A opinião de Maria José Rocha Lima: Therezamaria e Miguezim de Princesa; quando a poesia encontra morada

Há pessoas que transformam a vida em poesia

A opinião de Maria José Rocha Lima: Therezamaria e Miguezim de Princesa; quando a poesia encontra morada
A opinião de Maria José Rocha Lima: Therezamaria e Miguezim de Princesa; quando a poesia encontra morada

Por Maria José Rocha Lima - Zezé - 27/06/2026 12:19:51 | Foto: Divulgação Maria José Rocha Lima

Há pessoas que transformam a vida em poesia. Outras fazem da poesia uma forma de viver. Quando essas duas vocações se encontram, nasce um acontecimento que ultrapassa a simples realização de um sarau: inaugura-se um espaço de comunhão entre a palavra, a beleza e a amizade.

Foi essa a impressão deixada pelo encontro entre Therezamaria e Miguel Lucena Filho, o eterno Miguezim de Princesa. Ela, mulher que "não se cansa da guerra" — não a guerra da violência, mas a batalha cotidiana em favor da cultura, da delicadeza e da beleza. Ele, homem que "não dispensa a peleja", porque sabe que todo poeta trava diariamente o combate da palavra contra a indiferença, da sensibilidade contra a pressa, da memória contra o esquecimento.

O encontro ocorreu na casa de Therezamaria, e dificilmente haveria cenário mais apropriado. Sua residência parece ter sido concebida para acolher a poesia. Cada ambiente revela um cuidado artístico singular; cada ornamento dialoga com a sensibilidade; cada detalhe convida à contemplação. Não é apenas uma casa. É um verdadeiro salão da beleza, da leveza, da alegria e da hospitalidade, onde os visitantes percebem que a arte não está apenas pendurada nas paredes, mas habita o espírito da anfitriã.

O sarau começou com Miguezim apresentando-se por meio de um poema, como fazem os verdadeiros poetas: deixam que a palavra revele aquilo que a biografia jamais conseguiria dizer completamente. Em seguida, Therezamaria respondeu com um poema de Federico Garcia Lorca sobre o nome, estabelecendo um diálogo que uniu duas tradições literárias: a poesia nordestina e a grande lírica espanhola. Não eram apenas versos sendo recitados; eram almas reconhecendo-se pela linguagem da arte.

A história de Therezamaria ajuda a compreender a naturalidade desse encontro. Amante da literatura e da poesia, ela pertenceu à escola de Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti, casal que durante meio século iluminou a literatura brasileira com inteligência, sensibilidade e refinamento estético. Dessa convivência, Therezamaria herdou não apenas o gosto pelos livros, mas a convicção de que a beleza é uma forma de resistência cultural.

Miguel Lucena Filho, o querido Miguezim de Princesa, traz consigo uma trajetória igualmente admirável. Poeta desde a infância, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas da poesia nordestina contemporânea. Em 2010, recebeu o Prêmio Patativa do Assaré, concedido pelo Ministério da Cultura, reconhecimento que confirma a força de sua obra. Autor de diversas publicações, sua produção literária ultrapassou fronteiras nacionais, chegando inclusive ao interesse acadêmico do Trinity College, nos Estados Unidos, demonstrando que a poesia nascida no sertão dialoga com o mundo inteiro.

O encontro dos dois simboliza muito mais do que uma agradável reunião de amigos. Representa o reencontro da cultura com a hospitalidade, da memória com a criação, da tradição com a permanência da palavra. Em tempos marcados pela superficialidade e pelo imediatismo, abrir uma casa para a poesia é um gesto quase revolucionário.

Afinal, a verdadeira guerra de Therezamaria e a permanente peleja de Miguezim possuem o mesmo objetivo: preservar aquilo que faz do ser humano um ser capaz de sonhar. Ambos compreendem que a poesia não resolve todos os problemas do mundo, mas impede que o mundo perca sua humanidade.

Talvez seja esse o maior ensinamento daquele sarau. Enquanto existirem casas abertas à poesia, poetas dispostos a oferecer seus versos e ouvintes capazes de acolhê-los, haverá esperança. Porque a beleza continua sendo uma das formas mais profundas de resistência, e a palavra poética permanece como um dos mais belos caminhos para aproximar os corações.

Tudo isto enriquecido pela presença da sua amada nora Lucimar de Melo Bonfim e das amigas de décadas, Jaqueline e Almerinda.


*Maria José Rocha Lima
Professora, mestre em Educação, doutora em Psicanálise. Deputada baiana de 1991 a 1999.

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