Policia Federal diz que assessora tinha aval da presidência da Câmara para desviar emendas a Cunha

A decisão é um desdobramento da Operação Transparência, que investiga a possível ingerência ilícita de Cunha no direcionamento de verbas públicas, mesmo sem exercer mandato parlamentar desde 2016

Policia Federal diz que assessora tinha aval da presidência da Câmara para desviar emendas a Cunha
Policia Federal diz que assessora tinha aval da presidência da Câmara para desviar emendas a Cunha

Raquel Lopes-brasília, Df (folhapress) - 13/07/2026 08:28:27 | Foto: © 27 19:03:29 - Agência Brasil

MATEUS VARGAS-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em documentação enviada ao ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), a Polícia Federal afirma que há indícios de que a presidência da Câmara autorizou a assessora parlamentar Mariângela Fialek a desviar emendas para o ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG).

A apuração embasou a ordem de Dino para bloquear R$ 6,15 milhões de Cunha pela suposta ingerência ilegal no direcionamento das verbas.

Os documentos da PF reproduzidos na decisão do ministro do STF não citam o nome do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), mas os diálogos entre Cunha e Mariângela e a liberação das verbas ocorreram em 2025, quando ele comandava a Câmara.

"Tudo indica que Tuca [apelido de Mariângela] contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas em favor de Eduardo Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto", afirma a PF.

O presidente da Câmara ainda não se manifestou sobre a decisão de Dino e a apuração da PF.

No sábado (11), Motta saiu em defesa do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Ele falou em "intervenção judicial" indevida ao se referir à ordem de Dino de bloquear R$ 119 milhões do dirigente partidário por causa da suspeita de desvio de emendas.

Em nota, a defesa de Mariângela Fialek afirma que ela atuava de forma "estritamente técnica, apartidária e impessoal".

Na documentação enviada a Dino, a Polícia Federal afirma que ela "sabia que estava atuando em zona cinzenta" ao supostamente contornar fluxos formais para ajustar a destinações de emendas "conforme interesses privados".

A PF também diz que Eduardo Cunha opera como agente privado com poderes políticos equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício, "interferindo no direcionamento de recursos federais sem qualquer autorização institucional".

Em diálogos entre Cunha e Mariângela, reproduzidos pelos investigadores, o ex-presidente da Câmara também fez menção a "Hugo" em setembro de 2025.

Segundo a PF, Tuca havia procurado o ex-deputado para "aparentemente" enviar alguma informação. Depois de ela enviar e apagar uma mensagem, Cunha teria dito: "Tive ontem com Arthur. Hugo me ligou à noite. Enfim, tentando ajudar. Mas Arthur tem razão".

Os trechos da investigação mencionados na decisão de Dino não explicam se Arthur é Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara.

A decisão de bloquear valores de Cunha é um desdobramento da Operação Transparência, que investiga a possível ingerência ilícita do ex-deputado no direcionamento de verbas públicas, mesmo sem exercer mandato parlamentar desde 2016.

Segundo a PF, a investigação aponta que Cunha coordenava diretamente a destinação de, pelo menos, 29 emendas da Comissão de Saúde, totalizando um valor de R$ 6,15 milhões.

A defesa de Eduardo Cunha disse, em nota, que soube da decisão pela imprensa e que ele não foi intimado nem chamado a prestar esclarecimentos antes da decretação do bloqueio de bens.

Afirmou ainda que Cunha não exerce mandato e, portanto, não apresentou, subscreveu ou formalizou nenhuma das emendas mencionadas nas reportagens. "A defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar", disse, em nota.

De acordo com a nota, o valor bloqueado refere-se ao total das emendas sob investigação e não comprova desvio da verba. A defesa afirma que Cunha desconhece irregularidades na tramitação dos recursos e informa que buscará acesso aos autos para exercer o direito de defesa.

Flávio Dino manda bloquear R$ 6,1 milhões de Eduardo Cunha em investigação sobre emendas

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões do ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG).

A decisão é um desdobramento da Operação Transparência, que investiga a possível ingerência ilícita de Cunha no direcionamento de verbas públicas, mesmo sem exercer mandato parlamentar desde 2016.

A determinação de bloqueio é de segunda-feira (6), mas se tornou pública neste domingo (12).

Cunha foi procurado pela reportagem por mensagem de WhatsApp, mas ainda não retornou o contato.

A Polícia Federal afirma ter indícios de que Eduardo Cunha atuava como um "vetor relevante" na definição e remanejamento de emendas, utilizando-se da servidora da Câmara dos Deputados Mariângela Fialek, conhecida como Tuca.

Segundo as investigações, Tuca operava como braço direito de Cunha dentro da Casa Legislativa, ignorando fluxos formais para materializar as decisões do ex-deputado.

Análises de mensagens telemáticas revelaram que Cunha coordenava diretamente a destinação de, pelo menos, 29 emendas da Comissão de Saúde, totalizando um valor de R$ 6,15 milhões.

O caso envolve municípios de Minas Gerais, estado que Cunha usa como nova base política para tentar voltar à Câmara as próximas eleições.

"Em várias passagens, o ex-deputado revela contar com uma cota informal de valores, que era direcionada conforme as diretrizes e interesses políticos no Estado de Minas. Várias foram as trocas de municípios e indicações, tudo conforme diretrizes repassadas diretamente pelo ex-deputado", diz o ministro, na decisão.

O ministro suspendeu ainda a execução de todas as despesas públicas ligadas às emendas identificadas, estejam elas em fase de empenho, liquidação ou pagamento.

A Câmara dos Deputados foi intimada a fornecer, em 10 dias, todos os documentos de tramitação interna das emendas citadas na investigação.

Dino enfatizou que o orçamento secreto não pode degradar o erário à condição de patrimônio privado e que a falta de transparência e rastreabilidade fere os princípios constitucionais da administração pública.

O ministro ressaltou que a conduta configura, em tese, o crime de peculato-desvio, uma vez que Cunha, um agente privado sem autorização institucional, interferia na alocação de recursos federais para fins pessoais e eleitorais.

Em janeiro, reportagem da Folha mostrou que o ex-presidente da Câmara enviou para a cidade de João Pinheiro (MG) uma emenda de R$ 1 milhão assinada pelo deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG).

Cunha passou mais de três anos preso em decorrência de investigação na Operação Lava Jato e posteriormente conseguiu a anulação de suas condenações.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, foi alvo de bloqueio de bens, também por ordem de Dino, na última semana. A suspeita é de que ele direcionava as verbas de emendas mesmo sem ter mandato parlamentar.

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