Kassio e Mendonça tentam se desvincular de Flávio após carta golpista e falam em perda de bom senso

Veja manifestações de autoridades e partidos políticos após carta golpista de Flávio Bolsonaro

Kassio e Mendonça tentam se desvincular de Flávio após carta golpista e falam em perda de bom senso
Kassio e Mendonça tentam se desvincular de Flávio após carta golpista e falam em perda de bom senso

Luísa Martins E Ana Pompeu-brasília, Df (folhapress) - 30/10/2026 08:27:52 | Foto: O ministro Nunes Marques, presidente do TSE, é abraçado pelo colega André Mendonça, vice-presidente. / Antônio Augusto/STF

Considerados mais próximos de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do que do presidente Lula (PT), os ministros do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Kassio Nunes Marques e André Mendonça tentam se desvincular do senador depois que ele divulgou uma carta golpista nesta quarta-feira (28).

O presidente e o vice-presidente do TSE teriam relatado em conversas com auxiliares que o candidato derrotado perdeu o bom senso. O senador inicialmente havia se autoproclamado "verdadeiro presidente do Brasil", depois reajustou o texto para "líder do Brasil", mas seguiu mentindo sobre o processo eleitoral.

Outros ministros do TSE -da ala mais alinhada a Lula (PT)- afirmaram que a carta era um movimento absurdo e merecia ser ignorada. Segundo dois dos quatro integrantes desse grupo, Flávio criou caos e adotou um tom conspiratório para difundir factoides.

Um magistrado do STF (Supremo Tribunal Federal) disse à reportagem que uma carta acompanhada de um brasão errado, com os dizeres "Estados Unidos do Brazil (sic)", não pode ser levada a sério e mostra que Flávio de fato não estava preparado para governar o país.

Na sessão plenária do TSE nesta quinta-feira (29), a primeira após a divulgação do documento pelo senador, que fugiu do Brasil após dizer que não fugiria, os ministros não mencionaram o assunto e julgaram normalmente os processos da pauta.

Na noite de quarta, após vir à tona a carta de Flávio, Kassio emitiu uma nota pública em que diz que a Justiça Eleitoral tem um compromisso "com a vontade soberana do eleitorado, que foi às urnas e legitimamente escolheu seus representantes".

O presidente do TSE não cita expressamente o candidato derrotado, mas fala que as eleições "transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais", e que o pleito foi entregue "com segurança".

Como mostrou a reportagem, Kassio conversou com colegas no TSE após anunciar oficialmente os resultados do segundo turno, com a reeleição de Lula, e garantiu que não daria vazão às queixas da campanha de Flávio, que afirmou não reconhecer a derrota.

O presidente do TSE pretende conversar com o do Supremo, Edson Fachin, para alinhar uma abordagem sobre esse tema e definir que a corte não deixe prosperar ações que questionem a validade das eleições de 2026.

A Folha de S.Paulo também mostrou que Flávio enfrenta um isolamento após a divulgação da carta golpista e de sua fuga para os Estados Unidos após uma operação de despiste, com aliados de primeira hora se distanciando do senador.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial, declarou que nem ele nem o partido podem afirmar que houve fraude nas eleições. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que "o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente".

A fuga também teria ocorrido à revelia da equipe jurídica de Flávio. A advogada Maria Claudia Bucchianeri, que o representou nas ações do TSE, já disse a um interlocutor que não vai mais ajuizar nenhum processo em nome do senador e que seu compromisso foi com a campanha, que se encerrou no dia 25.

Veja manifestações de autoridades e partidos políticos após carta golpista de Flávio Bolsonaro

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A carta golpista divulgada pelo ex-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro gerou repercussões na política brasileira. Divulgado após a fuga do senador para os Estados Unidos, o documento alegava, em versão inicial corrigida, que ele seria o "verdadeiro presidente" do país.

Diversas instituições, partidos e políticos se posicionaram após a divulgação da carta. Mesmo os aliados de Flávio e seu partido reconhecem a lisura e validade do processo eleitoral.

Sem provas, Flávio diz que houve fraude no segundo turno das eleições. O pleito foi prorrogado por duas horas, após determinação feita pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Cristiano Zanin. Após as 17h, cerca de 34 mil votos foram computados. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito no domingo (25) com uma vantagem de mais de 4 milhões de votos.

Veja abaixo as declarações:
Kassio Nunes Marques, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral)
"As Eleições 2026 transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais."
Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo
"A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente."

Jorginho Mello (PL), governador de Santa Catarina
"Às instituições brasileiras cabe promover a pacificação que o momento exige. Não é hora de aprofundar feridas, mas sim curá-las. Da minha parte, continuarei cumprindo a missão da qual jamais abrirei mão, defendendo os interesses de Santa Catarina com firmeza e credibilidade, respeitando as instituições e o resultado final das urnas."

