União Europeia aprova acordo com Mercosul; França prepara reação

O acordo, que começou a ser negociado em 1999, mas permaneceu engavetado por longos períodos, ganhou tração no fim de 2024, com especial empenho do governo Luiz Inácio Lula da Silva

União Europeia aprova acordo com Mercosul; França prepara reação
União Europeia aprova acordo com Mercosul; França prepara reação

José Henrique Mariante-berlim, Alemanha (folhapress) - 09/01/2026 09:40:54 | Foto: Divulgação União Europeia

Países da União Europeia aprovaram nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, o acordo de livre comércio com o Mercosul, o maior do gênero no mundo, que reunirá um mercado estimado de 722 milhões de consumidores. A despeito da oposição liderada pela França, representantes dos Estados-membros deram sinal verde para a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assinar o tratado na próxima semana, no Paraguai.

Antes, porém, os votos precisam ser confirmados pelos governos dos 27 países do bloco, o que deve ocorrer nas próximas horas. A formalidade não impediu de o governo alemão de manifestar, declarando que o tratado "é um sinal importante no momento atual".

Tarifas de importação sobre 91% das mercadorias comercializadas entre os dois blocos serão eliminados. De acordo com as estimativas europeias, as exportações para o Mercosul poderão aumentar até 39% e garantir 440.000 postos de trabalho no continente.

O acordo, que começou a ser negociado em 1999, mas permaneceu engavetado por longos períodos, ganhou tração no fim de 2024, com especial empenho do governo Luiz Inácio Lula da Silva e de países europeus com pauta exportadora, como Alemanha e Espanha.

Nos últimos meses, o tratado ganhou peso geopolítico, diante das tarifas de Donald Trump e sua renovada ofensiva contra o multilateralismo. A aprovação ocorre dias depois da intervenção americana na Venezuela e de reiteradas ameaças à Groenlândia, território autônomo que faz parte do Reino da Dinamarca e, portanto, da UE.

Enquanto os embaixadores europeus davam o aval ao pacto em Bruxelas, agricultores franceses repetiam a invasão de tratores em Paris, aumentando a crise política enfrentada pelo primeiro-ministro, Sébastian Lecornu. Partidos de oposição planejam usar a aprovação do tratado, quase uma palavrão na França, para derrubar o governo e aumentar a pressão sobre Emmanuel Macron.

Na véspera, o presidente francês reiterou a oposição da França ao acordo, que havia sido bem-sucedida em dezembro, quando a angariou apoio da Itália.

Desta vez, os negociadores italianos arrancaram uma série de concessões da Comissão Europeia em troca da aprovação ao acordo: entre as principais, a antecipação de € 45 bilhões em subsídios para o setor e a flexibilização da recém-criada taxa de carbono sobre fertilizantes importados.

Sem a Itália, a França, apesar de contar com apoio de Polônia, Hungria, Irlanda e Áustria, não alcançou a minoria de bloqueio no Conselho da UE, caracterizada por ao menos quatro países, mas também pelo correspondente a 35% da população do bloco.

A França, agora, deve tentar minar o acordo no Parlamento Europeu, que até abril, segundo estimativas, precisa ratificar a versão final do documento. Um grupo de eurodeputados tenta ainda levar o tratado para apreciação do Tribunal de Justiça da UE, o que atrasaria o trâmite em anos.

Em 2024, o volume de transações entre os dois blocos chegou a € 111 bilhões. As exportações da UE são dominadas por máquinas, produtos químicos e equipamentos de transporte, enquanto as do Mercosul se concentram em produtos agrícolas, minerais, celulose e papel.

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