Debate mostra que Lula e Flávio precisam correr atrás dos votos dos indecisos
Por João Zisman - 24/10/2026 16:06:15 | Foto: João Zisman - Reprodução/TV Globo
O último debate presidencial, realizado na sexta-feira (23), merece uma análise que vá além da contabilidade dos ataques, das respostas mais contundentes ou da impressão sobre quem se saiu melhor. Com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados nas pesquisas, o confronto tinha uma função eleitoral muito específica: esclarecer dúvidas, reduzir resistências e oferecer argumentos capazes de converter votos, sobretudo entre aqueles que ainda não estavam inteiramente convencidos de suas escolhas. A questão é saber quanto dessa oportunidade foi efetivamente aproveitado.
O Datafolha havia identificado que 94% dos eleitores estavam totalmente decididos, enquanto apenas 6% admitiam mudar de posição. Entre os que votaram em outros candidatos no primeiro turno, porém, a possibilidade de mudança alcançava 23%. É um universo relativamente pequeno, mas suficientemente importante para merecer uma abordagem diferente daquela destinada às militâncias, que já acompanham os debates procurando argumentos para confirmar suas preferências.
Outro levantamento do instituto ajuda a compreender melhor o problema enfrentado pelos candidatos. Entre os eleitores de Flávio, 41% mencionavam espontaneamente a mudança e a alternância de poder como razões para o voto, enquanto 31% citavam a rejeição a Lula e ao PT. No eleitorado do presidente, a proteção social aparecia como motivação para 48%, seguida pelo desempenho e legado de seus governos, com 22%. Os entrevistados podiam apresentar mais de uma razão, mas a diferença entre as motivações é expressiva e fornece uma chave para interpretar o comportamento dos dois no estúdio.
Flávio precisava demonstrar que representa uma alternativa administrativa confiável, e não apenas a oportunidade de retirar Lula do poder. O presidente, por sua vez, tinha o desafio de convencer os eleitores de que sua experiência e suas políticas sociais ainda oferecem respostas para problemas que permanecem sem solução, especialmente o custo de vida, a segurança e a qualidade dos serviços públicos.
Foi nesse contexto que a postura inicialmente mais tranquila de Flávio ganhou importância. O senador trouxe números, procurou explorar dificuldades cotidianas e, sobretudo, recorreu repetidamente ao governador Tarcísio de Freitas, em referências que pareceram mais frequentes do que aquelas destinadas às realizações do governo de Jair Bolsonaro. A escolha sugere uma tentativa de apresentar referências de gestão que ultrapassem a identidade familiar e possam dialogar com eleitores conservadores, de centro ou simplesmente insatisfeitos com Lula, mas que ainda mantêm reservas em relação ao bolsonarismo.
O problema dessa estratégia é que a experiência estadual de Tarcísio, independentemente de seus resultados, não demonstra automaticamente a viabilidade nacional das propostas apresentadas por Flávio. Ainda assim, a tentativa de associar sua candidatura a uma administração em exercício, em lugar de depender exclusivamente da memória do governo de seu pai, foi uma das características políticas mais relevantes de sua participação.
Lula percorreu um caminho diferente, concentrando sua argumentação na valorização salarial, nos programas sociais, nos investimentos públicos e na educação. Falou sobre a ampliação do ensino em tempo integral e reafirmou compromissos com a infraestrutura educacional, mas permaneceu, durante boa parte do confronto, preso a uma exposição mais ampla das realizações petistas. Para o eleitor que já reconhece esses avanços, o discurso funciona como confirmação; para aquele que questiona os resultados atuais ou procura compreender como será o próximo mandato, a repetição do histórico administrativo pode ser insuficiente.
Na educação, por exemplo, os dois candidatos apresentaram propostas que mereciam maior aprofundamento, inclusive as de Flávio, voltadas à formação técnica, à tecnologia e à ampliação de oportunidades no contraturno escolar. A dificuldade comum foi explicar como financiar e executar essas iniciativas, principalmente quando dependem de articulação com estados e municípios. A distinção entre compromisso eleitoral e capacidade efetiva de implementação acabou recebendo menos atenção do que deveria.
