Denunciar o fascismo é defender o que é certo, diz Javier Bardem à Folha de S.Paulo

A resposta não chega a ser uma surpresa para quem leu o livro de John D. MacDonald, no qual a trama se baseia, ou assistiu aos filmes homônimos de 1962 e 1991

Denunciar o fascismo é defender o que é certo, diz Javier Bardem à Folha de S.Paulo
Denunciar o fascismo é defender o que é certo, diz Javier Bardem à Folha de S.Paulo

Vitor Moreno-são Paulo, Sp (folhapress) - 24/10/2026 16:29:57 | Foto: Reprodução Acre in Foco

Javier Bardem, 57, parece bastante destemido na pele de Max Cady, um homem que ganha a liberdade após 17 anos preso por um crime que não cometeu na minissérie "Cabo do Medo", diponível na Apple TV. Na trama, a família Bowden é quem é aterrorizada pela presença constante dele.

Isso porque Tom Bowden (Patrick Wilson) foi o promotor do caso de Cady, enquanto Anna Bowden (Amy Adams), que era sua advogada de defesa, acabou se casando justamente com o responsável pela condenação dele. Os nervos do casal ficam à flor da pele com uma série de acontecimentos que começa a circundá-los logo após a soltura. Coincidência ou ele está envolvido?
A resposta não chega a ser uma surpresa para quem leu o livro de John D. MacDonald, no qual a trama se baseia, ou assistiu aos filmes homônimos de 1962 e 1991. Porém, as novidades da nova versão -como a tecnologia tornando até a casa dos Bowden um ambiente altamente vigiado- conseguem manter o suspense psicológico.

Enquanto os Bowden não têm um minuto de paz, será que Max Cady dorme tranquilo à noite? Do que o personagem tem medo? "Essa é uma boa pergunta", diz Bardem à reportagem. "Ele tem medo de si mesmo? Eu me fiz essa pergunta quando o interpretava."
A conclusão, no entanto, foi que o medo do ex-detento é vivido de forma diferente de quem sente empatia pelo próximo. "Ele tem todo o tempo do mundo e não tem nada a perder -ele já perdeu tudo", afirma Bardem. "É isso que o torna perigoso."
"Acho que a resposta é que ele teme trair o próprio objetivo, teme não ser capaz de concretizar sua vingança", avalia o ator. "Ele saboreia isso, adora, sabe que a vingança, quando servida fria, é ainda mais poderosa do que quando servida quente; é daí que vem o prazer do personagem."
Enquanto isso, o ator espanhol confessa que não poderia estar mais longe dessa realidade. "Seria mais fácil dizer do que eu não tenho medo", brinca, aos risos.

O maior deles? "Tenho 57 anos e dois filhos", lembra, referindo-se a Leonardo e Luna, de 15 e 13 anos respectivamente, ambos frutos do casamento com a atriz Penélope Cruz, 52. "Acho que todos os meus medos dizem respeito a eles, ao mundo que estamos deixando para eles."
"Como alguém disse, não herdamos o mundo dos nossos pais; nós o tomamos emprestado dos nossos filhos", comenta. "E o mundo que estamos deixando para eles agora está muito complicado. Então esse é o meu medo: como eles vão lidar com todas as coisas que fizemos tão errado."
Por outro lado, o ator não tem o menor medo de se posicionar politicamente. Entre outras causas, ele já se mostrou favorável à Palestina e à Ucrânia em seus conflitos com Israel e a Rússia, quando muitos nomes estabelecidos em Hollywood preferiram se manter em silêncio para não correr o risco de perder contratos e parte do público em um mundo cada vez mais polarizado.

"A vida seria mais fácil se você não irritasse ninguém, mas seria totalmente desprovida de sentido", afirma o ator, informado de que o segundo turno das eleições brasileiras estão para acontecer e que muitos artistas nacionais acabaram optando pela neutralidade.

"Se posicionar politicamente é uma coisa, mas denunciar de fato o fascismo, os genocídios, a fome, as mudanças climáticas, o aquecimento global -isso é defender o que é certo", afirma. "Portanto, não se trata de se envolver em política, e aqueles que se opõem a essas causas são perigosos e precisam ser expostos perante a sociedade. Desculpe, mas é assim que as coisas são."
Além da minissérie, Bardem também pode ser visto no filme "O Ser Querido", que faz parte da programação da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Há sessões programadas para estes sábado (24) e domingo (25).

No longa, ele vive um diretor de cinema que está realizando um filme sobre a colonização espanhola do Saara Ocidental, na África. Trata-se de outra causa que o ator já defendeu abertamente. Mais uma vez, ele prova que não tem medo de botar o dedo na ferida.

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