Valdemar Costa Neto, presidente do PL
"Nós queremos tocar a vida para frente. [...] Ninguém quer ter problema, ninguém aprova essa situação que aconteceu com Flávio. [...] Flávio passou uma situação difícil, nós compreendemos, mas não aprovamos. Queremos tocar o país para frente."

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos
"Eu não vou comentar sobre isso, mas eu sei que nós autorizamos a entrada dele no país. Então, veremos."

MDB
"O MDB reafirma sua total confiança no sistema eleitoral brasileiro e, portanto, na legitimidade do resultado do pleito do último domingo."

Antonio Rueda, presidente do União Brasil
"O União Brasil reafirma que a democracia é, para o partido, um valor inegociável. Ela não depende de quem vence ou quem perde uma eleição, mas do compromisso de todos com o veredito das urnas. A eleição de 25 de outubro transcorreu com lisura e o seu resultado deve ser respeitado."

Ricardo Nunes (MDB), prefeito de São Paulo
"O TSE já definiu o novo presidente e precisamos ter serenidade diante do resultado", disse ele. "A quem ganhou, cabe governar o país para melhorar a economia e a qualidade de vida da população. Assim como cabe à oposição, que teve quase 60 milhões de votos, o papel de fiscalizar."

Rogério Marinho (PL-RN), senador e coordenador da campanha de Flávio
"É evidente que, se você faz alguma afirmação, precisa trazer provas. Eu não posso fazer essa afirmação, não tenho provas e eu acabei de dizer que [a carta] é um desabafo de alguém. Suponho que seja desabafo de alguém que está se sentindo injustiçado."

Hamilton Mourão, senador (Republicanos-RS)
"Que existe arbítrio por parte do Alexandre de Moraes [ministro do STF, que acatou pedido da Polícia Federal e determinou apreensão de passaportes de Flávio] não tenho a menor dúvida. Quanto à possibilidade de fraude [na eleição], deveria ser investigada dentro do possível. Quanto ao resto, é pura ação política (...) Golpe tem de ter apoio, e ele não existe."

Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura
"O atual momento exige serenidade e respeito ao resultado das urnas. A eleição acabou, e agora é hora de olhar para a frente e cuidar do Brasil que queremos construir. Seguiremos trabalhando e fiscalizando as ações do governo. É hora de a direita unir esforços, defender os interesses de milhões de brasileiros e manter o compromisso com o futuro do nosso país."

Aécio Neves (MG), presidente do PSDB e deputado federal
"O exercício da oposição numa democracia é tão relevante quanto o exercício dos próprios governos. E ele deve se dar em território nacional, fiscalizando os atos do governo e cobrando os compromissos por ele assumidos com a população."

Gleisi Hoffmann (PT-PR), deputada federal
"Sem provas e cheio de inquéritos por corrupção, Flávio Bolsonaro questiona resultado das urnas e se autodeclara 'presidente eleito' do 'Brazil'."

Para receber Flávio, Trump recorre a modelo de acolhida humanitária que destruiu

MAYARA PAIXÃO-MIAMI, EUA (FOLHAPRESS) - Para acolher Flávio Bolsonaro (PL) após a fuga do senador do Brasil, Donald Trump recorreu ao sistema de acolhida humanitária e refúgio que ele próprio destruiu em seu segundo mandato.

Ao desembarcar na base aérea de voos privados de Opa-locka, na Flórida (que já serviu como base para a CIA) na quarta-feira (28), Flávio recebeu a chamada permissão humanitária de entrada (o "humanitarian parole"), que conta em seu registro de ingresso. O mecanismo permite que fique no país por pelo menos um ano.

Como o próprio nome diz, a autorização é uma permissão temporária para ingressar nos Estados Unidos por motivos humanitários urgentes ou, então, por representar um benefício público significativo.

Não se trata de um visto. E com ela tampouco se ganha residência permanente, nem se tem a garantia de benefícios imigratórios futuros. É como uma solução de curto prazo. A possibilidade foi criada nos anos 1950, junto com a Lei Nacional de Migração.

Mas Trump desmantelou essa solução de curto prazo para dezenas de milhares de imigrantes. Antes o "parole" era concedido a parte dos imigrantes que chegavam à fronteira com o México e apresentavam seus casos. Eles recebiam permissão para entrar no país com a acolhida humanitária e, só depois, tinham de se apresentar a um juiz para formalizar seu pedido de asilo, ou qual fosse.

O Departamento de Segurança Interna anunciou no último dia 16 que completou o primeiro ano fiscal (de outubro de 2025 a setembro passado) sem conceder o "parole" para imigrantes na fronteira.

Mais do que isso, o presidente Trump também terminou com a acolhida humanitária que era ofertada para facilitar a entrada de cidadãos de Cuba, Haiti, Nicarágua e Venezuela, países que as administrações anteriores entendiam ser um risco para a vida de seus cidadãos, seja pela perseguição política seja pelo colapso humanitário.

