A opinião pessoal do colunista João Zisman: O cotidiano que sustenta a capital

Emprego, chuva, obras, cultura e pequenas histórias revelam que Brasília é feita menos pelos grandes embates do poder e mais pela rotina de quem insiste em fazê-la funcionar

A opinião pessoal do colunista João Zisman: O cotidiano que sustenta a capital
A opinião pessoal do colunista João Zisman: O cotidiano que sustenta a capital

Por João Zisman - 16/06/2026 10:22:35 | Foto: Ao lado do Espaço Lucio Costa está o Museu Histórico de Brasília ou o Museu da Cidade - Pedro Ventura/Agência Brasília

Brasília costuma ser julgada pelos dias em que grita. As crises, os escândalos, as operações policiais e os embates entre os Poderes acabam criando a impressão de que a capital só merece atenção quando está em combustão. Mas há muito a aprender quando ela volta a falar baixo.

Esta terça-feira é um desses dias.

Depois de semanas em que o caso BRB/Master sequestrou o debate público local, o Distrito Federal amanheceu sem uma grande crise para chamar de sua. E isso, curiosamente, diz muito sobre o momento político e social da cidade.

A política não desapareceu. Ela apenas saiu do palco principal. Nos bastidores, partidos reorganizam estratégias para 2026, a Câmara Legislativa se prepara para o segundo semestre e o Buriti aposta numa comunicação menos conflagrada e mais voltada à gestão. A temperatura caiu. Não por falta de interesses, mas porque todos parecem ter entendido que, após a turbulência, é preciso reconstruir normalidades.

Enquanto isso, a cidade real voltou a ocupar espaço.

Mais de quatro mil vagas de emprego foram abertas pelas Agências do Trabalhador. Em tempos de renda apertada e insegurança econômica, esse talvez seja o dado mais importante do dia. Para quem está desempregado, não existe debate institucional mais urgente do que a possibilidade concreta de voltar ao mercado.

Ao mesmo tempo, Brasília vive um fenômeno quase simbólico. Junho, tradicionalmente associado à seca, aos lábios rachados e aos primeiros sinais da estiagem, tornou-se o mês mais chuvoso em mais de seis décadas. Os ipês, que obedecem ao rigor do calendário climático da capital, atrasaram a florada. Até a natureza parece dizer que antigos padrões já não podem ser tratados como permanentes.

A cidade também se revela nos pequenos conflitos que raramente chegam às manchetes nacionais. Moradores da QNL 7, em Taguatinga, protestam contra poeira e atrasos em obras que interferem diretamente na qualidade de vida. A reclamação não envolve ideologia. Envolve calçadas, lama, trânsito e a sensação de abandono que nasce quando promessas não se transformam em entrega.

Há ainda as histórias humanas que ajudam a definir a identidade de uma comunidade.

O julgamento de um servidor do Senado acusado de atropelar e arrastar um jovem por quilômetros no Lago Sul reacende o debate sobre a lentidão da Justiça. A morte de Zé do Pedal mobiliza o luto de gerações de ciclistas e esportistas que viam nele uma espécie de patrimônio afetivo das ruas brasilienses. Um jovem violista aprovado em um conservatório europeu lembra que Brasília também exporta talento e excelência.

Tudo isso aconteceu no mesmo dia.

Talvez o maior erro seja imaginar que cidades são definidas apenas por seus momentos extraordinários. A vida coletiva se constrói, sobretudo, nos dias comuns. Quando alguém consegue emprego. Quando uma obra atrasa. Quando uma chuva muda a paisagem. Quando uma figura querida se despede. Quando a política conspira em silêncio.

Brasília amanheceu mais humana.

E talvez seja justamente nesses dias, quando ela parece menos interessada em disputar o noticiário nacional, que a capital revela sua face mais verdadeira: a de uma cidade feita menos pelos discursos de poder e mais pelas pessoas que insistem em fazê-la funcionar.

Porque o que sustenta uma cidade não são apenas suas crises.

São as suas rotinas. E a capacidade de continuar funcionando mesmo quando ninguém está olhando.

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