A opinião pessoal do colunista Miguel Lucena: O Aleph; o infinito visto por um ser humano

O que Borges propõe é uma pergunta antiga da filosofia: seria possível conhecer a totalidade da realidade?

A opinião pessoal do colunista Miguel Lucena: O Aleph; o infinito visto por um ser humano
A opinião pessoal do colunista Miguel Lucena: O Aleph; o infinito visto por um ser humano

Por Miguel Lucena - 15/06/2026 16:35:19 | Foto: Divulgação Miguel Lucena

O Aleph, de Jorge Luis Borges, é muito mais que um conto fantástico. É uma reflexão profunda sobre os limites do conhecimento humano diante do infinito.

No porão da casa de Carlos Argentino Daneri, o narrador encontra o Aleph: um ponto microscópico que contém todos os pontos do universo. Ao olhar para ele, vê simultaneamente oceanos, desertos, cidades, rostos, mortos, vivos, estrelas, lembranças e acontecimentos. Tudo está ali, ao mesmo tempo.

O que Borges propõe é uma pergunta antiga da filosofia: seria possível conhecer a totalidade da realidade?

A resposta parece ser não. O narrador vê o universo inteiro, mas não consegue descrevê-lo plenamente. A linguagem falha. As palavras são sucessivas; o Aleph é simultâneo. A experiência do infinito excede a capacidade humana de compreensão.

Há também uma dimensão teológica. Em muitas tradições religiosas, somente Deus pode contemplar todas as coisas ao mesmo tempo. O Aleph seria uma metáfora da onisciência divina: um ponto onde nada se perde, nada se esconde e tudo está presente.

O conto dialoga ainda com a física moderna. Muito antes de a internet conectar bilhões de pessoas e décadas antes do advento da inteligência artificial, Borges imaginou um ponto capaz de reunir toda a informação do universo. O Aleph surge, assim, como uma espécie de biblioteca infinita, um arquivo absoluto da existência.

Mas Borges também ironiza a vaidade humana. Mesmo diante do infinito, os personagens continuam presos aos seus ciúmes, rivalidades e ambições literárias. O universo cabe em um ponto, mas o ser humano continua preocupado consigo mesmo.

Talvez essa seja a grande lição do conto: o infinito existe, mas somos criaturas finitas. Podemos contemplar apenas lampejos da totalidade. Ainda assim, esses breves vislumbres já são suficientes para nos lembrar do mistério e da grandeza da existência.

Ao final da leitura, permanece a sensação de que Borges não escreveu apenas sobre um objeto imaginário. Escreveu sobre o desejo humano de compreender tudo, de vencer as limitações do tempo, do espaço e da própria condição humana. Um desejo tão antigo quanto a filosofia e tão atual quanto a era digital.

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