Na segurança pública, Flávio endureceu o discurso sobre os territórios controlados por organizações criminosas, enquanto Lula questionou a eficácia das soluções apresentadas pelo adversário, classificando parte delas como bravatas. O assunto poderia ter permitido um confronto mais substantivo sobre competências federativas, inteligência policial e combate às estruturas financeiras do crime organizado, mas a discussão acabou avançando para episódios particulares e acusações relacionadas à trajetória política dos candidatos.
A partir daí, o debate começou a mudar de natureza, embora ainda preservasse momentos de discussão programática. Flávio intensificou as ironias e afirmou: “O atual presidente da República tem dois filhos que fizeram muito mal ao país, o Lulinha e o Tigrinho.” Lula devolveu no mesmo registro: “Não só o seu pai é o pai do Tigrinho, como você é o irmão. É filho do mesmo DNA.”
A troca demonstrou rapidez de reação dos dois, mas pouco esclareceu sobre as responsabilidades pela expansão das apostas online, cuja trajetória atravessa os governos Temer, Bolsonaro e Lula. A provocação tinha grande potencial de repercussão entre apoiadores, embora o problema do endividamento das famílias exigisse respostas muito mais consistentes do que uma disputa irônica de paternidade.
O penúltimo bloco trouxe Lula mais disposto a confrontar diretamente as afirmações de Flávio e a recorrer a acontecimentos específicos. Essa mudança se acentuou no encerramento, quando o presidente abandonou a postura predominantemente defensiva e passou a questionar de maneira incisiva as relações pessoais e empresariais do adversário. Flávio, que abriu o último bloco dirigindo-se às mulheres e novamente mencionando experiências da gestão Tarcísio, também recorreu às acusações envolvendo o governo petista.
Mas houve um episódio que merece ser distinguido da sucessão de ataques pessoais, justamente porque apresentou uma questão administrativa concreta, com documentos, personagens identificáveis e procedimentos que podem ser examinados: a disputa envolvendo o jogador Richarlison, o advogado Willer Tomaz e os direitos de ocupação de um imóvel na Ilha Comprida, em Angra dos Reis.
O caso não se resume à afirmação de que Flávio teria participado de uma negociação imobiliária controversa. Lula questionou a relação do senador com Willer Tomaz, apontou suspeitas de que o advogado poderia ser mais do que um amigo e trouxe à discussão a atuação da Secretaria do Patrimônio da União, a SPU, durante o governo Jair Bolsonaro. O ponto central da pergunta envolveu o coronel do Exército Paulo da Silva Medeiros, então responsável pela superintendência do órgão no Rio de Janeiro, cuja indicação ao cargo foi atribuída a Flávio em reportagens anteriores.
A controvérsia ganha relevância porque um pedido de regularização ligado a Richarlison aguardava análise desde setembro de 2021, enquanto o procedimento apresentado pela empresa de Willer Tomaz, iniciado em maio de 2022, foi concluído em julho daquele ano. Na etapa final, uma certidão de autorização para transferência foi emitida em apenas uma hora e quarenta minutos, depois de aproximadamente dois meses de tramitação administrativa. A diferença de prazos, por si só, não comprova favorecimento, sobretudo porque a SPU apontou dificuldades cadastrais no requerimento anterior, mas constitui uma circunstância objetiva que exige explicação.
Lula foi diretamente à questão da influência política sobre o órgão, afirmando que Willer teria conseguido a regularização com a participação de um coronel indicado pelo senador. Flávio negou a indicação, respondeu que não tinha qualquer envolvimento na disputa e atribuiu o prejuízo de Richarlison a problemas com seu próprio empresário. O advogado Willer Tomaz também sustenta que adquiriu legalmente os direitos sobre o imóvel e invoca decisões judiciais favoráveis à sua empresa.
A questão, entretanto, não se encerra na existência dessas decisões, assim como não pode ser resolvida pela simples associação pessoal entre Flávio e Willer. O terreno pertence à União e a controvérsia envolve direitos de ocupação, não a propriedade privada da ilha. A investigação sobre eventual interferência política na tramitação administrativa constitui uma discussão distinta daquela já enfrentada judicialmente sobre a posse do imóvel. Até o momento, não há comprovação de que Flávio tenha determinado a aceleração do procedimento, mas permanece relevante esclarecer a origem da indicação do coronel, a diferença de tratamento entre os requerimentos e a eventual participação de agentes políticos.
