Crise no STF teve decisões conflitantes, troca de acusações e operação policial em 10 dias; veja cronologia

A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino

Crise no STF teve decisões conflitantes, troca de acusações e operação policial em 10 dias; veja cronologia
Crise no STF teve decisões conflitantes, troca de acusações e operação policial em 10 dias; veja cronologia

Brasília, Df (folhapress) - 11/09/2026 05:27:54 | Foto: Antonio Augusto/STF

GIOVANA KEBIAN-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), o ministro Edson Fachin, marcou para a próxima terça-feira (15) uma sessão plenária para analisar o relatório que aponta Alexandre de Moraes como interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o pedido de nulidade do documento feito pela PGR (Procuradoria-Geral da República).

O magistrado tomou a decisão pressionado, nos últimos dez dias, pelo aumento das tensões envolvendo decisões conflitantes dos ministros, disputa entre os integrantes da corte e uma operação policial. Leia, abaixo, a cronologia da crise.

DIA 1 - REVELAÇÃO DAS MENSAGENS DE VORCARO PARA MORAES
O clima no STF começou a esquentar no último dia 1º, após o ministro André Mendonça, relator da investigação do caso Master, retirar o sigilo de um relatório produzido pela PF. O documento revelou que Vorcaro mantinha contato com uma pessoa apontada como sendo o ministro Alexandre de Moraes.

Nas mensagens que foram recuperadas, o ex-banqueiro perguntou a Moraes, dois dias antes de ser preso, se deveria deixar o país. Os diálogos também mostram que o ministro fez edições num contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e que ele e Vorcaro se encontraram pelo menos seis vezes desde 2024.

Horas depois, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do relatório da PF. Segundo ele, Mendonça "se valeu da polícia" para "impor a investigação" de Moraes, exercendo "atividades que não lhe foram assinaladas". Gonet também é citado nas mensagens de Vorcaro, mas não comentou as citações a seu respeito.

DIA 2 - REVELAÇÃO DO ENCONTRO ENTRE MENDONÇA E VORCARO
Na quarta (2), o ICL Notícias revelou que Mendonça recebeu Vorcaro para uma conversa em março de 2025 em seu gabinete. Segundo mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro, o encontro foi articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).

"Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno", disse Ciro em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.

No mesmo dia, Mendonça confirmou que houve um recente depoimento do dono do Banco Master em seu gabinete na presença do Ministério Público e sem a Polícia Federal. A data não foi divulgada.

Mendonça afirmou que a defesa do ex-banqueiro pediu oitiva urgente por intimidações e que a presença da PF nesses casos não é obrigatória. Segundo o ministro, o encontro tratou de um processo sobre precatórios de interesse do Master e não teve Moraes como tema das conversas.

DIA 3 - MORAES PEDE A FACHIN INVESTIGAÇÃO CONTRA MENDONÇA
Em resposta à ação de Mendonça, Moraes pediu no último dia 3 ao ministro Edson Fachin, presidente do STF, a abertura de uma investigação de Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução dos casos Master e do INSS.

O pedido de investigação foi protocolado no inquérito das fake news, do qual Moraes é relator, e usou como base relatórios da PF que levantavam suspeitas sobre a atuação de Mendonça em operações. Segundo Moraes, o ministro teria agido por "motivos pessoais e políticos".

DIA 4 - FACHIN RETIRA O PEDIDO DE MORAES CONTRA MENDONÇA DO INQUÉRITO DAS FAKE NEWS
No dia seguinte, Fachin retirou o pedido de Moraes contra Mendonça do inquérito das fake news e o incorporou ao mesmo processo que já tratava do relatório sobre as mensagens.

Abriu também prazo de cinco dias úteis para a PGR se manifestar sobre a admissibilidade do pedido e outros cinco para Mendonça se defender, caso queira. Segundo o despacho, as medidas não antecipam juízo sobre o mérito.

Como resposta à crise, o presidente do STF defendeu a aprovação de um código de ética para os ministros e o fim do inquérito das fake news, aberto há sete anos.

DIA 8 - MENDONÇA AFASTA ANDREI RODRIGUES DO COMANDO DA PF
Na terça (8), Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal e afastou preventivamente o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada.

