dá para fingir que uma informação dessa natureza, aparecendo a três dias da eleição, não produz efeito.

E o mundo, convenhamos, também não está exatamente ajudando quem pretende assumir o governo brasileiro em janeiro. Estados Unidos e Rússia voltaram a conversar sobre a guerra da Ucrânia, enquanto Kiev tenta evitar virar espectadora de uma negociação feita entre grandes potências. Na França, protestos sociais, crise política e dívida pública já se misturaram numa única história, com o custo de financiamento do país subindo justamente quando a população cobra mais proteção e o governo dispõe de menos espaço para gastar. Nos Estados Unidos, Donald Trump entra nas eleições legislativas falando em força econômica, enquanto boa parte do eleitor continua reclamando do custo da vida.

São histórias diferentes, em países diferentes, mas com uma espécie de parentesco. Governos prometem, sociedades cobram, mercados fazem a conta e as instituições tentam administrar o intervalo entre expectativa e realidade.

É nesse ambiente que o Brasil vai votar no domingo. A urna vai decidir quem será presidente, claro, mas não vai apagar as contradições acumuladas durante a campanha. Talvez seja até por isso que a segunda-feira seguinte desperte tanta curiosidade. Porque, depois dos comícios, das pesquisas, das provocações e das promessas, chegará a hora em que tudo isso terá de encontrar orçamento, Congresso, instituições e um mundo que anda bem pouco disposto a facilitar a vida de qualquer governo.

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