O TCDF põe o caso BRB em outra escala, o TSE julga Arruda e a reta final descobre que há coisas que campanha nenhuma consegue colocar na agenda
Por João Zisman - 24/09/2026 09:55:37 | Foto: Divulgação
R$ 2,7 bilhões ajudam a acordar qualquer quinta-feira. Foi nesse tamanho que o Tribunal de Contas do Distrito Federal entrou no caso BRB/Master, ao determinar a indisponibilidade cautelar de bens de cinco ex-integrantes da alta administração do banco. Não é condenação, não significa que esse dinheiro esteja perdido e tampouco autoriza distribuir culpas antes do julgamento. Mas também não é uma providência burocrática daquelas que atravessam uma sessão, ganham um carimbo e desaparecem numa gaveta.
O TCDF converteu a apuração em Tomada de Contas Especial, requisitou a auditoria independente e começou a colocar régua, documentos e valores numa história que durante meses chegou ao público aos pedaços. Uma mensagem aqui, uma conversa acolá, documentos encontrados pela Polícia Federal, versões que envelheciam quando aparecia a próxima peça. Agora o Tribunal tenta fazer algo menos cinematográfico e provavelmente mais incômodo: descobrir se houve dano, qual sua dimensão e quem eventualmente responde por ele.
No voto que fundamentou a cautelar aparecem expressões pouco triviais para uma operação bancária, entre elas “liquidez artificial” e “financiamento cruzado”, além da referência preliminar à possibilidade de uma engenharia financeira fraudulenta. A relatora, conselheira Anilcéia Machado, ressalvou que não está antecipando julgamento de responsabilidade. Convém respeitar essa fronteira, mas seria ingenuidade fingir que nada mudou. Uma cautelar de até R$ 2,7 bilhões acompanhada da abertura de uma Tomada de Contas Especial empurra o caso para outro patamar.
E tudo isso acontece quando faltam dez dias para a eleição.
Nesta quinta-feira, o Tribunal Superior Eleitoral julga o recurso de José Roberto Arruda contra o indeferimento de seu registro de candidatura ao Governo do Distrito Federal. O processo, relatado pelo ministro Dias Toffoli, chega ao plenário quando Arruda está em plena campanha e ocupa posição relevante nas pesquisas. Não se trata, portanto, de uma discussão jurídica acontecendo numa sala isolada do ambiente eleitoral.
A Quaest divulgada ontem colocou Celina Leão com 33%, Leandro Grass com 21% e Arruda com 17%. Pela margem de erro de três pontos percentuais, Grass e Arruda estão tecnicamente empatados. Na rodada anterior, Celina tinha 35%, Grass 17% e Arruda 18%. Não cabe espremer esses números até que confessem uma tendência que estatisticamente ainda não podem confessar, mas a fotografia mostra que a faixa abaixo da liderança ficou mais congestionada justamente quando uma decisão judicial pode mexer na composição da disputa.
Arruda recorreu, o recurso será julgado e a decisão produzirá seus efeitos jurídicos e políticos. O resto, antes dos votos dos ministros, pertence ao território das apostas, e eleição já tem pesquisa suficiente para que não seja necessário inventar mais uma.
O mais interessante talvez seja perceber como a reta final começa a escapar das mãos de quem gostaria de administrá-la. Campanhas gostam de agenda, enquadramento, tema do dia, vídeo pronto, adversário escolhido e surpresa devidamente marcada na planilha. A realidade costuma ter hábitos piores. Boa parte da conversa política do Distrito Federal nesta quinta-feira será determinada por dois tribunais, um avançando sobre uma crise bancária que se tornou um problema institucional de grandes proporções e outro decidindo uma questão jurídica que toca diretamente a eleição.
E nenhum deles perguntou aos marqueteiros se hoje era um bom dia.
A eleição entra nos últimos dez dias tentando acelerar enquanto o ambiente ao redor continua se mexendo. O BRB não saiu de cena porque começou o horário eleitoral, o caso Master não pediu licença à propaganda e o recurso de Arruda chegou ao TSE quando chegou. A campanha pode escolher o jingle, a caminhada, o vídeo e o assunto da entrevista. Não escolhe o calendário das instituições.
No BRB, a Tomada de Contas Especial terá de perseguir dinheiro, decisões, responsabilidades administrativas e eventual prejuízo, separando suspeita de fato e fato de responsabilidade. No TSE, os ministros farão hoje aquilo que lhes cabe: julgar o recurso que chegou à mesa. Depois haverá uma realidade jurídica concreta sobre a candidatura de Arruda e a eleição terá de incorporá-la.
A quinta-feira, portanto, amanheceu pouco obediente. Há uma pesquisa nova, uma disputa apertada abaixo da liderança, R$ 2,7 bilhões atravessados no caminho do BRB e um julgamento no TSE. Para uma campanha que gostaria de passar os próximos dez dias falando apenas daquilo que escolheu falar, é uma agenda bastante indisciplinada.
Talvez ainda seja cedo para pedir ordem.
*Pesquisa Quaest/TV Globo. Registro DF-02596/2026. Foram entrevistados presencialmente 1.104 eleitores do Distrito Federal entre 19 e 22 de setembro de 2026. Margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.*
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