Campanha de Flávio usará veto a visita para reforçar papel de porta-voz de Bolsonaro e isolar Michelle

No documento, a defesa também afirma que o ex-presidente não buscou terceiros para contornar as restrições e permanece fiel às cautelares desde o início do regime domiciliar

Campanha de Flávio usará veto a visita para reforçar papel de porta-voz de Bolsonaro e isolar Michelle
Campanha de Flávio usará veto a visita para reforçar papel de porta-voz de Bolsonaro e isolar Michelle

Ana Pompeu E Luísa Martins-brasília, Df (folhapress) - 16/07/2026 16:21:14 | Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

CAROLINA LINHARES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O veto de contato entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), será usado para ampliar a autoridade do presidenciável do PL e isolar politicamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), segundo articuladores da pré-campanha.

Na leitura desse grupo de políticos, a decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes de proibir visitas de Flávio a Bolsonaro por 90 dias, ou seja, até depois do primeiro turno da eleição, não é de todo ruim.

Isso porque o revés veio logo após a carta em que o ex-presidente afirma que Flávio é seu "porta-voz", em quem confia. Se Bolsonaro agora estará incomunicável, dizem aliados do senador, o que vale é a sua última palavra -a mensagem em que dá autoridade ao filho.

Como mostrou a Folha, a equipe de Flávio busca, ainda assim, reverter a decisão de Moraes e aposta em um pedido da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para isso.

O veto às visitas de Flávio ocorreu justamente em função dessa carta -divulgada pelo presidenciável em transmissão nas redes sociais no sábado (11), o que Moraes entendeu ser uma violação das medidas cautelares impostas a Bolsonaro.

No primeiro levantamento da Genial/Quaest após Michelle ter publicado um vídeo em que afirmou que Flávio a maltratou, o presidente Lula (PT) apareceu com vantagem sobre Flávio de oito pontos em simulação de segundo turno -45% a 37%.

A pesquisa mostra que a rejeição a Flávio, a maior entre os pré-candidatos, em viés de alta, é de 57%.

Ainda na visão de nomes próximos a Flávio, a carta, seguida da proibição das visitas, dá ao senador a liberdade de tomar sozinho as decisões políticas da sua campanha eleitoral, que antes necessitavam de aval do ex-presidente.

De acordo com o monitoramento da prisão domiciliar de Bolsonaro feita pela Polícia Militar, Flávio esteve com o pai ao menos 26 vezes entre 27 de março e 17 de junho. O senador estava autorizado a visitar o pai em dias específicos, seja na condição de filho ou na condição de advogado do ex-presidente.

A consequência de ampliar o isolamento de Bolsonaro em casa, segundo aliados de Flávio, é intensificar também a distância de Michelle na disputa eleitoral, o que seria benéfico dada a recente exposição da disputa de poder entre enteado e madrasta.

Apesar de Michelle ter acesso a Bolsonaro e Flávio não, ela não estaria autorizada a falar pelo ex-presidente, ao contrário do senador. Sem a intermediação do ex-presidente, articulações políticas da ex-primeira-dama para favorecer alianças e candidatos que defende tendem a ser ignoradas por Flávio.

Interlocutores de Flávio argumentam que, em relação à campanha, as principais decisões sobre palanques estaduais, alianças nacionais e programa de governo já foram tomadas, o que ameniza a ausência de Bolsonaro nas articulações.

Para aliados de Michelle, a avaliação é a mesma, de que a ex-primeira-dama já fez o que tinha que fazer e não iria se envolver mais na disputa eleitoral nacional. Suas opiniões, estratégias e apoio a candidatos já foram divulgados.

A equipe da ex-primeira-dama, porém, que foi demitida com a saída dela do PL Mulher, criou um perfil no Instagram chamado Imparáveis MB para divulgar novidades do movimento capitaneado por ela, segundo a descrição do próprio grupo.

Em participação no Flow Podcast nesta quarta (15), o presidenciável disse não ter relações com a ex-primeira-dama e afirmou que não esperava a atitude de divulgar vídeo com críticas.

"Com toda a franqueza, hoje em dia, eu não tenho relação com ela [Michelle]. Ainda mais agora que eu estou proibido de falar com meu pai. Eu ia lá na casa dele de vez em quando", disse o senador.

Ele disse estar disposto a dialogar e que "precisa de todo mundo".

Defesa de Jair Bolsonaro diz ao STF que ele não sabia de divulgação de carta por Flávio

A defesa de Jair Bolsonaro (PL) afirmou ao STF (Supremo Tribunal Federal) que o ex-presidente não sabia que a carta seria tornada pública pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ao mesmo tempo, também não sabia que o material violava as regras impostas pelo ministro Alexandre de Moraes.

"Em periodo recente, quando submetido as mesmas limitacoes condicionantes, outras correspondencias por ele redigidas sem que isso houvesse ensejado qualquer questionamento quanto ao cumprimento das medidas entao vigentes, mesmo quando publicizadas", disseram os advogados.

A manifestação é assinada por cinco advogados que representam Bolsonaro no processo da trama golpista, além do próprio Flávio Bolsonaro.

No documento, a defesa também afirma que o ex-presidente não buscou terceiros para contornar as restrições e permanece fiel às cautelares desde o início do regime domiciliar.

"A circunstancia de a carta ter sido posteriormente divulgada em redes sociais decorreu de decisao adotada sem que houvesse previa ciencia do Peticionario", afirmaram.

Na segunda-feira (13), Moraes proibiu Flávio de visitar o pai por 90 dias após entender que o senador descumpriu a medida cautelar que veta o ex-presidente de usar redes sociais, diretamente ou por terceiros, ao divulgar uma carta de Bolsonaro no fim de semana.

Na carta, Bolsonaro afirma que Flávio é seu "porta-voz" e o candidato escolhido para representá-lo politicamente.

O ministro disse que o senador usou "expressões com carga semântica equivalente a pedido explícito de voto" e classificou a conduta de Flávio como "instrumento de promoção política".

Depois da medida, advogado da pré-campanha de Flávio Bolsonaro Tracy Reinaldet afirmou, em nota, que a decisão de Moraes é ilegal e inconstitucional e que a equipe tomará medidas para revertê-la, "sempre respeitando as instituições".

A defesa argumentou que o veto desrespeita a Lei de Execução Penal, o Estatuto da Advocacia e a Constituição Federal por impedir a visita de familiar e o de manter contato com o mundo exterior.

O senador tinha acesso livre ao pai pela inscrição como advogado no caso.

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