A opinião pessoal do cientista político João Zisman: O país entrou no Supremo Tribunal Federal

E é isso que incomoda

A opinião pessoal do cientista político João Zisman: O país entrou no Supremo Tribunal Federal
A opinião pessoal do cientista político João Zisman: O país entrou no Supremo Tribunal Federal

Por João Zisman - 22/09/2026 10:21:18 | Foto: Antonio Augusto/STF

O STF parece reproduzir em seu plenário a polarização política que se instalou no país. Pode ser impressão, pode ser que as posições antagônicas não estejam diretamente relacionadas ao lulismo versus bolsonarismo, mas que há uma evidente rachadura me parece muito mais preocupante do que a rua transpira.

É claro que ministros divergem. Ainda bem. Um Supremo em que onze pessoas pensassem igual seria provavelmente mais assustador do que este que vive discutindo consigo mesmo. O problema não está aí. O problema começa quando a divergência deixa de parecer apenas jurídica e ganha rosto, lado, companhia habitual. Quando, antes mesmo de começar uma discussão, já se arrisca quem vai votar com quem. Às vezes se erra, evidentemente. Mas já se acerta demais.

E é isso que incomoda.

A sessão de 15 de setembro talvez tenha deixado essa sensação mais exposta do que convinha. Na discussão envolvendo os casos de Alexandre de Moraes e André Mendonça, ministros se dividiram de uma maneira que, juridicamente, pode ser explicada por várias páginas. Politicamente, a imagem foi muito mais simples. De um lado, Fachin, Mendonça, Fux e Cármen Lúcia. Do outro, Gilmar Mendes, Zanin e Moraes. Dino pediu vista. Pode-se argumentar o quanto quiser sobre técnica processual, competência, conexão, prevenção e todos os termos que o Direito conhece melhor do que o cidadão comum. A fotografia, porém, ficou.

E fotografia política costuma sobreviver à legenda jurídica.

Não significa dizer que exista uma bancada de Lula e outra de Bolsonaro sentadas no Supremo. Seria simplório demais e, provavelmente, errado. Também não significa que todo voto de determinado ministro possa ser explicado pela origem de sua indicação. O tribunal é mais complexo do que isso e os próprios ministros já trocaram de lado inúmeras vezes em temas importantes. Só que alguma coisa mudou no ambiente. Os enfrentamentos estão menos contidos, certas afinidades ficaram mais visíveis e a velha solenidade, que ajudava a esconder boa parte das desavenças, já não consegue fazer todo o serviço.

Quando isso acontece, aparece uma pergunta ruim para qualquer corte: quem está com quem?

O caso de Deltan Dallagnol no TSE acabou colocando mais lenha nessa percepção. André Mendonça e Kassio Nunes Marques ficaram vencidos na decisão que manteve a suspensão da campanha. O processo tem fundamentos próprios, a discussão eleitoral tem suas regras e reduzir tudo à política seria preguiça. Só que ninguém acompanha mais essas decisões dentro de compartimentos estanques. O país anda carregando para todo lugar essa mania de separar pessoas, instituições, artistas, jornalistas, empresários, padres, jogadores de futebol e provavelmente até síndicos de condomínio entre um lado e outro. Seria estranho imaginar que o Supremo estivesse completamente imune.

Talvez esse seja o ponto mais delicado. Não interessa tanto saber se existem dois blocos organizados dentro da Corte. Pode até não existir nada parecido. O que importa é que começa a parecer que existe.

E instituição também vive de aparência, no bom sentido. Vive de liturgia, de previsibilidade, de distância dos humores da política. Não porque ministros sejam seres sem opinião ou sem história, mas porque a autoridade do tribunal depende de uma certa confiança de que, quando a disputa chega ali, alguma coisa muda de natureza. Sai da arquibancada e entra no processo. Sai da torcida e entra no Direito.

Se a sociedade começa a enxergar cada decisão como gol de um campo contra o outro, o estrago não fica restrito a uma sessão de julgamento.

O Brasil já está polarizado demais para precisar de uma tradução judicial dessa mesma divisão. Nas ruas, nas redes sociais, no Congresso, nas campanhas eleitorais, isso já produz barulho suficiente. O Supremo deveria ser justamente um dos lugares onde essa temperatura baixa um pouco. Não precisa haver unanimidade, cordialidade permanente nem aquela ficção de que onze ministros são uma família feliz. Basta que a divergência não assuma cara de trincheira.

Talvez ainda não tenha chegado a esse ponto. Talvez parte dessa leitura seja produzida por um país que enxerga política em tudo. Mas também não dá mais para tratar cada novo atrito como se fosse um episódio isolado, um desentendimento de ocasião, uma rusga entre ministros que daqui a pouco passa. Alguma coisa está ficando mais funda.

E o risco maior talvez nem esteja dentro do prédio do Supremo.

Está do lado de fora, quando a sociedade começa a olhar para o tribunal e reconhecer ali exatamente a mesma divisão que vê nas ruas. Nesse momento, não importa muito quem começou, quem tem razão ou qual ministro está de qual lado. A rachadura já saiu do plenário.

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