Trump chegou a se referir ao "parole" na última campanha presidencial como uma forma de "liberdade condicional", insinuando que os imigrantes beneficiários seriam criminosos. Ele falava sobre Springfield, em Ohio, onde estão concentrados imigrantes do Haiti.

E esse não foi o único caso que Trump desmantelou. Caso cumpra o que alguns de seus aliados e aliados de Flávio têm dito sob reserva à imprensa e conceda asilo político ao senador, ele também recorrerá a outro mecanismo migratório que naufragou em seu governo.

O sistema de refúgio no país tem sido desmantelado. Em 2026, sob o segundo mandato de Trump, os Estados Unidos admitiram apenas 16,2 mil refugiados -o menor número desde 1975, se excluídos os anos de pandemia, 2020 e 2021, quando todas as políticas americanas de migração naturalmente foram restringidas.

Igualmente relevante é a mudança no perfil das pessoas admitidas: 99,96% deles são sul-africanos brancos, os chamados afrikaners. Sem provas, Trump já disse que as políticas da África do Sul destinadas a combater a desigualdade racial após o terror do sistema do apartheid prejudicariam a população branca daquele país.

Em anos anteriores, como 2024, a população de refugiados aceitos pelos EUA era muito mais diversa, incluindo pessoas de países da América Latina, bem como da África e da Ásia. Muitos vinham da República Democrática do Congo, da Somália, de Mianmar, da Síria e do Afeganistão. Para eles, a porta foi fechada.

Refúgio e asilo no país têm praticamente o mesmo significado, o que muda é a nomenclatura: fala-se em refúgio quando o requerente faz o pedido antes de ir aos EUA; e em asilo quando o pedido é feito já se estando em solo americano. E as ações de Trump também têm contaminado a Justiça. Se por um lado o Executivo fechou as portas para o refúgio, por outro as cortes têm negado o asilo (94% dos casos julgados em junho passado foram indeferidos).

A Flórida, destino do filho 01 de Jair Bolsonaro e sua família, é o segundo estado onde mais imigrantes brasileiros foram presos sob Trump 2 (1.177 até agosto). Em primeiro está Massachusetts (3.591).

São, em geral, pessoas ao redor de 37 anos, um pouco mais novas que o senador de 45 anos. Metade delas já foi deportada para o Brasil. Dos deportados, 21% moravam na Flórida havia mais de dez anos.

Aliados de Flávio Bolsonaro culpam ChatGPT por vaivém em versões da carta golpista

MAYARA PAIXÃO-MIAMI, EUA (FOLHAPRESS) - Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL), que fugiu para os EUA, agora culpam a inteligência artificial pelo vaivém nas versões da carta golpista divulgada pelo ex-candidato à Presidência.

No X, o jornalista Paulo Figueiredo, aliado de primeira hora de Flávio e do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, disse que Eduardo usou o ChatGPT para inserir o brasão do Brasil no documento. E que foi a ferramenta que escolheu o brasão antigo do Brasil.

Era a versão usada até 1967 na qual se lê "Estados Unidos do Brazil", com "Brasil" com "z", como se escreve na língua inglesa. "Nós achamos muito engraçado." No mesmo sentido, culpou também o uso da IA pela primeira versão divulgada do documento ser iniciada com Flávio se autodeclarando o suposto presidente eleito do Brasil.

Figueiredo afirma que havia uma versão da carta que tratava nesses termos, mas que "uma carta que expressa uma realidade tão complexa passa por várias versões, com a contribuição intelectual de mais de uma pessoa". Diz, então, que a versão final falaria em "verdadeiro líder".

Mas que, novamente, a IA teria incluído a versão anterior, com a autoproclamação fraudada. Na segunda versão do material compartilhada com a imprensa, o brasão estava corrigido para a versão "República Federativa do Brasil", a correta. Depois, o próprio Flávio compartilhou versão na qual não mais se autoproclamava eleito, mas sim "líder do Brasil".

Figueiredo diz que o termo "verdadeiro líder" "descreve com mais precisão a situação jurídica" e "carrega um valor moral".

O paradeiro de Flávio Bolsonaro é desconhecido na tarde desta quinta-feira (29). O senador chegou à Flórida, nos EUA, na manhã da quarta (28), após fugir do Brasil pela Argentina e fazer escala na cidade costeira de Guayaquil, no Equador. Depois, dirigiu-se para local desconhecido.

Seus aliados, Figueiredo incluso, haviam dito que o senador falaria com a imprensa nesta quinta-feira, em uma entrevista coletiva, o que implica fazer declarações e também receber perguntas dos jornalistas. Depois, a agenda foi cancelada. Não se sabe se Flávio ainda segue em Miami.

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