Esse foi um dos momentos em que o debate deixou de depender exclusivamente de acusações genéricas e apresentou uma questão passível de esclarecimento documental. Para um eleitor ainda em dúvida, especialmente aquele que considera a integridade administrativa um critério importante de escolha, perguntas dessa natureza podem ter significado diferente das provocações sobre familiares, festas ou relações pessoais. A resposta negativa de Flávio precisa ser considerada, mas não elimina a necessidade de compreender os procedimentos adotados pela administração pública.
Também cabe observar que Lula utilizou o episódio para anunciar providências de seu próprio governo, mencionando a possibilidade de revisão administrativa caso fossem confirmadas irregularidades. Trata-se de uma atuação legítima quando destinada à proteção do patrimônio público, mas que igualmente exige a separação entre responsabilidade institucional e interesse eleitoral, especialmente quando apresentada por um presidente candidato a dois dias da votação.
A discussão sobre Willer Tomaz avançou, ainda, para relações empresariais e financeiras atribuídas a Flávio, enquanto o senador procurou associar Lula a Daniel Vorcaro e a outras controvérsias envolvendo o governo. Nesse ambiente, denúncias de diferentes naturezas acabaram apresentadas em sequência, nem sempre acompanhadas dos elementos necessários para distinguir suspeitas, fatos documentados e responsabilidades comprovadas.
Foi justamente nesse deslocamento que o debate revelou sua principal contradição. Durante os primeiros blocos, Flávio havia procurado construir uma identidade administrativa capaz de dialogar com eleitores ainda resistentes à sua candidatura, enquanto Lula insistia em demonstrar a importância de preservar políticas públicas e programas sociais. No encerramento, ambos passaram a dedicar uma parcela considerável de suas intervenções à tentativa de comprometer a credibilidade do adversário.
Isso não significa que a discussão sobre corrupção e integridade seja estranha à conquista de votos. Ao contrário, a avaliação da conduta pessoal e da utilização do poder público pode pesar decisivamente na escolha de quem ainda hesita. A dificuldade surge quando as acusações passam a competir em quantidade e intensidade, sem que o eleitor receba informações suficientes para estabelecer a gravidade e a consistência de cada uma.
Há, nesse ponto, uma diferença essencial entre reforçar a rejeição ao adversário e conquistar confiança para governar. O eleitor pode ampliar sua desconfiança em relação a Lula sem passar a confiar em Flávio, assim como pode considerar graves os questionamentos sobre o senador sem se convencer de que o atual presidente tem as melhores respostas para os próximos quatro anos.
Esse aspecto merece atenção especial numa eleição marcada por índices tão elevados de rejeição e com uma parcela dos eleitores de outras candidaturas ainda aberta à mudança. Não se trata apenas de disputar quem permanece indeciso, mas também de dialogar com brasileiros cuja escolha pode estar mais associada ao receio de um candidato do que à confiança no outro.
O debate mostrou que Flávio procurou, especialmente no início, ultrapassar as fronteiras do bolsonarismo tradicional, enquanto Lula buscou defender a continuidade administrativa e, na reta final, explorar questionamentos específicos sobre a conduta do adversário. As duas estratégias podem alcançar públicos diferentes, mas também apresentam limitações que ficaram evidentes à medida que o confronto se intensificou.
A repercussão posterior, sobretudo nas redes sociais, provavelmente dará destaque às ironias, acusações e respostas mais contundentes. Isso não significa, necessariamente, conversão eleitoral, porque a circulação intensa de um trecho entre pessoas que já compartilham determinada preferência política pode ampliar o engajamento sem modificar a intenção de voto.
O último debate ofereceu informações relevantes, expôs divergências e trouxe questionamentos que merecem respostas independentemente do resultado das urnas. Mas a influência efetiva sobre o eleitorado ainda disponível à persuasão permanece uma questão em aberto, que não pode ser resolvida pela reação das militâncias nem pela avaliação subjetiva de desempenho.
O desafio de Lula e Flávio era transformar a rejeição ao adversário em confiança na própria candidatura. Os dois demonstraram conhecer as razões que sustentam seus eleitorados, mas o debate deixou dúvidas sobre quanto conseguiram avançar entre aqueles que ainda precisam de argumentos para votar, e não apenas de novos motivos para rejeitar.
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