Petistas veem Flávio tentar sabotar relação Lula-Trump e se enfraquecer ao se proclamar presidente
Miami, Eua, São Paulo, Sp, Washington, Eua, E Brasília, Df (folhapress) - 29/10/2026 11:31:43 | Foto: © JOÉDSON ALVES/AGÊNCIA BRASIL
Após uma operação cinematográfica de fuga e despiste, o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegou com sua mulher e duas filhas a Miami nesta quarta-feira (28) e divulgou uma carta golpista em que se apresentou como "verdadeiro presidente do Brasil", apesar da derrota para Lula (PT) no domingo (25) por uma margem de 4,4 milhões de votos.
Depois de poucos minutos, ele recuou e optou por "líder do Brasil", mas manteve uma série de mentiras e distorções sobre o processo eleitoral, com postura semelhante à adotada em 2022 por seu pai, Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.
A carta de Flávio nos EUA teve ao menos quatro versões, duas publicadas pelo próprio senador em rede social e duas por aliados próximos da família Bolsonaro -uma das quais chegou a trazer um brasão com a palavra "Brazil", escrita com z.
A divulgação, associada à ala mais radical do bolsonarismo, foi acompanhada de manifestações de distanciamento de fiadores de Flávio na disputa eleitoral.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial, declarou que nem ele nem o partido podem afirmar que houve fraude nas eleições. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que "o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente".
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, pregou respeito ao resultado das urnas, afirmou que a eleição acabou e que é hora de a direita unir esforços. Partidos que apoiaram Flávio no segundo turno contra Lula também reafirmaram apoio ao pleito e ao respeito democrático.
Apesar da proximidade com o clã Bolsonaro, das críticas às eleições brasileiras e do aval para que Flávio fique nos EUA, o presidente Donald Trump declarou a jornalistas que não pretende se envolver na crise política brasileira. "Não vou comentar sobre isso, mas sei que demos a ele autorização para entrar no país, então veremos", disse. "Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, com certeza."
Na primeira e na segunda versão das divulgadas por seus aliados, Flávio se dirige "ao povo brasileiro e à comunidade internacional" e se apresenta como "o verdadeiro presidente eleito do Brasil".
Depois, Flávio publicou em sua própria conta em rede social uma versão sem a palavra "eleito", mas mantendo-se como "verdadeiro presidente". Em seguida, fez uma edição e republicou o conteúdo, adotando a expressão "líder do Brasil".
"Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula [o ministro do Supremo Cristiano Zanin] permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno", afirma o texto.
A teoria golpista, sem fundamento ou provas, repete o que dizem bolsonaristas nas redes. Flávio já havia dito no domingo que não reconhecia a vitória do rival porque a Justiça Eleitoral aceitou esticar em duas horas o horário de votação, algo que seu próprio partido também pediu em algumas localidades. Na segunda, porém, antes da fuga do Brasil, havia modulado o discurso, falando em liderar a oposição.
No período da prorrogação da votação, pouco mais de 34 mil votos foram computados, e por fim o PL desistiu de protocolar ação pedindo a nulidade do pleito.
Na carta, Flávio também agradeceu o papel dos presidentes aliados Javier Milei (Argentina) e Donald Trump (Estados Unidos) na sua rocambolesca fuga.
O argentino teria entrado com "a coragem" e o americano, com a acolhida. Nenhum dos dois reconheceu a vitória de Lula e Trump chamou a eleição de fraudulenta, embora tenha se distanciado até aqui da fuga em si, apenas dizendo que irá conceder visto aos Bolsonaros.
O roteiro, que não havia sido encampado pelo seu próprio partido, é típico do bolsonarismo e do trumpismo. O pai de Flávio dizia ter sido roubado no primeiro turno de 2018 e nunca reconheceu a derrota de 2022. Já o americano nega ter perdido para Joe Biden em 2020.
O senador chegou com a família ao Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka às 10h23, no horário de Brasília, após um voo que deixou Porto Iguaçu (Argentina) com escala em Guayaquil (Equador).
Ele foi recebido com serviço VIP na pista, fazendo um desembaraço imigratório rápido e sendo levado com escolta para algum ponto no norte da Flórida, onde se encontraria com o irmão Eduardo, que se refugia desde o ano passado no país de Trump, onde estimulou a campanha tarifária contra o Brasil.
O senador fugiu do Brasil sem cumprir a determinação judicial para entregar seus passaportes nacionais, mas viajou com o documento italiano (ele obteve a cidadania em 2023). Segundo a PF, não é considerado foragido por não haver um pedido de prisão contra ele.
A medida, pedida pela Polícia Federal por risco de fuga, foi determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes logo após o anúncio da derrota no domingo, e anunciada no dia seguinte. Aliados do senador dizem que ela é persecutória, mas há divisões acerca do apoio à fuga.