Na decisão enviada à Segunda Turma do STF, a justificativa foi a produção de um relatório interno da Polícia Federal usado por Moraes para pedir uma investigação contra o próprio Mendonça. O ministro Gilmar Mendes pediu vista (mais tempo para estudar a matéria), mas Luiz Fux e Nunes Marques anteciparam seus votos e formaram maioria pelo afastamento de Andrei.

A AGU (Advocacia-Geral da União) pediu, em caráter de urgência, que o presidente do STF suspendesse liminarmente a decisão. Fachin deu 72 horas para que Mendonça se manifestasse sobre o pedido.

DIA 9 - DINO SUSPENDE AFASTAMENTO DE ANDREI DA PF
O ministro Flávio Dino reintegrou na quarta (9) Andrei Rodrigues ao comando da PF e Leandro Almada à Inteligência do órgão. O ministro também suspendeu a decisão de Mendonça, atendendo a um pedido de Andrei na investigação sobre as suspeitas de irregularidades em emendas relacionadas à produção do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro (PL).

A decisão de Dino fez uma série de críticas à do colega de STF. "Indaga-se: uma parte pode ser juiz de si mesma e antecipar juízos de valor sobre relatórios da Polícia Federal que expressamente a mencionam?", questiona o ministro.

DIA 9 - FACHIN SUSPENDE AS DECISÕES DE MENDONÇA E DINO E ASSUME INQUÉRITO DAS FAKE NEWS
No final do dia, o presidente do STF suspendeu as decisões de André Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal, mantendo Andrei Rodrigues no cargo. Ele também tirou o ministro Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news e assumiu a investigação.

Pressionado, Fachin vinha sendo cobrado a achar uma solução para a crise que se abateu sobre o STF. Ele escreveu que uma sequência de decisões de Mendonça, Moraes e Dino criou um "quadro de conflitos e sobreposições processuais que configuram grave lesão à ordem pública e à integridade" do tribunal.

DIA 10 - DINO AUTORIZA OPERAÇÃO SOBRE FINANCIAMENTO DE 'DARK HORSE'
O ministro Flávio Dino autorizou operação contra suspeitos de participar de um esquema de desvio de recursos de emendas parlamentares para o filme "Dark Horse", sobre a vida de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal cumpriu nesta quinta (10) 49 mandados de busca e apreensão.

Dino proibiu o deputado Mário Frias (PL-SP), autor de emendas sob investigação, de sair do país. Ele é um dos alvos da operação, assim como a dona produtora do filme, Karina Gama, da Go Up Entertainment.

PRÓXIMOS CAPÍTULOS
Fachin também marcou para a próxima terça (15) uma sessão plenária para analisar o relatório que aponta o contato de Moraes com Daniel Vorcaro e o pedido de nulidade do documento feito pela Procuradoria-Geral da República.

Até lá, a investigação conduzida por Mendonça envolvendo Moraes fica suspensa. O presidente do STF também proibiu qualquer procedimento que trate de potencial apuração contra integrantes da corte e determinou que qualquer medida nesse sentido seja submetida a ele antes.

PF cumpre mandado de busca e apreensão contra Mário Frias em operação sobre 'Dark Horse'

A Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira (10) em operação sobre suspeita de desvio de recursos parlamentares para o filme "Dark Horse", sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Um dos alvos é o deputado Mário Frias (PL-SP), que é autor das emendas sob investigação e roteirista do filme. Também é cumprido mandado contra Karina Gama, da Go Up Entertainment, produtora da obra.

A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Segundo a PF, a operação intitulada Make Up tem o objetivo de "apurar suposto desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares repassadas, por meio de termo de fomento, a organização da sociedade civil".

Procurada, a defesa de Karina não se manifestou. À coluna Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, ela disse que a aplicação dos recursos foi correta. A reportagem ainda não localizou a defesa de Mário Frias.

Os mandados são cumpridos em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará e no Distrito Federal.

"As investigações apontam a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados. As tentativas de dissimular os desvios teriam se estendidos até julho deste ano", diz nota da PF.

De acordo o órgão, levantamentos financeiros identificaram movimentação de "centenas de milhões" entre as empresas que integram o esquema investigado.

A PF apura suspeita dos crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.

Além do inquérito com Dino, há outra investigação sob relatoria do ministro André Mendonça no STF.

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