A economia brasileira tem algumas contradições que, vistas de longe, parecem não combinar. Quando chegamos mais perto, porém, percebemos que não apenas convivem como ajudam a explicar o país que temos diante de nós
Por João Zisman - 17/08/2026 21:02:26 | Foto: Divulgação João Zisman
Uma delas apareceu com bastante nitidez nos últimos dias. Mesmo em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos e aos efeitos do tarifaço sobre determinados setores, as exportações brasileiras continuam fortes e as projeções já trabalham com a possibilidade de o país terminar o ano com superávit comercial superior a US$ 100 bilhões. Petróleo, soja e minério sustentam boa parte desse resultado e mostram uma economia que continua encontrando mercados, gerando divisas e funcionando apesar de um ambiente externo mais complicado.
Isso não torna o tarifaço irrelevante. Uma indústria que perde competitividade ou mercado nos Estados Unidos não será consolada pela informação de que o saldo comercial brasileiro bateu recorde. O que o número mostra é outra coisa: problemas importantes em determinados setores podem conviver com um resultado bastante positivo no conjunto da economia.
Até aqui, estamos olhando para fora.
Quando voltamos os olhos para dentro, a fotografia muda bastante.
Em junho, 9,1 milhões de empresas brasileiras estavam negativadas, acumulando R$ 232,9 bilhões em dívidas atrasadas. A enorme maioria é formada por micro e pequenos negócios, aqueles que raramente frequentam as grandes discussões sobre balança comercial, mas estão espalhados pelas cidades, empregam gente, compram de fornecedores e precisam fazer o caixa fechar todos os meses.
Não há necessariamente uma incoerência entre esses números. Há uma economia funcionando em velocidades e condições muito diferentes.
O Brasil pode exportar mais e, ao mesmo tempo, ter milhões de empresas com dificuldade para pagar suas contas. Pode produzir um superávit comercial extraordinário enquanto juros elevados tornam o crédito mais caro. Pode encontrar compradores para suas commodities no exterior enquanto o pequeno comerciante encontra um consumidor mais cauteloso diante da prateleira.
Outro número ajuda a perceber o que está acontecendo. Com os bancos mais seletivos, os próprios varejistas passaram a financiar uma parcela crescente das vendas. O crédito concedido com recursos das lojas, que representava 9,27% do faturamento em 2023, chegou a 15,52% em 2025.
Não é preciso complicar muito a interpretação. Quando o comerciante precisa assumir uma parte maior do financiamento para conseguir vender, a restrição do crédito já percorreu um caminho bastante longo. Saiu das decisões dos bancos e chegou ao balcão.
É nesse ponto que as contradições começam a interessar também à política.
A campanha eleitoral acaba de começar e haverá uma tentação compreensível de transformar cada número numa peça de argumentação. O governo poderá mostrar exportações fortes, atividade econômica e geração de divisas. A oposição terá à disposição juros, endividamento, inadimplência e as dificuldades enfrentadas por empresas e consumidores.
O curioso é que ambos poderão selecionar números verdadeiros.
O problema começa quando a seleção de uma parte da realidade passa a ser apresentada como se fosse a realidade inteira.
O superávit comercial não desaparece porque milhões de empresas estão negativadas. A dificuldade dessas empresas tampouco deixa de existir porque o Brasil vende muito petróleo, soja e minério para o mundo. Da mesma maneira, o país pode absorver no conjunto parte dos efeitos das tarifas americanas enquanto determinados setores pagam uma conta pesada pela perda de mercado.
Talvez seja essa a fotografia econômica mais interessante neste começo de campanha. Não a de um país que funciona ou de um país que não funciona, porque essa simplificação nos levaria muito pouco adiante. O Brasil funciona, produz, exporta, emprega e movimenta uma economia enorme. O que precisamos compreender é por que os resultados desse funcionamento chegam de maneiras tão diferentes às empresas e às pessoas.
Há dois Brasis aparecendo nos números, mas eles não estão separados.
O empresário que exporta, o pequeno comerciante que procura crédito, o consumidor que parcela uma compra e a indústria atingida por uma tarifa americana participam, cada um à sua maneira, da mesma economia.
No final, portanto, talvez o título seja menos uma figura de linguagem do que parece.
São dois Brasis.
Mas a conta é uma só.
Leia outras colunas O Estado das Coisas aqui .
Comentários para "A opinião pessoal do colunista de politica nacional João Zisman: Dois Brasis na mesma conta":