A operação é envolta em mistérios que levam a questionamentos no Brasil e nos três países envolvidos, todos governados por aliados dos Bolsonaros. Apenas o equatoriano Daniel Noboa ficou fora do agradecimento de Flávio.
A opacidade começa com o avião usado no voo, um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela empresa argentina Baires Fly -envolvida em um escândalo de corrupção que derrubou em 2025 um político próximo de Milei, aliado tão próximo dos Bolsonaros que estrelou a convenção que lançou Flávio.
Segundo o monitor Flightradar24, o aparelho chegou a Porto Iguaçu (Argentina) na noite de segunda (26), com o nome de Flávio na lista de passageiros de um voo marcado para as 22h14. A tripulação ficou retida e não houve autorização para o plano de rota, segundo autoridades locais.
Enquanto isso, no Brasil, havia versões conflitantes acerca do que ocorrera. Aliados de Flávio diziam, sob reserva, que ele já estava a caminho dos Estados Unidos e, em alguns casos, até pousado na Flórida. A rota ora era pela Argentina, ora por roteiros fantasiosos que incluíam a Venezuela ora sob domínio de Trump ou uma operação secreta da CIA.
Ao fim, como ensina em suas memórias Tony Mendez, o homem que tirou diplomatas americanos do Irã na Revolução Islâmica de 1979, retratada no vencedor do Oscar "Argo", a solução mais eficaz parece ter sido algo mais simples -mas nem por isso menos espetaculosa.
A Direção Nacional de Migrações da Argentina havia negado na manhã de terça ter recebido Flávio e família.
À noite, o órgão disse que os Bolsonaros haviam ingressado no país às 22h50. O avião deixou Porto Iguaçu às 0h21 da quarta e demorou 5h25min para chegar a Guayaquil, contornando o Brasil e evitando assim seu espaço aéreo e uma improvável interceptação.
Quatro horas depois, já com a notícia no ar, o Gulfstream decolou rumo a Miami. Alguns dos aliados do senador que haviam relatado sua ida aos EUA sustentavam que ela havia ocorrido na terça, mas o desembarque os provou ou errados, ou mal-intencionados.
A divulgação de informações falsas foi encampada principalmente por pessoas próximas a Eduardo, reforçando a suspeita de uma ação para despistar e permitir a conclusão da fuga.
Segundo a PF, não é feita checagem de documentos de brasileiros que saem por terra rumo à Argentina, mas o órgão estava mobilizado desde a manhã para rastrear uma eventual passagem de Flávio. Se havia risco de fuga e a imprensa argentina havia dito que o avião esperava o senador, o procedimento na fronteira merecerá escrutínio.
Uma TV argentina disse, por sua vez, que Flávio e família já estavam em Porto Iguaçu durante a terça, escondidos, o que leva o questionamento direto à mesa do órgão de imigração do governo Milei acerca de como foi feito o registro dos Bolsonaros.
A desinformação tomou ares de guerra na terça. O próprio Flávio havia dito na véspera, após ser intimado pela PF a entregar os passaportes, que iria dar os documentos e nunca deixar o Brasil. Seu irmão Eduardo ironizou a suspeita de fuga, dizendo que o empresário Elon Musk havia enviado "um foguete" para pegar o senador.
Nos EUA, o Departamento de Estado foi mais claro, dizendo que iria dar o visto a Flávio e família, e não o asilo político ventilado por aliados bolsonaristas. Um de seus operadores nos EUA, o jornalista Paulo Figueiredo, reclamou de "notícias falsas" -uma especialidade justamente de seu grupo político.
Ele foi o responsável pela divulgação da primeira carta golpista de Flávio, com uma piada pronta embutida: em cima do texto o primeiro brasão da República, na qual o país se chamava Estados Unidos do Brazil -com Z mesmo. Na versão final, postada pelo senador no X, voltou a ser República Federativa do Brasil.
Petistas veem Flávio tentar sabotar relação Lula-Trump e se enfraquecer ao se proclamar presidente
CAIO SPECHOTO, CATIA SEABRA, MARIANA BRASIL E AUGUSTO TENÓRIO
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliados do presidente Lula (PT) avaliam que os movimentos do senador e candidato derrotado à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nos Estados Unidos são uma armadilha para tentar sabotar a relação entre o petista e o líder do país norte-americano, Donald Trump.
O grupo político do chefe do governo brasileiro também acredita que a ida do adversário para o exterior tende a dispersar seu eleitorado. No último domingo (25), Flávio Bolsonaro teve 59,8 milhões de votos para presidente da República e perdeu para Lula por 3,6 pontos percentuais.
Flávio fugiu do Brasil na terça-feira (27), desembarcando em Miami, nos Estados Unidos, nesta quarta (28). Ele saiu do país após o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes determinar a entrega de seus passaportes por causa de uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro -o senador nega irregularidades.
Nesta quarta, o senador do PL divulgou uma carta em que se proclamava "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Depois, atualizou o documento e referiu-se a si mesmo como "líder do Brasil". Ele afirma, sem apresentar prova alguma, que a eleição brasileira foi fraudada. Na véspera, Flávio havia dito que desistiria de anular a eleição na Justiça, e declarou que não fugiria do país.
Flávio se compara, na carta, com líderes históricos que deixaram seus países. Um dos exemplos citados no documento é o do general Charles De Gaulle, que comandou a resistência francesa contra a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial a partir de Londres.
"É um ato de conspiração contra o Brasil e contra os interesses do Brasil", disse o líder do governo no Congresso Nacional, Randolfe Rodrigues (PT-AP), sobre a carta. "Creio que a própria democracia americana e até o governo do senhor Donald Trump não vão cair nessa esparrela de buscar uma briga contra uma nação", declarou ele.
"A atitude de Flávio ultrapassa limites e se constitui em traição à pátria, tentando criar instabilidade com parceiros seculares como Argentina e EUA", disse o líder do governo na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta (PT-RS).
A referência à Argentina é pelo fato de Flávio ter deixado o Brasil através do país vizinho. Ele teria cruzado a fronteira e embarcado em um avião privado de lá rumo a Miami, com escala no Equador. O presidente argentino, Javier Milei, assim como Trump, são parte do movimento internacional de direita que o bolsonarismo também integra.
Setores próximos a Lula avaliam que Flávio Bolsonaro busca provocá-lo a tomar atitudes ou dar declarações que desgastem a relação com Donald Trump. A ideia seria não reagir. O governo brasileiro tenta minimizar atritos com os americanos para lidar com problemas mais pragmáticos, como a negociação do tarifaço.
Alas do governo americano, como o Departamento de Estado, costumam pressionar a gestão petista. Lula e Trump, porém, têm uma relação pessoal descrita por ambos como boa. Na tarde desta quarta, o presidente dos Estados Unidos disse que seu governo autorizou Flávio a entrar no país, mas que não comentará a autoproclamação do senador nem se envolverá no caso.
Diversos aliados de Lula relataram à Folha a avaliação de que a fuga de Flávio Bolsonaro é benéfica para o presidente reeleito.
A análise é que o senador abandonou um patrimônio eleitoral imenso e desorganizou a oposição, que agora precisará construir uma nova opção de poder -ou seja, um nome forte e incontestável em seu campo político para disputar a próxima eleição presidencial contra o grupo de Lula.
Setores petistas acreditam ser possível até mesmo atrair para a órbita do presidente brasileiro parte do eleitorado que votou em Flávio Bolsonaro. O raciocínio, nesse caso, é que a fuga é desmoralizante e decepciona pessoas que nunca foram entusiastas do senador, mas que votaram nele apenas por não gostar de Lula.
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), por exemplo, deu uma declaração na terça-feira (27) mirando eleitores descontentes do senador bolsonarista. "Quero aqui manifestar a minha total solidariedade aos quase 60 milhões de brasileiros e brasileiras que acreditaram na candidatura do Flávio Bolsonaro", disse ele no plenário da Câmara.
Partidos de centro-esquerda e de esquerda, incluindo o PT, também divulgaram uma nota em que afirmam que a contestação do resultado "não se sustenta", lembram que o próprio PL reconheceu o resultado das urnas e declaram que Flávio Bolsonaro "fugiu do Brasil para não enfrentar a Justiça brasileira".
O senador é investigado em duas ações criminais no STF, sob suspeita de lavagem de dinheiro e outros crimes no âmbito do caso do Banco Master e dos desvios no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). A partir de fevereiro, quando deixará o mandato, ele perde o foro especial na Suprema Corte brasileira.
PT, PC do B, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT assinam o comunicado.
As siglas citam que a prorrogação do horário de votação no segundo turno, autorizada pelo ministro do STF Cristiano Zanin no domingo (25), atendeu a um pedido das duas campanhas, tanto de Flávio quanto de Lula, e que só 34.330 votos, ou 0,03% do total, foram registrados após as 17h.
Também mencionam as declarações do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Kassio Nunes Marques, reconhecendo o resultado eleitoral.
"A soberania popular se manifestou através do voto livre e universal, após dois turnos, com a eleição incontestável dos representantes do povo para Câmara dos Deputados, Senado Federal, Assembleias Legislativas e Distrital, além dos Governadores e Presidente da República", afirmam.
Além disso, os partidos repetem o mote "O Brasil não é quintal de ninguém", usado por Lula e apoiadores durante a campanha, e criticam o fato de o governo Trump ter prestado ajuda ao senador derrotado.
"O Brasil não aceita interferência estrangeira em seu processo democrático [...] Não por acaso, o candidato derrotado buscou abrigo justamente junto a Trump, que atuou abertamente para interferir em nossas eleições", diz, sem apresentar provas.
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